Capítulo 73- Enquanto Ele Dorme

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Kristhen Zillord

Abro a janela do quarto. O vento entra como um sussurro gelado, roçando minha pele, e eu sorrio sozinha. Gosto disso — estar coberta por um calor íntimo, enquanto o frio lá de fora toca o que resta de mim exposto. É como viver entre extremos: o conforto do que escolho, e a lembrança viva de que o mundo lá fora continua imprevisível.

— Tem certeza que quer deixar a janela aberta? — ele pergunta atrás de mim, secando os cabelos com a toalha.

O quarto ainda carrega o vapor morno do banho que dividimos há pouco. Passamos horas ali. Eu lavei meu cabelo, lavei o dele. Usei os cremes da Elaine, aqueles caros, cheios de ingredientes que prometem juventude eterna talvez seja por isso que ela ainda pareça ter trinta anos. Foi divertido. A primeira vez que faço isso com um garoto. Uma lembrança que vou guardar com força, até o fim.

— Tenho — respondo. — Gosto de ficar embrulhada e sentir o vento gelado sobre mim.

Pierre passa o secador nos fios pretos com certa distração, e eu já vou direto para a cama. Me enfio debaixo do cobertor e me enrolo toda. O ar cortante entra pela janela e me arrepia inteira. Estou só de blusa e calcinha, o que torna tudo mais intenso e, de algum jeito, mais aconchegante.

Espero ele terminar. Só me permito relaxar de verdade quando ele desliga o secador e o guarda. Ele caminha até o interruptor, apaga a luz, e a penumbra cobre tudo. Logo depois, a televisão acende, derramando uma luz azulada pelo quarto. Ele procura algo para assistir. Mexe no controle por alguns segundos, até se render a um desenho qualquer.

Quando se deita ao meu lado, o colchão afunda e o calor dele me invade. Me aninho sem pensar, como se meu corpo já soubesse onde pertence.

— Deixa eu ver seu rosto — murmuro, passando os dedos pela pele recém-hidratada dele.

Está macia, lisa, como se o tempo nunca tivesse tocado. Claro, os produtos da Elaine fazem milagres.

— Está macio... e bonito — comento, vendo seu sorriso brotar devagar.

— Pensei que eu já era bonito — provoca, com um brilho tímido nos olhos.

— Mas você é. — roubo um beijo rápido, deixando meu toque sumir em seu sorriso.

Deito sobre o peito dele, e Pierre puxa a coberta, cobrindo meu corpo com cuidado, como se eu fosse algo frágil demais para o frio.

— A gente não foi no enterro da Samy... — solto, do nada, encarando o teto.

O silêncio pesa por um instante. Sinto o coração dele bater contra minha bochecha.

— Podemos dizer que eu estava muito abalado para poder ir — responde.

É a mentira que eu daria também.

***

Ele dorme agora. Profundamente. Seu peito sobe e desce devagar, e do lado de fora o vento uiva como um animal solto.

Saio dos braços dele, com cuidado. Pés no chão frio, corpo leve. Caminho até a escrivaninha onde ele costuma fazer os trabalhos da escola. Me ajoelho. Passo a mão por debaixo, sentindo a madeira gelada, procurando o que me disseram que estaria ali. Um botão. Pequeno, quase imperceptível.

Achei.

Aperto.

Um clique seco corta o silêncio. Me viro. Uma parede se move, revelando a escuridão atrás dela. Pierre se mexe na cama. Congelo. Ele apenas vira para o outro lado. Continua dormindo.

A parede se fecha atrás de mim, selando o mundo. Fico no escuro por um instante — até que as luzes suaves se acendem, revelando o segredo.

Ali, no centro da pequena sala oculta, está ela.

KristhenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora