Kristhen Zillord
Caminhar atrás dele me dá a visão perfeita das costas. Reed anda com os ombros levemente curvados, mochila balançando, e eu só consigo sentir pena. Ele não sabe de nada foi sequestrado, perdeu a irmã mais nova, está cercado por pessoas que mentem pra ele. Eu sou a pior delas.
Quando tudo vier à tona... quando ele recuperar cada memória apagada, a dor, o desespero e a verdade... a única certeza que tenho é que ele vai me odiar. Sem pestanejar.
Estou usando ele. Mantendo Reed sob controle apenas até conseguir a pedra. Estou literalmente impedindo que ele seja salvo, segurando sua vida como uma peça de troca. É crueldade da minha parte? Com certeza. Mas já estou mergulhada demais. Não posso fracassar agora — não por causa de um amigo de infância com olhos tristes.
— Você entendeu a matéria de História? Juro que estou perdido. — ele pergunta, abrindo a porta do quarto e se virando meio sem jeito.
— Sim. Em que parte você está perdido? — entro atrás dele e fecho a porta com um clique seco.
— Acho que... em todas as questões. — Reed deixa a mochila na cama e se volta pra mim, coçando a nuca num gesto nervoso.
— Por que não tirou dúvida com o professor? Pensei que já tinha superado essa sua vergonha.
— Eu... não prestei atenção na aula, literalmente. — ele hesita, desviando os olhos. — Fiquei meio... preso nos pensamentos. Quando o sinal tocou, percebi que não anotei nada.
— No que você estava pensando? — tiro a mochila do ombro e coloco sobre a cama também, sem tirar os olhos dele.
Reed parece querer enfiar a cara no chão. A mão ainda na nuca, os ombros travados, e as bochechas visivelmente vermelhas. Viro um pouco o rosto para observá-lo de lado. Merda. Ele tava pensando em mim?
— Tudo bem? — pergunto, tentando soar casual. — Você está vermelho.
— Hã? — ele arregala os olhos e se engasga na resposta. — A-Ah, s-sim, tô bem.
Ele dá um passo pra trás, como se minha presença queimasse. O rosto segue vermelho, a postura mais atrapalhada que o normal. Algo nele está diferente desde que saí por alguns minutos. O beijo na bochecha mexeu tanto assim com ele?
— Hm... — murmuro, contendo um sorriso. — Beleza. Me mostra sua tarefa.
— Claro... — ele se apressa, pega o caderno na mochila e começa a folhear, mais atrapalhado do que nunca.
Ele me entrega o caderno como quem entrega uma bomba. A página da lição de História está toda incompleta, mal copiada. A primeira questão está literalmente pela metade.
— Reed... você nem copiou direito a primeira questão. Como pode dizer que tá confuso na tarefa?
— A-Ah... — ele olha do caderno pra mim, e de mim pro caderno, desesperado. — E-Eu faço agora!
Ele arranca o caderno da minha mão, quase derrubando a mochila, tropeça nos próprios passos, e começa a juntar seus materiais. Tá todo atrapalhado. Isso tá hilário.
Um copo cai no chão e se espatifa.
— M-Merda! Desculpa! — ele se agacha no reflexo, pegando os cacos. Mas no processo, acaba derrubando uma caneta, um livro e um fichário da mesa.
É um caos silencioso, cômico. Um festival de desastres. Tento segurar o riso, cobrindo a boca com a mão, mas não dá. O jeito desajeitado dele é tão ridículo e fofo que minha barriga já começa a doer.
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Kristhen
RomanceReed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
