Reed Walsh
O frio da noite congela meus ossos. O vento me corta como navalha e faz a bainha do sobretudo bater contra as minhas pernas, num som seco e irritante. Estou parado na calçada, em frente à casa dela. Já dei umas dez voltas na calçada. Estou encharcado de dúvida. O que estou fazendo aqui?
Hoje de manhã, deixei Kristhen em casa. Voltei pra minha e me tranquei no quarto como um idiota, só pensando nela. Pensando nos seus olhos, no seu sorriso malicioso, no jeito como me provoca como se fosse a coisa mais natural do mundo. E agora estou aqui de novo, como um cachorro perdido esperando a porta abrir. Patético.
Queria ter passado o dia com ela. Mas não... Elaine infernizou tudo, como sempre. Não deixou nem Kristhen terminar o que tinha começado em mim. Aquilo me frustrou de um jeito tão ridículo, que minha cabeça virou uma confusão só. Não sei mais o que sinto. Ou talvez eu saiba, e seja justamente isso que me apavora.
Não acho que seja o momento de dizer que... gosto dela. Kristhen não parece o tipo de pessoa que quer um relacionamento sério agora. Talvez nunca tenha sido.
Aperto os punhos nos bolsos. Melhor ir embora. Já dei trabalho demais pra ela. Estou ficando intenso demais, sensível demais... não posso ser esse cara.
Mas então ouço o clique da maçaneta.
Levanto os olhos e lá está ela Kristhen, encostada na moldura da porta, braços cruzados, cabelo solto, vestida com uma blusa larga de moletom. E aquele sorriso. Aquele maldito sorriso de quem já sabia que eu estava aqui faz tempo.
— Ia embora? — pergunta, com uma sobrancelha arqueada.
— Você... já sabia?
— Ouvi você chegando — ela responde, com a voz mansa, debochada. — Por que está aqui?
— Eu... não consigo ficar perto da Elaine depois de tudo o que descobri...
— Só isso? Ou... sentiu minha falta? — diz em tom provocativo, mas o olhar firme me atravessa como faca quente. Aquilo não é só brincadeira. É quase uma confissão disfarçada.
Ela se afasta da porta e abre espaço. Entro.
— Sua mãe está? — pergunto, tirando o sobretudo e o segurando no braço.
— Não.
Ela passa por mim devagar, de olhos cravados nos meus, aquele sorriso que me desmonta ainda nos lábios. Desce os dois degraus para a sala e senta no sofá, batendo com a palma na almofada ao lado dela.
Coloco o sobretudo dobrado sobre a mesinha e vou até ela. Me sento com uma certa rigidez. Tento parecer natural. Estou tremendo por dentro.
— Poderia ter ligado — ela diz. — Teria feito algo pra você comer.
— Não precisava... — digo, desviando o olhar para sua coxa nua. Sua mão descansa ao lado da minha, relaxada. E meu dedo mindinho, por algum motivo idiota, fica procurando o dela.
Ela percebe. Sempre percebe.
Coloca a mão por cima da minha. Levo um susto.
— Ei! — digo, virando o rosto pra ela.
— Hã? Sim... — resmungo, sem saber do que ela está falando.
— Sim o quê? Perguntei se queria mudar de canal.
— Não... pode deixar nesse.
Olho pra frente, mas sinto minha mão sendo virada devagar. Ela entrelaça seus dedos nos meus, e antes que eu consiga racionalizar qualquer coisa, já está virando meu rosto de leve e me encarando de perto. Muito perto.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Kristhen
RomanceReed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
