Capítulo 74- O Sequestro da Verdade

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Kristhen Zillord

Tiro o cinto devagar, como quem tenta prolongar o momento antes de se despedir. Viro-me para ele, os olhos mergulhados naquele rosto que parece mais vulnerável à noite, sob a luz fraca do poste que entra pelo para-brisa.

— Eu gostei de ficar com você durante esse tempo. — digo, observando o corar subir pelas maçãs do rosto dele. Pierre sorri de canto, desajeitado, os olhos evitando os meus por um segundo — Acho que deveríamos fazer isso mais vezes.

— Sim... com certeza. — ele responde, e sua mão desliza sobre minha perna, quente e leve, como quem ainda não quer que eu vá embora.

Seu toque é gentil, e por um instante, quase me esqueço do motivo de estar ali. Quase.

— Queria te falar sobre o assunto da pedra — continuo, tentando manter a voz firme. — Poderia fazer um esforço para lembrar?

Ele me encara de novo, dessa vez com mais atenção. A carícia que ele faz na minha coxa desacelera

— Bem... posso sim. — seus olhos afundam nos meus. — Acha que estamos perto?

— Mais perto do que nunca. Talvez... se você explorar seu quarto ou a sua casa com mais atenção, você possa se lembrar de onde ela está. Assim... a gente pode voltar pra França.

— Vou fazer isso quando chegar em casa. Me promete que... vai ficar tudo bem quando pegarmos a pedra?

Merda.

Ele sente. Mesmo que inconscientemente, sente que tem algo errado. Mas tá se agarrando à esperança. Fingindo que está tudo sob controle.

— Prometo... — deslizo minha mão sobre a dele, quase encolhendo por dentro. — Você vai finalmente poder voltar pra casa. Vai lembrar com calma da sua verdadeira vida. Você passou por tanta coisa... isso vai te fazer bem.

— Vai continuar comigo... enquanto eu lembro?

— Vou... — sussurro, e a culpa vem como um soco no estômago. Não sei quanto tempo mais vou aguentar mentir assim — Eu preciso entrar. Te mando mensagem mais tarde, tá?

Pierre apenas assente, e se aproxima, deixando um beijo leve nos meus lábios. Um toque suave, que queima.

— Se cuida, tá?

— Volta em segurança. — retribuo o beijo, mas agora mais demorado, como se algo em mim tentasse pedir desculpas sem palavras.

Saio do carro antes que minha vontade de ficar me sabote. Observo ele ligar o motor e partir. Fico imóvel na calçada, encarando as luzes vermelhas do carro até elas sumirem no fim da rua. Só quando ele desaparece, respiro fundo e caminho até a porta de casa.

Kefhera já está parada, como uma sombra à minha espera.

— Tem certeza que era a pedra?

— Tenho. Pierre vai tentar se lembrar de onde ela está. E talvez até do código. — falo, sem tirar os olhos da fechadura. — A gente vai ter a pedra antes do fim da semana.

— Isso é ótimo. — ela sorri, nervosa, roendo a unha. — Podemos finalmente voltar pra França.

— Sim...

Mas não estou feliz. Estou me sentindo um lixo, como se cada passo que dou nos afastasse mais do que é certo. Algo dentro de mim grita que Pierre não merece o que está por vir.

***

Pierre Vinceti

Há um peso no meu peito que não sai. Uma inquietação que cresce, sufocando. Tento ignorar, mas quanto mais tento, mais ela se espalha.

KristhenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora