Capítulo 69- O Peso Que Eu Carrego

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Kristhen Zillord

As mãos dele, grandes e firmes, voltam a segurar meu rosto com cuidado. Os olhos escuros de Pierre varrem meu semblante, procurando por respostas que eu me recuso a dar. Uma sombra de tristeza desce sobre seu rosto, pesada, silenciosa. Ele passa os dedos quentes pelas minhas bochechas molhadas, secando minhas lágrimas uma a uma, com um carinho que só piora a dor que carrego.

— Por quê? — sua voz falha um pouco, mas ele mantém o olhar fixo em mim. — Por que você não me conta o que está acontecendo? O que você esconde de mim, Kristhen? Esse choro... não é de hoje. É de anos, de culpa, de algo que você carrega sozinha. Não faz isso com você mesma. Me deixa ajudar. Me deixa dividir esse peso com você.

Meu peito aperta. Eu mordo os lábios com força, tentando conter o tremor.

— Desculpa... eu não posso...

— Por que não? — ele se inclina mais perto, a voz saindo tensa. — Você não confia em mim?

— Não é isso... — desvio o olhar, lutando com cada célula do meu corpo para não despejar toda a verdade — Eu... simplesmente não posso te contar. Desculpa...

— Está com medo de eu te odiar? — ele pergunta, ferido — Porra, Kristhen... se você me contar tudo, tudo mesmo... eu não vou te odiar. Nunca faria isso. Eu só quero ajudar você, tirar esse fardo dos seus ombros. Só... confia em mim, por favor.

Balanço a cabeça em negação, o estômago em um nó que parece me rasgar por dentro. Ele não pode saber. Kefhera vai matá-lo. E essa... essa é a única maneira de mantê-lo vivo até que seus pais biológicos o encontrem. Até lá, ele precisa continuar sem saber.

— Me desculpa... eu sou tão idiota...

— Não. — a voz dele é firme, e sua testa se franze. — Você não é. Nunca diga isso de novo.

Ele volta a limpar meu rosto, mas seus olhos brilham com algo mais profundo. Admiração? Dor? Raiva por não poder fazer mais?

— Você é incrível — ele diz, com uma convicção que me desmonta. — Eu te acho uma mulher incrível. Forte pra caralho. Corajosa. E se acha que vou te deixar sozinha com isso tudo, está errada.

Eu apenas concordo com a cabeça. Não consigo falar. A garganta fechada, os olhos ardendo. Ele me envolve num abraço quente, e por alguns segundos, o mundo para.

— Tudo bem, tá? — ele murmura perto do meu ouvido. — Não chore... não gosto de te ver assim. Dói em mim. Mesmo que você não possa me contar... eu não vou te odiar pelo que está fazendo escondido. Só quero que você esteja bem.

— Você é bom demais pra mim...

— Não sou. Só quero cuidar de você. É só isso.

— Obrigada... por tudo isso...

Ele segura meu rosto de novo, e seus olhos me prendem com doçura crua.

— Não me agradeça. Apenas... permanece comigo. Só isso. Tudo bem?

Assinto. Ele sorri, aquele sorriso que acalma meu inferno interno. E então, nossos lábios se encontram num beijo curto, mas tão reconfortante que apaga, por um instante, toda a ansiedade latejando no meu peito. O abraço que vem depois me faz esquecer do mundo, esquecer até de quem eu sou. Nos braços dele... eu sou só alguém que quer viver.

Mas ele não sabe.

Não sabe o que está por trás disso tudo. Quando souber... vai me odiar. Mesmo que diga que não.

O celular vibra no bolso dele, quebrando o momento. Ele se afasta com um suspiro e atende.

— Oi, mãe — responde com a voz um pouco irritada. — Ah, não se preocupe, só saí pra comer, já tô indo. — me olha — Tá bem. Até mais.

KristhenOnde histórias criam vida. Descubra agora