Capítulo 53- A Heroína do Inferno

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Kristhen Zillord

— O que eu sei sobre você? — ele começa, com um sorriso torto e um brilho de desafio nos olhos. — Eu sei muito mais do que você imagina... — ele ri, debochado, e sua voz ecoa pela sala pequena e abafada — Você tem vinte anos, seus pais te venderam para uma associação criminosa conhecida como La Mort. A tatuagem da aranha... a bunda dela é uma caveira, certo?

Ah. Esse é esperto. Poucos reparam nesse detalhe. Na verdade, quase ninguém.

— Tá... e daí? — retribuo com um sorriso seco, provocativo, só para disfarçar a tensão crescente que percorre minha espinha.

— Já mentiu sua idade. Isso não é uma coisa pequena, convenhamos.

— Todo mundo já mentiu a idade. Não é exatamente um pecado capital — dou de ombros, entediada. — Só isso que você tem?

— Não. — ele se inclina para frente, os olhos verdes cravados em mim como se pudesse me atravessar com o olhar. — Você foi criada da maneira mais fria, mais cruel, mais desumana que alguém poderia ser criada. Sem amor. Sem toque. Sem afeto. Por isso te chamam de "A Morte", não é? Porque você vai atrás das pessoas e leva as almas delas pra sei lá onde. Você está nos impedindo de salvar o Reed. Ou deveria chamá-lo de Pierre?

— Chame como quiser. Reed. Pierre. Ou pelo sobrenome, Vinceti... tanto faz. — resmungo, sem alterar o tom, só deixando as palavras afundarem com a calma de um veneno.

— Por quê? Por que está nos impedindo de salvá-lo?

Respiro fundo. Ele não faz ideia do quanto tudo é mais sujo do que parece.

— A resposta é simples. Elaine roubou algo muito valioso da família Zillord. Uma pedra. E enquanto eu não souber onde ela está, ninguém vai salvar o Reed. Se vocês o levarem de volta para os Vinceti, eu perco a única moeda de troca. Sem a pedra, terei que ajudar a exterminar vocês. Entende agora? Se a família dele descobrir onde ele está, Elaine vai sumir de novo. E eu vou levar anos pra achá-la e pegar a maldita pedra. Então, se estão no meu caminho... morrem. Todos vocês. Ninguém, absolutamente ninguém, vai tocar no Reed até eu estar com a pedra em mãos.

— Tudo isso por uma maldita pedra?! — sua voz explode. — Ele viu a irmã mais nova morrer na frente dele, foi sequestrado, apagaram a memória dele, e você ainda o está manipulando! O Reed... ele nunca foi tímido! Mas toda vez que começa a reagir, a mostrar quem é, a maldita da Elaine vai lá e apaga mais uma memória, pra manter ele frágil. Você não tem noção do quanto ele tá sofrendo, Kristhen!

— Ah, para de drama. — reviro os olhos, soltando um suspiro exausto, fingindo tédio. — Eu posso ter mentido sobre muita coisa. Sobre a morte do meu pai. Sobre o governador. Sobre ser uma segurança. Sobre vocês serem os vilões... Posso ter mentido em tudo isso — levanto e dou um passo à frente, encarando ele de cima — mas não vou deixar tocarem naquele garoto. Você sabe disso. Vocês me veem como vilã? Ótimo. Mas pro Reed... eu sou a porra da heroína.

A gargalhada dele explode com força. O som machuca meus ouvidos, mas fico imóvel.

— Você? A heroína? Não fode! — ele cospe as palavras.

— Ele tá voltando a lembrar. E tudo graças a quem? A mim. — sorrio, mas sei que meu sorriso não engana. Ele tá me olhando com um ódio que arde. — Não podem esperar só mais um pouco até eu achar a pedra?

— Não! Porque você tá usando ele! Tá com ele, dormindo com ele, só por causa dessa maldita pedra! Quando conseguir, vai sumir... e como você acha que ele vai ficar?

