Capítulo 16- Ferida Exposta

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Kristhen Zillord

— Antes, eles realmente te batiam — digo, com a voz rouca de sangue e raiva. — Mas aí você deu um jeito neles... Como acabou de dar um jeito em mim. — passo a língua pelo corte na boca e sorrio de canto — A verdade é que eles ficaram aterrorizados quando viram que o garoto quieto sabia lutar. Então, te deixaram em paz. Mas foi aí que você percebeu uma coisa, não é?

Ele me encara, tentando controlar a respiração, o olhar tenso. Depois de dar uma surra naqueles três, eles me contaram esse segredinho.

— Você viu que a Samy te olhava. — minha risada escapa, seca — Quando você estava sendo espancado, era o único momento em que ela realmente te via. Então o que fez, Reed? Foi até aqueles três imbecis e pediu pra eles continuarem. Mas agora com plateia. Com a ruiva ali, assistindo.

— N-não! — ele recua, a voz falha.

— Você é doente pra caralho. — digo firme — Sabe lutar, mas prefere se fazer de coitado só pra ganhar atenção de uma garota. Deixa os outros te chutarem, cuspirem em você, humilharem, tudo isso só pra sentir o olhar dela por dois segundos.

— C-cala essa boca!

— Eu tô errada, Reed? — me aproximo, e ele dá mais um passo para trás, tropeçando no próprio pé e caindo no chão. — Quando ela finalmente "te ajudou", você achou que tinha vencido. Decidiu que ia repetir a dose. Diariamente. — chego tão perto que o vejo engolir seco — Que merda patética.

O encaro com desprezo.

— Sua mãe se mata pra cuidar de você, te dá tudo, e o que você faz? Se arrasta atrás de alguém que nem te nota. Que acha que você é só o "coitado" do colégio. Que pena que seu plano fracassou. — abaixo o rosto e sorrio, então cuspo o sangue acumulado direto no rosto dele. — Me pergunto se você é mesmo tímido, ou só um masoquista carente.

— Eu sou tímido! — ele limpa o rosto com raiva. — Mas isso não quer dizer que não sei me defender! Eu sempre fui pisado por todos... Até ela. A Samy. Ela foi a única que me viu. A única que me protegeu. E eu me apaixonei por ela no mesmo instante. Ela nem me conhecia, mas fez algo que ninguém fez. Depois... ela se afastou. Conheceu aquelas duas e nunca mais olhou pra mim. Mas eu... eu tô tentando. Tentando ter ela de volta.

— Ah, que lindo... — zombo com crueldade, me erguendo. — O menino invisível foi salvo pela mocinha de cabelos de fogo e achou que era amor. Que fofo. — dou dois passos em volta dele — Mas é triste, Reed. Patético, até. Você vai se foder. E quando isso acontecer, eu quero estar lá. Assistindo. Sem piscar.

— Seu pai morreu e você nem sabe quem matou ele. — ele se levanta com esforço, e agora a raiva escorre nos olhos dele. — Ele era um segurança. A função dele era morrer pela minha família. Henry morreu fazendo o trabalho que amava. Você devia se orgulhar, devia se sentir honrada...

— HONRADA?! — grito, e minha voz reverbera como um trovão contido — Ele morreu na minha frente, Reed! Me implorando pra matá-lo! Ele sangrava pelos olhos! Me olhou com o pouco que lhe restava de vida e usou suas últimas forças... pra cantar. Cantar a música de ninar que ele cantava pra mim quando eu era pequena. Você não sabe o que é isso. Não sabe o que é carregar uma imagem dessas presa na cabeça. — meus olhos enchem de lágrimas, e elas finalmente escorrem — Eu fiquei sozinha com isso. Por anos.

Ele não diz nada.

— Você nunca viu alguém da sua família morrer em agonia, nunca foi manchada com o sangue de quem te amava. Então cala a porra da boca antes de falar em "lado bom".

— Eu já disse tudo o que eu sei! — ele explode, mas sem elevar tanto a voz. — Me bater, me ameaçar, tentar tirar alguém de mim... nada disso vai mudar o que aconteceu. E não vai trazer seu pai de volta.

A raiva em mim se quebra como vidro, e no lugar dela, fica só o vazio. A ausência de qualquer sentido. Reed não pode me ajudar. Ele não é um culpado, só mais um garoto ferrado fazendo merda atrás de quem não o quer.

Solto uma risada seca

— Que pena. — dou dois passos para trás — Espero que consiga a atenção da sua ruiva, Reed... — dou um sorriso frio, vazio — Mas também espero que se foda.

Viro antes que ele veja meu rosto se desmanchar. Abro a porta do quarto com brutalidade e saio, andando rápido, antes que alguém me veja naquele estado.

Cada passo ecoa como um soco no meu estômago. Desço as escadas em ritmo acelerado, o rosto ardendo, os punhos cerrados. Preciso sair dali. Preciso treinar. Preciso me reconstruir.

Chego na ala dos seguranças. Quando estou prestes a entrar no quarto, a porta ao lado se abre. Karl, o chefe da segurança, aparece. Me olha de cima a baixo, como um lobo velho farejando sangue.

— O que aconteceu com você?

— Longa história. — forço um meio sorriso — Mas tô bem.

— Tem certeza?

— Tenho. — respiro fundo — Aliás... tô indo treinar. Vem junto?

Ele arqueia uma sobrancelha e passa a mão pela barba branca, bem feita.

— Treinar? Você sabe que eu tenho cinquenta anos, não é?

— Mas seu corpo é de um de trinta — replico, ainda ofegante — E uma saúde de dar inveja, né?

Ele ri com o canto dos lábios.

— Seu pai dizia a mesma coisa. Nós treinávamos juntos. Ele era dedicado.

— Então vamos. — respondo firme — Preciso melhorar minha luta.

— Vista algo mais leve. Te espero no campo.

Assinto.

Hoje, percebi que Reed está no meu nível... ou até além. Isso é inaceitável. Eu treinei pra ser a melhor. Me machuquei por ser fraca. Mas da próxima vez? Quem vai sair quebrado não sou eu.

Continua...

Será que o Reed realmente disse a verdade?

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Será que o Reed realmente disse a verdade?

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