Capítulo 42- Me Ignora, Mas Me Olha

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UM MÊS DEPOIS - Outubro, dia 28. Terça-feira

Kristhen Zillord

Ser ignorada é uma sensação nova pra mim. Nunca precisei lidar com isso antes — nem mesmo imaginar como seria. Mas o Reed... ele está me ensinando na marra. E vou te dizer: é péssimo. Eu falo com ele, e não recebo nada de volta. Nenhuma resposta. Nenhum olhar. É como se eu fosse invisível. Como se tivesse evaporado da vida dele.

É a pior sensação que já experimentei.

Agora eu entendo. Entendo o que os outros sentiam quando eu fazia isso com eles, quando eu escolhia me calar, virar o rosto, deixar que a ausência fosse a minha resposta. É cruel. É frio. É solitário.

Desde a nossa discussão, Reed não dirige nem uma palavra pra mim. Parece ter decidido que já não precisa mais de mim, nem pra conversar, nem pra dividir planos. Entrou para o clube de teatro, e está indo bem. Ele não é mais aquele garoto tímido e gago de antes. Ainda trava quando precisa apresentar algo na frente da sala, mas tá tentando melhorar. Está se soltando. Está crescendo.

E, claro, ficou popular.

Bastou um beijo. Um único beijo na amiga loira da Samy, a vadia que anda atrás dele desde então. A garota espalhou a história como se fosse um troféu, e em menos de vinte e quatro horas, Reed Walsh se tornou o novo queridinho do colégio. Ele conseguiu conquistar a Samy e um beijo. Só o suficiente. Samy ficou furiosa por causa da amiga. Brigou com a loira. Não se falam mais. Mas isso não impediu nenhuma das duas de continuar rondando ao redor dele.

Agora ele é o "gostoso do teatro", o "bad boy misterioso", o "estilo gótico chique com alma torturada" que todas querem decifrar. Ele arrumou amigos, fãs, e gente puxando papo do nada. O mesmo Reed que usava roupa preta, andava encolhido pelos cantos, e ficava vermelho como um pimentão quando alguém dizia 'oi'.

Eu virei só uma sombra. Um satélite girando em torno de um planeta que nem me nota mais.

As pessoas vêm até mim só pra perguntar sobre ele. Sempre sobre o Reed. Nunca sobre mim. Nunca me enxergam. E eu mando todo mundo se foder. Tô sozinha de novo, igual era no meu antigo colégio. Porque eu sou assim: fria, fechada, difícil. Mesmo quando não quero afastar as pessoas, é isso que acabo fazendo.

Nunca me esforcei pra fazer amizade com ninguém. E honestamente? Não confio em quase ninguém o suficiente pra chamar de amigo. Então eu sigo, apenas seguindo o Reed como uma cadela na coleira.

A cinco metros de distância. Vigiando cada passo dele. Ordens da Elaine. Olhos nele o tempo todo. E só não fui mandada embora ainda porque ninguém quer assumir essa função maldita.

Mas assim que arranjarem alguém... tô fora.

Agora, aqui estou, parada no fim do corredor, observando ele rir com os novos "amigos". O sorriso dele tem um brilho irritante, daqueles que a gente sente falta quando some. Ele conversa com duas garotas, a loira e a Samy, claro. Elas não largam do pé dele. Samy ajeita os cabelos, empina os seios e caminha até ele como se fosse por acaso. Mas logo trava os passos quando a loira senta do lado dele, jogando a perna por cima da dele, deixando a saia subir o suficiente pra exibir as coxas.

Ridícula.

Não escuto o que dizem, o barulho do corredor abafa tudo. Samy se aproxima depois, tentando manter a dignidade, e se senta do outro lado. Cena digna de novela adolescente barata.

Quanto ao Jacs? Ele transou com a irmã da Samy. No quarto dela. E a história correu pelo colégio inteiro, a loira espalhou, mesmo sendo "amiga" da outra. Maravilhoso. Por isso que eu não confio em ninguém. A humanidade está em fase terminal.

— Kris... — a voz arrasta meu nome com o veneno habitual. Ele para ao meu lado com aquele sorriso irritante — Você parece que acordou de bom humor hoje.

— Some daqui, Jacs.

— Gosto da sua agressividade. — ele ri, convencido — Vai ter uma festa hoje à noite na montanha. Aniversário da Samy. Quer ir?

— E você foi convidado?

— Pela irmã dela. — ele pisca, como se isso fosse digno de prêmio — Mas precisa de par pra entrar.

— Não, obrigada.

— E como você vai entrar? Seu amiguinho Reed provavelmente vai com ela...

— Eu tenho meus meios. — dou de ombros, sem tirar os olhos do Reed, que encara Samy enquanto ela baixa o rosto, corando. Ele está causando o efeito que queria nela. Ótimo. Palmas pra ele.

— Posso te levar como uma rainha.

— Não sou uma rainha, — encaro os olhos azuis dele — e não preciso de ninguém pra me transformar em uma.

Ele sorri mais ainda. Me pergunto o que há de tão engraçado. A loira ao lado do Reed não para de sorrir pra ele, mexendo no cabelo como se tivesse esquecido do mundo. Samy finge que não vê, mas morde o lábio. E Reed? Ele... ele me olha. O olhar dele se crava em mim.

— Você gosta do Reed? — ele pergunta, como se não tivesse percebido a tensão pairando.

— Pareço gostar de alguém?

— Você fica comendo ele com os olhos o dia todo.

— Tenho meus motivos. — o encaro, firme — E você? Gosta de mim?

— Te respondo se aceitar ir comigo na festa. — e sorri.

Meu olhar escapa pro Reed de novo. Ele ainda está olhando. As pernas balançando, o rosto imóvel, mas os olhos... eles me analisam como se eu fosse um problema mal resolvido.

Quero que ele sinta algo. Qualquer coisa. Ciúmes, raiva, desconforto.

— Tá bom. — olho para Jacs. — Eu vou com você nessa festa.

Não sei por que disse isso. Talvez tenha sido impulso. Talvez burrice. Talvez... só uma necessidade desesperada de cutucar algo dentro do Reed.

— Certo. Eu te pego-

— Não. — corto antes que ele se anime — Me encontra na festa.

— Como quiser. — ele dá um sorriso torto e satisfeito.

O sinal toca. Respiro fundo, ajusto a mochila nas costas, pronta pra ir embora, até que ele se inclina e beija a minha bochecha.

Meus punhos se fecham no mesmo segundo. O calor do sangue subindo, ferve até a orelha.

Passo os olhos à frente. Samy me encara, surpresa. Reed... sumiu do meu campo de visão.

Mas eu sei que ele viu.

E isso basta por agora.

Continua...

Aiai, tem babado nesse capítulo, quero ver quem descobriu

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Aiai, tem babado nesse capítulo, quero ver quem descobriu

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