Dou uma risada curta, seca.

— Acha mesmo que ele gosta de mim? Ah, garoto, você é engraçado.

Mas ele não ri. Me encara com tanta firmeza que sinto, pela primeira vez em dias, uma dúvida arranhar meu estômago.

— E você? Acha que eu não sei que ainda gosta dele?

— Eu não gosto dele. Aquilo foi só uma... fase. Adolescência. Paixão idiota. — balanço o pé, evitando o olhar dele enquanto observo o sangue secar em seu rosto — Na verdade, nem sei o que é isso. Amor. Fui treinada pra não me apaixonar. Atrapalha o trabalho, né, mamãe?

— Isso mesmo. — a voz dela surge atrás de mim, fria como gelo.

— Foi só sexo. Nada disso importa agora. As memórias dele estão voltando, e meu tempo está acabando. Preciso da pedra. Se se meterem de novo, eu mato vocês. Todos. — falo firme, autoritária, deixando cada sílaba pesar.

Silêncio. Mas eu vejo nos olhos dele que ainda não desistiu.

— Sabe, garoto... eu nem tava procurando o Pierre. Nem sabia que ele tinha sido sequestrado. Que a irmã dele tava morta. Descobri tudo sem querer, quando investigava a Elaine. Aquela mulher enlouqueceu depois de perder o próprio filho. Viu no Pierre uma cópia dele. Sequestrou, rebatizou como Reed, e o fez viver a vida de um morto. Uma vida que não é dele. Então sim, eu menti em algumas coisas... mas olha pelo lado bom: tô ajudando ele a se lembrar de quem realmente é. E em troca, pego a pedra.

— Acha mesmo que isso é uma troca justa?

— Sim?!

— Que patético — ele cospe — E por que matou seu pai?

Meu olhar endurece.

— Ele ia contar tudo pra Elaine. Aquele velho desgraçado se apaixonou por ela, dormiram juntos várias vezes... — respiro fundo — Tenho pena do Phillip. Parece ser um bom homem. Mas tem uma mulher de merda. Eu não podia deixar meu pai estragar tudo. Então o envenenei. Eu tinha a arma perfeita nas mãos. E, acredite, é até fácil matar alguém.

O garoto empalidece.

— Quando Reed disse que meu pai foi envenenado... eu quase desmoronei por dentro. Ele não pode descobrir que fui eu. Não quero machucar aquele garoto. Mas se ele souber... vou ter que fazer o que for preciso. E o governador? Ele também ia abrir a boca. Bastou eu me fazer de inocente, perguntar onde a gente se encontraria. Simples. Direto. Fatal.

— Você vai pagar por tudo isso. Por cada mentira, cada manipulação. Por matar gente inocente.

— Eu já tô pagando.A verdade é... as pessoas são fáceis de enganar. Acreditam no primeiro idiota que aparece com um rosto simpático. Patético. — rio baixo. — Por isso nunca confiem em ninguém tão fácil. É mais simples do que parece manipular alguém. Agora, vá dizer pro Stefan parar de me seguir e de caçar o Reed. Senão, outro de vocês morre. Quando eu tiver a pedra, dou a porra da pista. Aí vocês salvam o queridinho de vocês. Combinado?

— Não podemos esperar mais... Os pais dele-

— Então faça com que esperem. — cruzo os braços, firme. — Senão eu mesma mato o Reed. E o assunto morre junto com ele.

— Você não teria coragem. Faz isso, e mexe com a máfia francesa!

— Acha que eu tenho medo? Já derrubei outras. A máfia francesa não é diferente das demais. — me levanto, ajeitando os cabelos com desprezo — Enfim... está tudo claro agora. Nessa história, sou a vilã, sim. Mas também sou a heroína. Legal, né?

— Vai se foder. Pra mim, sempre será a vilã.

— Você é mesmo engraçado... — digo por fim, antes de me virar

Continua...

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