Capítulo 11- Feia, Segundo Um Bêbado

18.6K 1.7K 541
                                        

Kristhen Zillord

De um lado para o outro, Elaine andava pelo escritório com as mãos nos quadris e os passos impacientes marcando o chão a cada segundo.

— E agora? Sem pista nenhuma! — resmungou, claramente frustrada.

— Senhora... já tentou conversar com os verdadeiros donos da moto? — arrisquei, hesitante.

— Não temos a placa. Impossível achar os donos sem isso — ela começa a roer a unha do dedão como se o gesto pudesse arrancar uma ideia da própria carne. — Só se...

Ela parou no meio da frase, os olhos se acendendo. Franzi a testa.

— Vamos fotografar as motos e divulgar. Assim achamos os donos verdadeiros — disse ela, firme, determinada.

Não era uma ideia ruim, mas... o mundo é cheio de idiotas. Alguns mentiriam só para aparecer.

— Tudo o que a senhora decidir fazer, eu apoio. — respondi, sincera.

— Ótimo. — ela se sentou com mais calma. — E a festa? Como foi?

— Reed... ele fez alguns amigos. E... — fiz uma breve pausa — ele vai sair no sábado com a garota de quem gosta.

— Sério?! — ela se levantou num pulo, com o sorriso mais largo que eu já tinha visto — Isso é perfeito!

— Vão ao shopping, depois ao parque aquático — acrescentei, e o brilho nos olhos dela aumentou.

— Meu menino tá crescendo tão rápido... — ela sorriu com um ar de nostalgia. — Onde ele está agora?

Droga.

— Ele está... nas escadas. — hesitei — Bêbado.

Aquela palavra matou o sorriso dela. Seus olhos piscaram rápido, como se o cérebro tentasse processar devagar o que ouvira.

— O... quê?

Merda. Lá vamos nós.

— Me desculpe, senhora. Ele só... acabou indo na onda dos outros e...

A batida seca da mão dela contra a mesa me calou na hora. O estalo ecoou na sala.

— Não vou dizer nada desta vez, porque foi a primeira festa dele. Mas na próxima, você vai arcar com as consequências. Fui clara?

— Sim, senhora. — me curvei, quase por instinto.

— Ótimo. — ela lançou o cabelo castanho para trás com um movimento seco e elegante. — Agora leve ele pro quarto. Dê banho, escove os dentes dele, coloque-o na cama e cuide pra ele não morrer de ressaca. Caso contrário, você vai dormir de guarda do lado de fora, sem comida, sem água, sem banheiro, sem descanso. Entendido?

— Sim! Já estou indo. — fiz uma reverência com pressa.

Saí do escritório com as costas suando. Reed estava sentado nas escadas, rindo sozinho enquanto mexia em... uma pedra.

— Olha! — exclamou, levantando o objeto e caindo para trás — Uma tartaruga.

— É uma pedra.

— É uma tartaruga! — ele franziu a testa, visivelmente irritado — Garota feia não tem opinião aqui.

Respirei fundo. Só não enterrei meu punho na cara dele porque tecnicamente, minha missão era protegê-lo. Não espancar.

— Vamos subir. Amanhã tem aula. — tentei pegar no braço dele, mas ele se soltou com força.

— Eu consigo sozinho! Não preciso da sua ajuda!

Ótimo. Espero que tropece e quebre os dentes.

Ele subiu os degraus cambaleando, segurando no corrimão. No último degrau, tropeçou, caiu de cara no chão e ainda soltou um gemido dramático.

Não consegui segurar. Ri. Só um pouco. Mas ele ouviu.

— Além de feia, ainda ri de quem cai. — mostrou o dedo do meio pela décima terceira vez desde que ficou bêbado. — Onde foi que minha mãe te achou, hein?

Juro por Deus, se eu tivesse uma pedra como a que ele confundiu com tartaruga...

Ele se levantou devagar, reclamando de dor e xingando o chão, depois seguiu cambaleando pelo corredor como se estivesse jogando um jogo de labirinto invisível. Derrubou dois quadros e quase levou uma mesinha junto. Fui recolocando tudo em silêncio, o escutando gritar pela casa ecoando sua voz.

— Reed, para de gritar! — sussurrei, irritada.

Ele se virou com a expressão vazia de bêbado, me encarou por um segundo... e caiu na risada. Mostrou o dedo do meio de novo.

Eu devia começar a contar pontos toda vez que ele fizesse isso.

Ele parou no meio dos corredores, girando o corpo de um lado pro outro, perdido.

— Por que essa casa tem que ser tão grande?

— Vamos escolher um quarto qualquer. — tentei pegá-lo pelo braço.

— Eu sei onde é! — puxou com força, tropeçou, bateu a cabeça de leve na parede — Ai! — bagunçou os próprios cabelos, resmungando.

Eu só o observei, já sem forças pra discutir. E assim ficou por vários minutos, andando em círculos, até que uma empregada apareceu e nos guiou até o quarto certo.

Reed entrou tropeçando e caiu de cara no chão.

— A partir daqui, eu cuido dele — agradeci à empregada, que parecia tão cansada quanto eu.

Com dificuldade, Reed se ergueu e olhou ao redor do quarto.

— Minha cama! — ele se jogou com tudo no colchão, esparramado.

— Você precisa de um banho antes. — digo, me aproximando. Tirei seus tênis com um pouco de esforço e o virei, suando com o peso.

— Sai fora! Eu não quero!

— Reed, anda logo! — puxei com mais força e ele se ergueu... caindo praticamente inteiro em cima de mim — Céus, que garoto pesado — murmurei entre dentes.

Tentei levá-lo ao banheiro, quase tropeçando nas próprias pernas. Ele parou de repente e me encarou, com aquele olhar chapado.

— Por que você quis ser minha segurança?

Fiquei em silêncio por dois segundos. A pergunta soou séria demais praquele momento.

— Porque quero terminar o que meu pai começou.

— Seu pai... ele era um ótimo homem. — a voz de Reed suavizou, quase sóbria. — Eu sinto muito por ele ter morrido... envenenado.

Fiquei imóvel.

Como...? Como ele sabia disso? Ninguém... ninguém nunca soube. E era impossível ele saber.

Continua...

Ele bêbado parece revelar quem realmente é

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Ele bêbado parece revelar quem realmente é...

Obrigada por ler! Não se esqueçam de votar, me ajuda muito. Beijos, vejo vocês por aí ❤️

KristhenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora