Capítulo 63- Segunda Escolha

10.4K 983 110
                                        

Kristhen Zillord

Reed continua de cabeça baixa, com os olhos perdidos em algum ponto do chão, mesmo após eu tentar confortá-lo. Seus ombros estão curvados, como se carregassem o peso do que aconteceu — mesmo que tenha sido um "acidente".

— Está tudo bem, Reed... Ela só... acabou se descuidando.

— Eu sei... — ele sussurra, com a voz abafada pela dor — Mesmo sabendo que foi um acidente... meu coração ainda dói.

— Eu entendo. Você já gostou dela. Já foram amigos... — digo, com cuidado, minha voz saindo baixa — Você está de luto. Todos nós estamos.

Apoio minha mão sobre a dele, meus dedos firmes mas gentis, e depois toco seus cabelos bagunçados, tentando transmitir um pouco de calma. Reed então recosta devagar a cabeça no meu ombro, e vira a mão, entrelaçando os dedos nos meus. O calor da pele dele parece mais frio do que deveria.

Levanto os olhos. Uma maca cruza o corredor, coberta por um lençol branco que esconde a vida que não existe mais. As amigas da ruiva choram, desesperadas, principalmente a loira. O rosto dela está vermelho, inchado. Ela treme ao chorar. Parece que carrega a culpa de não ter pedido desculpas a tempo.

— Estou me sentindo tão horrível... — Reed murmura — Não quero ficar aqui.

— Vamos embora — digo, me levantando enquanto pego a mochila do chão. — Posso ligar pro-

— Não! — ele me interrompe, firme. — Vamos a pé... quero andar um pouco.

Ele ajeita a mochila nas costas e segue à frente, com passos rápidos demais para alguém que acabou de assistir a morte bater na porta. Eu o sigo em silêncio, até passarmos pelo portão do colégio. Dois policiais se aproximam para fazer perguntas, mas uma das amigas da Samy responde por todos: disse que a ruiva foi até a área da piscina pegar algo que tinha esquecido... provavelmente não viu que estava molhado. Escorregou. Caiu. Morreu.

Trágico. Simples. Cruel.

Reed continua andando, e eu fico um pouco atrás. Seus ombros ainda estão tensos. Ele parece ainda menor agora. Tento me aproximar, tocar sua mão. Mas, assim que meus dedos encostam na pele dele, ele puxa de volta.

— Pode... ficar um pouco longe? — ele pergunta, sem sequer me olhar. — Quero ficar sozinho com meus pensamentos.

— Ah... tá bem — murmuro, recolhendo minha mão e a enfiando no bolso da jaqueta, como se assim pudesse esconder o constrangimento.

Fico parada vendo as costas dele se afastarem. A cena me leva direto para uma lembrança...

Outro garoto andando à frente. Pierre. Lembro da forma como ele ficou destruído com o que aconteceu com a irmã: doente, internada, em coma. Cinco dias sem sinais. Eu estive com ele, tentei dizer algo, qualquer coisa que aliviasse a dor, mas nunca fui boa com palavras. Só sei estar ao lado, silenciosa... oferecendo minha presença.

Tento tocar a mão dele. E ele a puxou

— Eu quero ficar sozinho, Kristhen... — ele disse. — Não pode simplesmente ir embora?

— Pensei que pudesse ajudar...

— Desculpa... — ele se virou. — Tô tão cansado, não dormi direito, minha cabeça tá doendo... Eu posso acabar descontando em você, e não quero fazer isso. Poderia... ir?

O olhar dele era uma mistura de tristeza e irritação. Uma rejeição envolta de dor.

— Tá bem...

Ele virou e continuou andando. Fiquei parada. Vendo as costas dele também se afastarem de mim.

Pierre foi parado por alguém que saiu de uma loja. Os cabelos loiros da garota voaram com o vento. Ella. A menina que virou a nova prioridade dele. A doce americana que todos gostam — até demais. Eles conversaram por um tempo, e ela segurou a mesma mão que ele tinha tirado da minha. Achei que ele fosse fazer o mesmo que comigo... mas não. Ele segurou a mão dela de volta. E manteve.

A cena me queimou por dentro. Cada segundo que eles permaneciam de mãos dadas, conversando, me deixava com o estômago mais apertado. Ele voltou a andar, agora com ela ao lado. Ainda de mãos dadas.

Me senti... descartada. Trocada. Esquecida. Um incômodo que ele se livrou com alívio.

Mesmo com o rosto sério, por dentro, meu coração doía como se estivesse sendo esmagado por dentro do peito. Tentei ser presença, tentei estar lá. Mas ele não queria isso de mim. Queria dela.

Engulo em seco e viro na primeira rua. Não vale a pena ficar aqui me doendo por alguém que mal olhou pra trás. Tenho que ir embora, encontrar a Kefhera. Ao menos ela sabe que eu existo. Caminho em direção ao beco que leva pra casa... sozinha. Sozinha, como sempre.

E agora... eu queria chorar. Queria, mesmo. Meu peito parece que vai arrebentar. Mas se eu derramar uma lágrima sequer, a Kefhera vai saber. Vai ver isso como uma fraqueza. E eu não posso... eu não posso decepcioná-la.

— Vai chorar por ter sido trocada por uma melhor?

A voz nojenta que me interrompe me faz erguer os olhos, engolindo o choro junto com a raiva.

— Você não deveria estar aqui — digo, fria, ajeitando a mochila nos ombros.

Shogo. O maldito Shogo. Japonês, prodígio, o queridinho da Kefhera. O líder dos La Mort. O "imbatível". O único que sempre ficou acima de mim em tudo. Sempre esfregando na minha cara.

— É, terminei minha missão — ele diz com aquele sorriso irritante. — Você sabe como sou rápido.

— Uau. Ninguém liga — solto, seca, passando por ele.

— É mesmo? Porque a Kefhera comentou como você treinou desde que saiu. Ainda tentando me superar, Kristhen? Isso é... patético. Você sabe da diferença entre nós dois.

— Vai se ferrar.

— Oh, calma... — ele debocha — Tá triste porque o Pierrezinho achou alguém melhor? Não chora. Você sabe que um dia ele vai acabar morto por-

Me viro com raiva, puxo o canivete da mochila e seguro os cabelos dele, afundando a lâmina contra a garganta.

— Se encostar nele... eu abro a sua garganta agora mesmo.

— Opa! Calma... — ele levanta as mãos, ainda com aquele maldito sorriso brincalhão — Eu não vou fazer nada...

Solto com nojo e guardo o canivete de volta.

— Me deixa em paz!

— Se quiser descontar a raiva, desconta nele. Foi ele quem te trocou, e tá na cara que aquele idiota tá gamado na loirinha.

Deixo ele falando sozinho.

Shogo morreu de um jeito tão estúpido que chega a ser irônico ele já ter sido considerado o melhor. Pior é lembrar disso agora.

Sinto algo. Uma mão tocando a minha, devagar. Quando volto ao presente, Reed me encara, preocupado.

— Você... ouviu o que eu disse?

— Hã? Não. O que você tava dizendo?

— Quer dormir fora hoje? Não quero voltar pra casa e ouvir minha mãe jogando a culpa em mim pela morte da Samy...

— Pode ser...

Ele segura minha mão com firmeza — diferente de antes — e começa a andar à frente, me puxando com ele. Sigo seu passo, lado a lado.

Continua...

Obrigada por ler! Não se esqueçam de votar, me ajuda muito

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Obrigada por ler! Não se esqueçam de votar, me ajuda muito. Beijo, vejo vocês por aí! ❤️

KristhenOnde histórias criam vida. Descubra agora