Capítulo 71- A Máquina da Mentira

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Kristhen Zillord

Deixo a bandeja no balcão e cruzo os braços, encostada enquanto observo Pierre vasculhar o celular. Está empenhado em encontrar a receita do bolo perfeito. Disse que quer tentar fazer tudo sozinho, que anda interessado em gastronomia. Parece divertido... mas só espero que a comida não acabe no lixo.

— Se queimar ou ficar ruim, você vai engolir tudo. Não vamos jogar nada fora. — aviso, sem rodeios.

— Não vamos. — ele vira o rosto e me dá aquele sorriso despreocupado — Pega os ovos na geladeira pra mim?

Obedeço. Abro a geladeira, pego a cartela e coloco sobre o balcão. Pierre já separa o resto dos ingredientes, amarra o avental com agilidade e começa a medir tudo com uma precisão quase meticulosa. Nem olha mais pro celular.

— Não vai pegar mais dicas?

— Já decorei. — responde, focado.

Ele quebra três ovos numa vasilha redonda de plástico, sem errar a mão. A forma como ele está concentrado chega a ser cômica.

— Pode jogar a farinha pra mim?

Pego o pacote, abro, coloco uma boa medida na xícara... e espero ele virar o rosto. Então, atiro direto na cara dele.

Pierre para. Pisca. Assopra a nuvem branca que cobre seus lábios e limpa os olhos com a palma da mão. Me encara como se eu tivesse cuspido fogo.

— O quê...?

— Você pediu pra jogar a farinha. — deixo a xícara no balcão

— Era na vasilha! — ele se limpa outra vez, visivelmente indignado — Você fez isso de propósito?

— Não...

Ele fica me observando por alguns segundos, quase duvidando de mim. Mas decide me ignorar. Volta a preparar o bolo. Seguro o riso com força minha barriga chega a doer. Pierre mede novamente a farinha, coloca na vasilha. Uma vez. Duas vezes. Na terceira, percebo tarde demais.

Uma explosão branca cobre meu rosto inteiro.

— Ah... Desculpa, eu te confundi com a vasilha. Foi mal mesmo. — diz com um sorriso sacana, limpando meu rosto com a mão.

Abro os olhos e vejo os dele, divertidos. Ele se afasta, batendo as mãos para se livrar do pó. Um desgraçado bonito.

— Você sabe que posso tirar sua vida e te enterrar no quintal da sua casa, né?

— Credo... Você nem sabe brincar. — resmunga, voltando a bater a massa com naturalidade.

Molho um pano e limpo o rosto. Quando volto, ele já coloca o último ingrediente na tigela e mistura tudo com um movimento ritmado e até que impressionante.

— Vou ao banheiro. — aviso, passando por ele.

— Só não demora. Vou precisar de você.

Sigo pelo corredor até as escadas no fundo. Essa casa gigantesca, vazia e silenciosa me causa arrepios. Subo os três andares. Sei que tem banheiro no quarto do Pierre — é o único que conheço — mas ao passar por sua porta, meus olhos desviam para o corredor maior.

Eu sei onde fica o quarto da Elaine. E se estou aqui... não posso desperdiçar a chance.

Caminho rápido, atenta a qualquer ruído. Abro a porta do quarto dela devagar. Está vazio.

Fecho atrás de mim. O cômodo cheira a perfume caro e controle absoluto. Vou até o closet, acendo a luz e passo a mão pelas paredes forradas de roupas. Levo alguns segundos até encontrar o ponto certo. Um clique sutil. A parede externa desliza para o lado com um som grave.

Sigo o som até a entrada de uma escada oculta. Escura. Pego o celular e ligo a lanterna. Desço rápido, temendo que a porta se feche sozinha e eu fique presa.

Ao pisar no último degrau, as luzes se acendem por sensor.

O que vejo não é a pedra. É algo muito, muito mais sinistro.

Uma cadeira de contenção. Máquinas cercadas de cabos. Monitores com luzes piscando. Quadros repletos de cálculos complexos, esquemas anatômicos detalhados do cérebro humano. Tudo aqui respira ciência e crueldade.

— Então essa é a máquina que apagava a memória do Pierre...? — murmuro, sem conseguir conter.

Me aproximo da cadeira. Há marcas nas alças de contenção — sinais de luta. Sento no computador e o ligo. Ele inicializa com um fundo preto e o logo de um sistema próprio. Pastas nomeadas com datas, nomes... vídeos.

Abro o primeiro.

Pierre está amarrado na cadeira. Seus olhos estão arregalados, e a respiração, descontrolada. Elaine está sozinha. Uma cientista sádica em ação.

Ela ativa a máquina. Choques percorrem o corpo do garoto. Ele grita. Grita como se sua alma estivesse sendo arrancada.

A máquina para. Elaine abre uma pasta, conecta cabos na cabeça dele e vai até o computador. Começa a digitar. A mente de Pierre, em transe, entra num estado vegetativo.

— Vamos lá. Você se chama Reed Walsh, tem dezesseis anos. Eu sou sua mãe. Seu pai é Phillip Walsh. Você é um garoto tímido...

Ela molda a mente dele como se escrevesse um roteiro. Como se o criasse do zero. E ele... acredita. O vídeo acaba. Tem mais de vinte. Em todos, Pierre, ou outras pessoas. Testes. Falhas. Tentativas. Tortura.

Abro uma pasta de arquivos. Vejo os dados de Elaine. Cientista da NASA. QI fora da curva. Pediu demissão após perder o filho. Depois disso... criou seu próprio projeto, com tecnologia avançada, para apagar memórias, reprogramar personalidades e plantar narrativas. Tudo isso... para ter o Pierre de volta. Ou... alguém que parecesse com o filho que perdeu.

Ela sumiu do mapa. E ninguém percebeu o monstro que virou.

Volto a respirar com dificuldade. Preciso sair daqui. Mas não resisto e vasculho mais gavetas. Vejo nomes. Pessoas. Históricos. Fichas de falha. Algumas pastas são confidenciais provavelmente sobre vítimas que ela nunca libertou.

Elaine não é só perigosa. Ela é uma arma viva. Se quisesse acabar com o mundo, teria feito com um simples vírus.

Fecho tudo. Coloco no lugar. E começo a subir.

No fim disso tudo... aquela mulher vai morrer.

Continua...

Cientista maluca tem que ter nesse livro 😂😂😂😂

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Cientista maluca tem que ter nesse livro 😂😂😂😂

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