Capítulo 27- Quando a Verdade Queima

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Reed Walsh

Me sento devagar na cama. O colchão range sob meu corpo e o ar cheira a desinfetante e creme hospitalar. Kristhen pega um pequeno pote branco, gira a tampa com calma e espalha o conteúdo entre as palmas.

— Vou passar creme na sua pele pra ajudar na circulação... E também pra não deixar ressecar, tá?

Apenas assinto com a cabeça, sem coragem de dizer nada. Receber esse tipo de cuidado de alguém como ela — uma garota da minha idade, minha segurança pessoal — me deixa inquieto. Estranho. Mas sua mão é firme, quente, atenta. O creme, gelado, arranca um leve arrepio da minha pele conforme ela começa a massagear minha perna.

Kristhen não hesita. Continua a massagem com movimentos circulares, lentos, pacientes. Por alguns instantes, me permito relaxar. Ela tem mãos boas... cuidadosas.

Acompanho o trajeto delas, subindo centímetro por centímetro pela minha coxa até parar perigosamente perto de um lugar que... não. Rígido, seguro seu pulso. Nossos olhos se encontram.

— É... melhor não.

Ela não diz nada. Apenas recua com um olhar suave, compreensivo. Começa a mesma massagem na outra perna, e para no mesmo ponto que deixei claro. Depois, se levanta e continua pelos meus braços. Ombro direito. Ombro esquerdo. Seu toque é preciso, mas não frio.

— Fecha os olhos — ela pede.

Obedeço. Sinto seus dedos traçarem minha testa, deslizarem pela curva do meu maxilar. Quando suas mãos alcançam minhas orelhas, o arrepio volta com força. Frio. E íntimo demais. Abro os olhos.

Ela está tão perto.

Tão concentrada, como se aquilo fosse uma missão. Uma missão que ela leva a sério. Seu rosto está sereno, os olhos fixos em minha pele, e por um instante, observo como a luz destaca os fios pretos do seu cabelo.

Logo se afasta, pega uma escova e começa a pentear meus cabelos com gestos calmos. Silêncio no quarto, só o som das cerdas deslizando por entre os fios.

— Você tá parecendo minha mãe — murmuro.

Ela ri pelo nariz, sem parar o movimento.

— Só tô cuidando de você... Se for assim, o médico e as enfermeiras também são sua mãe.

Essa resposta deveria ter quebrado o clima, mas só me deixou ainda mais estranho por dentro. Eu nunca... fui cuidado assim. Nunca por alguém como ela.

— Toma seu remédio e vai deitar — diz, me entregando um copo com água.

Obedeço. Deito de lado e me embrulho no cobertor. Ela agora cuida de si mesma, vai para o banheiro, fecha a porta. Fica lá um bom tempo. Tento não imaginar o que ela está fazendo.

***

Uma mulher que eu nunca vi na vida está na minha frente.

Ela sorri.

— Não chore, ***. Foi só um arranhão, logo passa.

— Mas mamãe... tá doendo...

— Vou dar um beijinho e vai sarar, tá bom?

Ela tem olhos castanhos quentes como café com leite, e um sorriso que parece dissolver qualquer dor. Ajoelha e beija meu joelho com carinho exagerado. Eu rio, mesmo com os olhos marejados.

— Pronto, meu amor. Agora vai brincar com sua irmã.

Procuro com os olhos. Mayleen está agachada, os cabelos castanhos esvoaçando enquanto observa algo no chão. Me aproximo devagar.

— Deixa eu brincar com você?

— Claro! Olha! Essa aqui se chama Carmen!

Ela aponta pra uma formiga com entusiasmo como se fosse uma boneca viva. Me abaixo ao lado dela. Seu sorriso é tão puro... Igual ao da mamãe.

— Você promete que vai brincar pra sempre comigo?

— Prometo.

Cruzamos os dedos mindinhos. Ela sorri. E tudo dentro de mim fica leve.

— Reed. Tá na hora de acordar.

A voz de Kristhen me puxa de volta. Abro os olhos, me espreguiço com lentidão. Ela está de pé ao lado da cama, mãos nos bolsos, me esperando.

Aquele sonho... parecia real. Eles falavam francês e eu entendia. Como se fossem... lembranças? De outra vida?

— O doutor vai querer te examinar de novo. Levanta. Escova os dentes.

Não argumento. Apenas obedeço.

O dia passa em uma rotina entediante de exames, passos lentos pelos corredores e fisioterapia que queima os músculos. A comida do almoço foi surpreendentemente decente, melhor que ontem. À tarde, Kristhen repete a massagem. Silenciosa, atenta. Fala pouco. Mas algo entre nós já não parece mais igual.

Ela me conta que vou estudar em casa até meus pais voltarem. Me dá informações soltas sobre o que está acontecendo — nada concreto. Mas o suficiente pra me deixar ainda mais confuso.

— E a Samy? Ela sabe que eu tô aqui?

— Sabe — responde, mexendo o café com um canudo, sem me olhar — Mas não se importa.

— Como assim?

Ela tira o celular do bolso. Um novo. Gira na mão antes de falar.

— Eu ainda vou pro colégio. Terminar o último ano. Gravei algo que ela disse... Não sei se vai abrir seus olhos. Mas acho que você merece ouvir.

Ela aperta a tela e aumenta o volume.

— Amiga! — a voz de Karen ecoa no quarto — Ficou sabendo? Reed tá no hospital! Internado em estado grave!

Silêncio.

— Ainda bem! — Samy responde com frieza, cada palavra uma facada — Já não aguentava mais ele me seguindo por aí com aquela cara idiota vermelha. Céus, ele é insuportável.

— Você era amiga dele! Andava com ele!

— E daí? Ele compra tudo que quero. É fácil de usar. Usei pra fazer o Jacs me notar... já que ele fazia cu doce.

— Então você tava usando ele?!

— Dã! É óbvio! Ele é tão lesado que nunca vai perceber. Além disso... ele gosta de mim. Posso tirar o que quiser.

— Amiga... isso é errado...

— Cala a boca! Olha essa bolsa que ele me deu! E ainda te dei uma, tá reclamando do quê? Reed nunca vai saber. E se morrer no hospital... melhor ainda. Vou ter paz.

O áudio termina. O silêncio que se segue é ensurdecedor.

Kristhen continua tomando seu café. Olhar fixo na parede. Sem comentar. Sem pressionar.

Continua...

Não era vocês que amavam a Samy? Agora continuem amando 😂🥰

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Não era vocês que amavam a Samy? Agora continuem amando 😂🥰

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