Kristhen Zillord
Abro a janela do quarto. O vento entra como um sussurro gelado, roçando minha pele, e eu sorrio sozinha. Gosto disso — estar coberta por um calor íntimo, enquanto o frio lá de fora toca o que resta de mim exposto. É como viver entre extremos: o conforto do que escolho, e a lembrança viva de que o mundo lá fora continua imprevisível.
— Tem certeza que quer deixar a janela aberta? — ele pergunta atrás de mim, secando os cabelos com a toalha.
O quarto ainda carrega o vapor morno do banho que dividimos há pouco. Passamos horas ali. Eu lavei meu cabelo, lavei o dele. Usei os cremes da Elaine, aqueles caros, cheios de ingredientes que prometem juventude eterna talvez seja por isso que ela ainda pareça ter trinta anos. Foi divertido. A primeira vez que faço isso com um garoto. Uma lembrança que vou guardar com força, até o fim.
— Tenho — respondo. — Gosto de ficar embrulhada e sentir o vento gelado sobre mim.
Pierre passa o secador nos fios pretos com certa distração, e eu já vou direto para a cama. Me enfio debaixo do cobertor e me enrolo toda. O ar cortante entra pela janela e me arrepia inteira. Estou só de blusa e calcinha, o que torna tudo mais intenso e, de algum jeito, mais aconchegante.
Espero ele terminar. Só me permito relaxar de verdade quando ele desliga o secador e o guarda. Ele caminha até o interruptor, apaga a luz, e a penumbra cobre tudo. Logo depois, a televisão acende, derramando uma luz azulada pelo quarto. Ele procura algo para assistir. Mexe no controle por alguns segundos, até se render a um desenho qualquer.
Quando se deita ao meu lado, o colchão afunda e o calor dele me invade. Me aninho sem pensar, como se meu corpo já soubesse onde pertence.
— Deixa eu ver seu rosto — murmuro, passando os dedos pela pele recém-hidratada dele.
Está macia, lisa, como se o tempo nunca tivesse tocado. Claro, os produtos da Elaine fazem milagres.
— Está macio... e bonito — comento, vendo seu sorriso brotar devagar.
— Pensei que eu já era bonito — provoca, com um brilho tímido nos olhos.
— Mas você é. — roubo um beijo rápido, deixando meu toque sumir em seu sorriso.
Deito sobre o peito dele, e Pierre puxa a coberta, cobrindo meu corpo com cuidado, como se eu fosse algo frágil demais para o frio.
— A gente não foi no enterro da Samy... — solto, do nada, encarando o teto.
O silêncio pesa por um instante. Sinto o coração dele bater contra minha bochecha.
— Podemos dizer que eu estava muito abalado para poder ir — responde.
É a mentira que eu daria também.
***
Ele dorme agora. Profundamente. Seu peito sobe e desce devagar, e do lado de fora o vento uiva como um animal solto.
Saio dos braços dele, com cuidado. Pés no chão frio, corpo leve. Caminho até a escrivaninha onde ele costuma fazer os trabalhos da escola. Me ajoelho. Passo a mão por debaixo, sentindo a madeira gelada, procurando o que me disseram que estaria ali. Um botão. Pequeno, quase imperceptível.
Achei.
Aperto.
Um clique seco corta o silêncio. Me viro. Uma parede se move, revelando a escuridão atrás dela. Pierre se mexe na cama. Congelo. Ele apenas vira para o outro lado. Continua dormindo.
A parede se fecha atrás de mim, selando o mundo. Fico no escuro por um instante — até que as luzes suaves se acendem, revelando o segredo.
Ali, no centro da pequena sala oculta, está ela.
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Kristhen
RomanceReed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
