Reed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
— O quê? — ela leva a mão até a cabeça e geme baixo, sentindo dor.
— Você me chamou de Pierre.
Seus olhos pretos se voltam na minha direção, com uma confusão sutil por trás do cansaço. Ela demora a responder, parece vasculhar a própria memória, e depois fecha os olhos com um suspiro contido.
— Desculpa... te confundi com um amigo.
Fico em silêncio. Nem respondo, só observo. Só então percebo que ainda segurava a mão dela — a mesma que Kristhen agora puxa de volta com delicadeza, mas firmeza o suficiente para mostrar que queria aquele contato encerrado. Ela se ergue devagar da cama, ainda com o corpo ferido.
— Acho que conseguimos aguentar mais uns dois dias aqui sem energia... Não precisa subir pra religar. A casa deve estar um caos.
— Mas as velas não vão durar tanto.
— Tem mais no estoque. Não se preocupe. — diz, virando-se em direção à porta do quarto. A voz dela parece firme, mas... exausta. — Vou pro banheiro tomar um banho.
— Tem certeza que consegue? Não quer ajuda? Não sei se você tá cem por cento pra ficar em pé sozinha.
Ela para por um instante no corredor, mas não olha pra mim.
— Se eu precisar da sua ajuda, Reed... eu te chamo.
E então desaparece no escuro, como se quisesse levar o próprio silêncio com ela. A única coisa que fica no quarto é a fraca luz das velas tremendo na parede.
Vou para outro banheiro. Talvez um banho possa me ajudar também. Assim que entro... Tomo meu banho, escovo os dentes, me troco. Quando saio, passo pelo corredor e paro em frente à porta do banheiro de Kristhen. A água ainda corre lá dentro. Bato duas vezes.
— Kristhen? — aguardo, nada. — Tá com fome? — outro silêncio, só a água escorrendo. Bato mais uma vez, agora com um pouco mais de força. — Kristhen?
— Estou bem... — a voz dela surge abafada, baixa, como se falasse consigo mesma mais do que comigo. — Não estou com fome.
— Tá certo. Mas quando sair, me chama. Preciso olhar o corte da sua cabeça...
A tranca se solta. A porta se abre devagar. Lá dentro, o vapor ainda flutua no ar, misturado com o cheiro de sabonete. Kristhen está de costas, desligando o chuveiro. Seus cabelos molhados colam nas costas, e a toalha em volta do corpo mal cobre o curativo malfechado.
— Pode olhar.
Entro devagar, o piso frio me fazendo estremecer. Me aproximo e tiro o curativo com cuidado. O corte, próximo à testa, parou de sangrar, mas ainda está inchado. Vai precisar ser limpo direito.
— Vamos pro quarto. Preciso limpar isso melhor e trocar o curativo.
— Não precisa. — ela afasta minha mão, sem sequer me olhar nos olhos. — Eu faço. Pode ir comer, se quiser.
— Não tô com fome.
— Tudo bem então. — responde, quase num sussurro, parecendo... abalada. Mas por quê?
Ela passa por mim sem dizer mais nada, deixando uma leve trilha de gotas no chão. Sigo atrás. Kristhen pega a caixa de primeiros socorros e trata sozinha do machucado, como se fizesse aquilo desde sempre.
— Vai me dizer agora por que eles estavam atrás de mim?
— Querem te sequestrar. Pedir resgate em troca. Fui contratada pra impedir isso. — diz sem hesitar, remexendo no guarda-roupa. — Como já matei um, restam quatro.
— Mas... eles disseram que queriam me ajudar. Que não era pra confiar em você.
Kristhen congela por um segundo. Lentamente, vira a cabeça de lado — só o suficiente pra que eu veja seu perfil, mas não o rosto inteiro.
— Eles disseram isso?
— Sim. — me sento na cama. — E a forma como falaram... parecia real. Transmitiam segurança. Como você. Tenho certeza de que estavam tentando me proteger de algo. E não de você.
Ela para de mexer nas roupas e vira totalmente. Os olhos escuros agora me encaram com a intensidade de alguém que já viu muita merda na vida e não tem mais paciência pra ingenuidade.
— Reed. — ela respira fundo, contendo algo que claramente queria gritar. — Eu te falei sobre a Samy, lembra? Ela esfregava na sua cara que tava te usando. E você só acreditou quando ouviu ela dizendo que preferia te ver morto. Agora vai me ouvir de novo: eles não querem te proteger. Eles querem dinheiro. Você é o herdeiro de bilhões, e dessa belíssima mansão. Todo mundo quer um pedaço de você, mesmo que tenha que arrancar na porrada.
Ela diz com tanta convicção, que fico em silêncio. Mas aquela sensação permanece. Aqueles olhos azuis. Aquela voz calma. A preocupação. Não parecia fingimento.
Talvez eu esteja mesmo delirando...
— Certo... Acha que eles vão voltar?
— Eu espero que voltem. — ela diz, como se o próprio sangue fervesse. — Porque vou matar um por um.
Kristhen pega um vestido preto no armário e o veste ali mesmo, jogando-o por cima da toalha. Quando o tecido cobre seu corpo, ela puxa a toalha de baixo pra fora, como se aquilo fosse uma simples troca de uniforme.
— Vou preparar as armas. Já volto.
— Tem certeza que não quer comer nada?
— Absoluta. — ela solta os cabelos, que ainda pingam, e sai do quarto
Fico em silêncio. Por mais que eu tente me convencer... a dúvida ainda pulsa no fundo da minha cabeça:
E se eles realmente tentaram me salvar?
Continua...
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Será mesmo que eles querem fazer mal ao Reed?
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