Reed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
— Uma arma? — olho pra ele, contendo o impulso de enfiar um soco bem no meio da cara dele. — Por que está com uma arma, Reed? E com silenciador, porra!
— Minha mãe pediu pra te entregar... só isso. — ele ri, nervoso, quase tropeçando nas palavras. — Eu... eu esqueci, juro...
Empurro o corpo dele com força e pego a arma do chão. Verifico o pente. Dezessete balas. Intacto. Não foi ele.
Olho ao redor — o estacionamento é imenso, silencioso demais.
— Entra no carro — ordeno, fria.
Ele hesita, mas obedece. Enquanto caminha até o carro, um vento gelado passa por mim, arrepiando minha pele e acendendo um pressentimento doentio. Algo está errado. Muito errado.
— Reed! Espera! — minha voz rasga o ar.
Ele para. Se vira pra mim. O olhar confuso. Um instante. Só um. O carro explode diante dos nossos olhos.
O impacto me joga longe, o mundo gira violentamente. O som é ensurdecedor, como se o próprio inferno tivesse se aberto. A cabeça parece que vai explodir, zumbidos insuportáveis preenchem tudo. Tampo os ouvidos, grito, mas nem sei se consigo ouvir minha própria voz.
O calor me engole. As pernas ardem como se estivessem sendo devoradas por chamas invisíveis. Tento respirar — o ar está pesado, denso de fumaça e caos. A dor me paralisa por segundos que parecem horas.
Mas não posso parar. Não agora.
Com o que ainda me resta de força, agarro a arma caída ao meu lado, cambaleio até me firmar. O carro arde em chamas, uma bola de fogo viva. Tento encontrar Reed com os olhos, ele voou mais longe do que imaginei, estava perto demais da explosão.
Cambaleio até ele, o corpo tremendo a cada passo. Quando me ajoelho ao lado do garoto, meu estômago revira. O rosto dele está coberto de fuligem e sangue seco, com queimaduras leves e cortes por todo o corpo. Não sei quão profundo.
Coloco os dedos sob seu nariz. Fraca... mas ele ainda respira.
Meus dedos tremem ao procurar pelo celular no bolso dele. O meu virou poeira junto com a bolsa. Por sorte o dele está intacto.
Ligo pra ambulância, a voz falha, a garganta rasgada pela fumaça e adrenalina. Passo o endereço o mais rápido possível.
Olho ao redor, pessoas observam da frente da loja. Filmam. Cochicham. E ninguém ajuda.
— Ridículos... — sussurro. — Desgraçados...
Quem armou isso não vai sair ileso. Não vai.
Toco o rosto de Reed. Ele queima com o calor do incêndio. Preciso acreditar que alguém chamou os bombeiros. Preciso.
***
De um lado pro outro, dentro do hospital, Elaine Walsh grita comigo como se estivesse possuída por um demônio surtado. A voz dela ricocheteia pelas paredes, cortante, cruel. Ela me humilha sem pausa, me esmaga como se eu não fosse nada.
E, no fundo, talvez... eu esteja mesmo sendo um lixo de segurança.
Ela tem razão. Eu fudi tudo.
Arrisquei a vida do Reed só porque achei que um jantar poderia distrair a gente. Deveria tê-lo levado direto pra casa. Agora ele está internado em estado grave, a cabeça aberta por causa do impacto no asfalto.
Nem tratei meus próprios ferimentos. Não consigo sentir nada além da voz raivosa dela me dilacerando. Cada palavra um soco.
Mas eu só quero saber se ele vai ficar bem.
Meu pai nunca cometeria esse erro.
— VOCÊ ENTENDEU O QUE EU DISSE? — a voz dela ruge, arrancando meu olhar do chão.
— Sim, senhora... — respondo baixo, quase engolindo as palavras.
Ela bufa tão forte que o som ecoa pelo hospital silencioso.
— Amanhã tenho uma reunião importantíssima, e vou ter que deixar O MEU FILHO sob os cuidados de uma incompetente que não sabe fazer o próprio trabalho!
— Eu juro... juro que não vai acontecer de novo, senhora.
— Você SEMPRE diz isso! Já é a segunda vez, senhora Zillord! Qual vai ser a próxima? Vai deixar ele morrer?!
Permaneço calada. Qualquer palavra que eu diga só vai piorar.
Sempre achei que seria fácil. Meu pai fazia parecer assim. Ele contava histórias heroicas, brilhantes. Mas agora entendo, era tudo só uma parte. Uma parte bonita. O resto era isso aqui: sangue, culpa, falhas, ameaças.
Eu ainda tenho um caminho longo pra percorrer... muito mais do que imaginei.
— Querida, temos que ir... — diz o homem ao lado dela.
— Vamos mesmo deixar o meu bebê com ela? — Elaine pergunta, cuspindo as palavras com desprezo.
— Não temos escolha. A reunião é importante. Vamos pensar nisso quando voltarmos.
Ela inspira profundamente, me fuzila com os olhos.
— Dois meses fora... Se eu voltar e o meu bebê não estiver melhor, você MORRE. Vai encontrar seu pai no inferno, entendeu?
Sua velha desgraçada.
— Sim, senhora... — digo entre dentes.
— Ótimo. — ela entrega a bolsa ao segurança. — Tem tudo o que precisa na casa. Ninguém sai até eu voltar. Contrate um tutor, ele não vai mais pro colégio. É melhor você entender o peso disso, garota.
Assisto enquanto os dois se afastam. Vejo ela brigando com Phillip, culpando-o. Respiro fundo. Preciso respirar.
Preciso cuidar de mim.
Porque se eu quiser continuar... se eu quiser honrar meu pai... eu não posso me dar ao luxo de ser fraca.
— Senhora, vamos fazer o tratamento e um check-up. Por favor, me acompanhe — diz o médico da família. Manco ao segui-lo. Cada passo é uma sentença.
Desculpa, pai... Por enquanto, eu só sei decepcionar.
Continua...
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