Capítulo 55- Tão Inocente

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Kristhen Zillord

Caminhar atrás dele me dá a visão perfeita das costas. Reed anda com os ombros levemente curvados, mochila balançando, e eu só consigo sentir pena. Ele não sabe de nada foi sequestrado, perdeu a irmã mais nova, está cercado por pessoas que mentem pra ele. Eu sou a pior delas.

Quando tudo vier à tona... quando ele recuperar cada memória apagada, a dor, o desespero e a verdade... a única certeza que tenho é que ele vai me odiar. Sem pestanejar.

Estou usando ele. Mantendo Reed sob controle apenas até conseguir a pedra. Estou literalmente impedindo que ele seja salvo, segurando sua vida como uma peça de troca. É crueldade da minha parte? Com certeza. Mas já estou mergulhada demais. Não posso fracassar agora — não por causa de um amigo de infância com olhos tristes.

— Você entendeu a matéria de História? Juro que estou perdido. — ele pergunta, abrindo a porta do quarto e se virando meio sem jeito.

— Sim. Em que parte você está perdido? — entro atrás dele e fecho a porta com um clique seco.

— Acho que... em todas as questões. — Reed deixa a mochila na cama e se volta pra mim, coçando a nuca num gesto nervoso.

— Por que não tirou dúvida com o professor? Pensei que já tinha superado essa sua vergonha.

— Eu... não prestei atenção na aula, literalmente. — ele hesita, desviando os olhos. — Fiquei meio... preso nos pensamentos. Quando o sinal tocou, percebi que não anotei nada.

— No que você estava pensando? — tiro a mochila do ombro e coloco sobre a cama também, sem tirar os olhos dele.

Reed parece querer enfiar a cara no chão. A mão ainda na nuca, os ombros travados, e as bochechas visivelmente vermelhas. Viro um pouco o rosto para observá-lo de lado. Merda. Ele tava pensando em mim?

— Tudo bem? — pergunto, tentando soar casual. — Você está vermelho.

— Hã? — ele arregala os olhos e se engasga na resposta. — A-Ah, s-sim, tô bem.

Ele dá um passo pra trás, como se minha presença queimasse. O rosto segue vermelho, a postura mais atrapalhada que o normal. Algo nele está diferente desde que saí por alguns minutos. O beijo na bochecha mexeu tanto assim com ele?

— Hm... — murmuro, contendo um sorriso. — Beleza. Me mostra sua tarefa.

— Claro... — ele se apressa, pega o caderno na mochila e começa a folhear, mais atrapalhado do que nunca.

Ele me entrega o caderno como quem entrega uma bomba. A página da lição de História está toda incompleta, mal copiada. A primeira questão está literalmente pela metade.

— Reed... você nem copiou direito a primeira questão. Como pode dizer que tá confuso na tarefa?

— A-Ah... — ele olha do caderno pra mim, e de mim pro caderno, desesperado. — E-Eu faço agora!

Ele arranca o caderno da minha mão, quase derrubando a mochila, tropeça nos próprios passos, e começa a juntar seus materiais. Tá todo atrapalhado. Isso tá hilário.

Um copo cai no chão e se espatifa.

— M-Merda! Desculpa! — ele se agacha no reflexo, pegando os cacos. Mas no processo, acaba derrubando uma caneta, um livro e um fichário da mesa.

É um caos silencioso, cômico. Um festival de desastres. Tento segurar o riso, cobrindo a boca com a mão, mas não dá. O jeito desajeitado dele é tão ridículo e fofo que minha barriga já começa a doer.

KristhenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora