Capítulo 68- Estrelas Que Nunca Se Foram

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Kristhen Zillord

Nossas mãos balançam suavemente enquanto caminhamos, como se fossem guiadas por uma força invisível — ou por ele. Pierre faz isso: segura minha mão e a move de um jeito lento, quase infantil, enquanto solta frases, memórias que vêm e vão, como pedaços desconexos de um quebra-cabeça ainda em reconstrução.

Eu não digo nada. Tenho medo. Medo de que minhas palavras o empurrem direto para lembranças mais profundas. E ele lembre mais do que deveria.

— Eu... sinto muito — ele diz de repente, com a voz baixa, um pouco rouca — pelas vezes que te deixei sofrer bullying.

Meu coração para por um segundo.

— O quê? — minha voz sai sem querer, confusa.

— Eu lembro de quando você estava caída no pátio. Aqueles idiotas jogavam lixo em você... e eu só fiquei parado. Eu não tive coragem. Eu só assisti.

O arrepio que percorre meu corpo não é só pelo frio da noite.

— Tudo bem... — respondo, apertando meus braços ao redor do corpo — Não precisa pedir desculpa. Você já fez isso tantas vezes...

O vento cortante passa por mim e estremeço de leve.

— Que frio... — murmuro, com os dentes quase batendo.

Pierre percebe na hora. Sem dizer mais nada, vem para trás de mim e me envolve com seus braços fortes, quentes, firmes. O calor que emana dele me envolve como um cobertor.

— Eu te esquento — sussurra, e sua boca toca devagar a curva da minha nuca, afastando meus cabelos como se fossem pétalas.

Seu beijo me deixa arrepiada até a espinha. Meu corpo reage, involuntário. Viro de lado, e ele sorri. Um daqueles sorrisos que não pedem permissão. Abre o sobretudo e o fecha ao redor de nós dois, como um casulo.

Me aninho contra ele, frente a frente. Nossos rostos tão próximos que eu posso sentir o calor da sua respiração roçando minha pele. Ele me dá um selinho, simples, curto. Depois se afasta milímetros, só o suficiente para que seus olhos continuem cravados nos meus.

— Se sente mais quente agora? — ele pergunta, com a voz baixa.

— Ainda não... — respondo, me fazendo de difícil.

— Não? — seu sorriso cresce, e recebo mais dois selinhos como castigo.

— Estou com muito frio ainda — provoco.

Ele entende o recado. Me enche de selinhos até que o toque dos nossos lábios se prolonga num beijo calmo, íntimo. Não tem pressa, não tem língua, não tem fome. Só tem intenção. Um carinho profundo e lento que me desmonta inteira.

Me sinto pequena nos braços dele, protegida. Queria que o mundo inteiro desaparecesse, menos esse instante.

Mas estamos na rua. A realidade me puxa de volta.

— A gente tem que parar... — digo, tentando me afastar, mas Pierre continua colado.

— Por quê?

— Estamos em público... Vão começar a falar. — mordo seu lábio inferior e puxo levemente, antes de soltar — E, pra falar a verdade, tô começando a me sentir quente demais.

— Oh... — ele faz um biquinho triste, uma careta que me quebra.

— Não faz essa cara! — acaricio os cabelos dele, afastando-os da testa — Eu só quero comer algo quente. O que acha de carne?

— Hm... Só se você me der um beijo.

Reviro os olhos, mas cedo. Dou um beijo demorado e me afasto. Ele fica ali, olhos fechados, com um sorriso besta estampado no rosto.

KristhenOnde histórias criam vida. Descubra agora