Capítulo 2- O Legado que Carrego

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ALGUNS MINUTOS ATRÁS

Kristhen Zillord

Com esforço, arrasto a mala pesada para fora da minha casa. O ar frio da manhã me bate no rosto. Não consigo deixar de pensar na minha mãe sozinha, sofrendo ali dentro. Ela já perdeu o meu pai, o amor da vida dela, e agora eu... seguindo o caminho dele. Parece uma ironia cruel.

Quero me aposentar nessa área, continuar o sonho dele. Não treinei só pra ser mais uma segurança mediana, treinei como se minha vida dependesse disso. Porque, no fundo, depende.

— A senhora não quer ir pra casa da vovó? — pergunto, tentando parecer mais confiante do que estou.

Ela se vira devagar, os cabelos pretos bagunçados caindo pelos ombros.

— Não... — responde com um sorriso meio frágil — Tenho muita coisa aqui. Memórias demais pra sair assim.

A pele do rosto está marcada pelas noites mal dormidas, as olheiras profundas que contam a história do medo e da perda.

— Me prometa que vai ficar segura — ela diz, dando um passo perto de mim, a voz um fio de esperança.

— Prometo, mãe. Vou mandar mensagem todo dia, contar cada detalhe, e ligar sempre que puder.

Sinto a textura da blusa dela sob minhas mãos quando a abraço. Queria poder tirar dali toda essa angústia que ela carrega, mas sei que não dá. Ela perdeu o homem da vida dela e tem medo de me perder também.

Mas não vai ser assim. Eu treinei pra ser mais forte, pra não cair fácil.

— Eu te amo, filha.

— Eu também te amo, mãe. Fique bem. — deslizo a mão lentamente pelas costas dela e me afasto.

Ela me encara, com aquele sorriso que tenta esconder o medo, e acena quando me viro para puxar as malas. O resto do pessoal está parado, como estátuas, olhando sem ajudar. Ótimo.

Depois de uma luta com o peso, finalmente chego ao carro. O ar está pesado, e minhas mãos tremem ligeiramente enquanto entrego as malas. Acho que exagerei — trouxe praticamente minha vida junto.

***

Caralho, isso aqui é uma mansão! Quando perguntei para a senhora Walsh como era a casa dela, ela disse que era "normal, igual às outras dos empresários". Que mentira.

O portão se abre com um ranger alto e a grama impecavelmente verde. O caminho até a porta principal é cercado por flores e arbustos podados com precisão cirúrgica.

Uma mulher de meia-idade aparece, um sorriso simpático estampado no rosto.

— Senhora Zillord? Sou Lucy, vou levá-la até os senhores Walsh.

Ela é calma, fala suave, e seu perfume tem um leve cheiro de baunilha que fica no ar quando passa.

Sigo atrás dela pelo corredor com um tapete vermelho luxuoso, os lustres de cristal refletem a luz em milhares de pequenos brilhos que dançam pelo teto.

— A família Walsh está no ramo há gerações — Lucy fala, apontando para os quadros antigos nas paredes — Todos os chefes da empresa W moraram aqui. O senhor Phillip Walsh herdou tudo isso.

Eu quase me perco nos detalhes dos quadros: homens e mulheres sérios em ternos impecáveis, olhar duro e expressão de quem carrega o mundo nas costas.

Chegamos na sala. O espaço é enorme, tão grande quanto minha casa inteira, com sofás enormes de couro macio e uma lareira imponente ao fundo.

— Senhor Walsh, Kristhen Zillord chegou — Lucy anuncia e se retira.

Uma mulher alta, cabelos castanhos escuros lisos, aproxima-se com um sorriso profissional.

— Sou Elaine! Finalmente nos conhecemos — estende a mão, que aperto firme.

— Prazer em conhecê-la, senhora.

Ela volta e senta no sofá, enquanto o senhor Walsh, um homem com olhos cor de mel penetrantes, levanta a revista e me observa com atenção. Fico de frente a eles, em silêncio.

— Te contratamos porque seu pai foi um dos melhores seguranças que meu marido já teve — Elaine fala com voz firme — Analisamos seu currículo e sabemos que você é a pessoa certa.

— Precisamos que proteja Reed, e nos ajude a descobrir quem está ameaçando nossa família — diz o senhor Walsh, ajeitando-se no sofá.

— Por que alguém quer o filho de vocês? — pergunto, franzindo o cenho.

— Dinheiro — responde Elaine — Recebemos ameaças sérias. Sequestrar um garoto herdeiro de bilhões não é difícil, especialmente sem segurança.

— Pensamos também na possibilidade dele machucar alguém — acrescenta o senhor Walsh — Mas Reed nunca machucaria ninguém. Ele é tímido, tem dificuldade para fazer amigos, conversar com os outros.

— Queremos que você não só o proteja, mas se aproxime, seja amiga. Ele precisa se abrir, tem notas ruins porque tem vergonha de pedir ajuda na escola. Esse será seu trabalho extra. Tudo bem?

— Sem problema.

Nunca lidei com alguém assim, mas vou aprender.

— Ele é um garoto incrível, só um pouco fechado. Faz terapia há um tempo, não fala muito, mas já vi progresso. Hoje ele fala mais alto, tem mais coragem — Elaine sorri, sincera — Seja paciente.

— Pode deixar.

— Lucy vai mostrar seu quarto.

Permaneço com os braços para trás, esperando que aquela doce senhora venha e mostre meu quarto. Mas então, um garoto surge no corredor da casa.

Ele é alto, perto de 1,85m, com um estilo que grita "popular": cabelo com laterais e atrás raspadas, topo volumoso com mechas caindo na testa, formando uma franja bagunçada. A roupa larga demais só reforça o visual de quem se importa com aparência.

Tímido? Não parece nem de longe.

Continua...

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