Capítulo 50- Primeira Risada

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Reed Walsh

A brincadeira não durou muito. Alguém passou mal, não sei quem, nem me importei em perguntar. O riso morreu rápido, e um a um, os adolescentes se retiraram. Agora restam apenas quatro aqui fora.

Samy, seu primo, a Safira... e Kristhen.

Mas ela está afastada. Sentada sozinha perto de uma árvore, parecendo alheia a qualquer presença humana. Os olhos voltados para o céu, como se buscassem respostas entre as estrelas, ou talvez só fugas. Tento observá-la, mas não por muito tempo. Samy sempre tem algo novo pra me puxar de volta.

— Posso ler sua mão e descobrir o futuro? — ela pergunta, com aquele brilho infantil nos olhos.

— Tá. — estendo a mão, sem paciência, mais por tédio do que curiosidade.

Enquanto ela traça caminhos invisíveis na minha pele, aproveito o momento de distração dela pra olhar de novo. A distância entre nós me permite ver Kristhen. A cabeça dela repousa contra o tronco da árvore, levemente erguida, como se o céu fosse um espelho onde tenta ver o pai.

O pé dela bate no chão com uma calma irritante, um tique involuntário. Os dedos brincam com o colar que eu dei. É nisso que ela pensa? No presente? Ou no que ele representa?

O cabelo preto está solto, e o vento da montanha brinca com as mechas como se tentasse confortá-la. Mesmo com o rosto meio escondido pela sombra, dá pra ver a concentração firme no olhar, o jeito como ela se fixa no infinito, como se aquilo a mantivesse de pé.

— Você vai ter um futuro brilhante, com o seu primeiro amor ao seu lado — Samy anuncia, com voz suave. — Vão ter três filhos... e vão morar fora dos Estados Unidos.

Me seguro pra não rir. Primeiro amor? Samy? Sai dessa. Nem em outra vida. E três filhos? Eu mal dou conta de mim mesmo. Casar, criar família? Não. Ainda não. Tenho muita merda pra viver antes disso.

— É mesmo? — pergunto, só pra ver até onde vai a fantasia.

— Sim! Olha aqui. — ela desenha algo na minha mão, seguindo linhas que ela mesma inventa — Consegue ver seu primeiro amor? Em como vocês estão felizes? Não tente negar seu futuro, Reed.

— Claro, vidente.

— Para de zombar. — ela franze a testa, mas logo se desfaz num bocejo comprido. — Céus, acho que já vou dormir. — olha pra irmã. — Vamos, Safira. Amanhã a gente sai cedo.

Safira dá de ombros, se levanta com o primo, e desaparecem pra dentro das barracas.

— Você vem? — Samy me pergunta por último.

— Já vou.

— Só não fica acordado até tarde. — ela sorri e se afasta.

Silêncio. Finalmente.

Volto meu olhar pra Kristhen. Ela não se moveu um centímetro. Ainda ali, imóvel, contemplando o céu como se o universo inteiro estivesse prestes a lhe dar uma resposta. Eu espero que ela me olhe de volta. Espero que, se eu continuar olhando, ela vá perceber... mas não.

Me levanto, espero os últimos sons das barracas cessarem e caminho até ela. Me sento ao seu lado. Não tão perto, não tão longe.

Ela não desvia os olhos. Fico tentado a perguntar o que vê lá em cima, mas escolho o silêncio.

O céu está particularmente limpo esta noite. Por estarmos no alto da montanha, as estrelas parecem absurdamente próximas, como se pudessem ser tocadas.

— Disse que não gostava das estrelas. — comento.

— Às vezes não gosto. — sua voz vem baixa, sincera. — Meu pai morreu... e toda vez que olho pro céu, meu coração dói. Ele amava observar as estrelas.

KristhenOnde histórias criam vida. Descubra agora