LVI

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Assim que acordo, a primeira coisa que escuto é o barulho da vassoura contra o asfalto. Passo as mãos pelo rosto, sei que ainda é cedo. Turan começa a varrer cedo, quer deixar o pátio limpo antes da minha mãe sair para o ateliê no jardim. Vou até meu banheiro, escovo os dentes, ajeito o cabelo, passo as mãos pela barba, olhando de um lado e depois do outro, fazendo uma nota mental de arrumar isso quando voltar da corrida.

Troco de roupa, coloco meu tênis. A casa ainda está em silêncio. O canto do pássaro é a única coisa que rompe a calmaria. Desço devagar até a cozinha, preparo o café da máquina. Espero.

Com a xícara quente, saio no jardim, respirando o ar puro. Dizem que certas manias vem de família. Essa vem do meu pai, com certeza.

Olho para o lado e vejo o ateliê de minha mãe. Me aproximo devagar, e através dos vidros eu vejo que chegamos a pior época do ano. Os quadros começaram a tomar uma só forma, uma só temática.

Eram chamas e mais chamas.

E junto com o pesadelo, o grito de medo da minha mãe rompe o silêncio daquela manhã.

De novo.

18 anos antes.

Entramos naquela construção fria no meio da noite. Esme segurava minha mão com muita força e quando Hakan parou no meio da sala de controle, sinto Esme se puxar para mais perto.

— O que estamos fazendo aqui, Hakan?

— Eu falei que íamos nos mudar, querida.

Olhei em volta e não vi nenhum móvel. Tio Hakan estava ficando doido? Era aqui que meus pais me buscariam?

Percebi que ficou um silêncio, e ao olhar os adultos, vejo Esme a meia luz com um semblante quase de dor. Ela senta no chão e me puxa para sentar com ela.

— O que foi, tia Esme?

— Precisa ficar calmo, está bem? Querido? Promete que vai ficar quietinho?

— Claro, tia Esme.

Hakan anda de um lado para o outro, e quase pergunto se ele quer ajuda com alguma coisa. E então tudo acontece muito rápido.

— Emir!

A voz do meu pai corta o ambiente como trovão.

— Pai! Papai!

— Emir!

— Parado aí, Nero!

Esme tenta me esconder a cena, mas eu vejo Hakan apontar uma arma para meu pai. Ele joga um isqueiro no chão e a casa começa a pegar fogo.

— Pai! Pai! — eu grito, assustado, tento me desvencilhar de Esme. — Me solta!

— Emir, fique aqui!

— Preciso ajudar meu pai!

Sirenes começam a soar na minha cabeça. Meu pai segue parado. Esme começa a tossir.

— Hakam!

Uma mão me puxa de repente. Sou tirado de dentro da casa em chamas. Eu não sei o que está acontecendo. Sou colocado num colo,  não reconheço. Vou me afastando da casa em chamas, escuto o chamado do meu pai.

— Emir! — de repente estou nos braços da minha mãe.

Ela me aperta forte, mas só consigo olhar para a casa.

Tiros são escutados do lado de dentro.

O grito da minha mãe quase me deixa surdo.

Meu pai sai das chamas, entre os escombros, corre até nos, tossindo e com o braço queimando.

Eu não me lembro de mais nada.

Quero voltar para a Umbria.

Quero que meu pai volte a ficar em segurança no espaço, que minha mãe me conte histórias sobre ele.

Quero vingança contra o homem que tentou tirar meus pais do meu lado.

Quero o colo da minha mãe.

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