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Existia uma potência enorme dentro de uma mãe desesperada. Era o que diziam, mas eu tinha uma fraqueza dentro de mim, me tornei aquela mulher melancólica, não comia e não falava, não tinha forças para me manter em pé, e ao mesmo tempo não conseguia fechar os olhos nem por um segundo. Eu observava a movimentação do lado de fora do ateliê, lugar que vinha sendo meu refúgio, onde eu fazia minhas orações, onde eu clamava aos céus pelo meu filho.

Fazia uma semana.

Eu sabia que os noticiários estavam a todo vapor. A essa altura todo o esquema, toda a investigação dos últimos anos que vinha correndo em segredo de justiça, tudo veio a tona. Nilay me falava que a foto de Emir estava em todos os jornais, estava na televisão e nas redes sociais. A sociedade turca se perguntava onde estava meu filho.

Canan e Kemal desceram até Istambul em um instante. Naz e Asya se revezavam a me trazer comida.

Nero deitava ao meu lado durante a madrugada quando a exaustão da procura tomava conta dele também.

Era assim que eu me encontrava agora.

Nero deitou do meu lado, e nós dois olhamos para o teto em silêncio.

Silêncio era o que mais tomava conta da gente nos últimos dias. Ele tinha a culpa tão pesada quanto a minha, que tinha deixado meu filho ser levado dos meus braços naquela noite.

— Você precisa comer alguma coisa, ou vai acabar ficando doente. — ouvi a voz rouca dele rompendo a noite.

Sei que me olha.

— Eu já estou doente. Cada segundo longe do Emir, sinto que morro.

— Eu vou encontrar nosso filho. Confia em mim.

Deito de lado, me volto para ele. Alexandre faz o mesmo, seus olhos estão fundos, ele também está emagrecendo.

— Eu confio. Se Hakam ao menos nos dissesse como ele está.

— As contas dele foram esvaziadas antes que a justiça bloqueasse os bens. Ele não aparece mais na empresa, sua vida pessoal sempre foi tão privada que é difícil tentar adivinhar onde ele está.

Eu me aproximo mais dele, e Alexandre me engloba em seus braços, me puxa para seu coração, como se tivesse medo que eu me afastasse de vez. Era impossível.

Hakam observava o menino na mesa do jardim, ele tinha a cabeça baixa e um desânimo aparente. Esme tentava fazê-lo comer pelo terceiro dia consecutivo, sem muito sucesso, o rapazinho só aceitava leite, e só porque seu estômago devia estar apelando de dor.

Ninguém entendia sua atitude. Ninguém entendia sua repentina mudança de comportamento para algo tão mal pensado, e ao mesmo tempo ele não poderia estar mais certo de suas atitudes. Viu quando Esme saiu da mesa e deixou o menino de cabeça baixa na mesa. Ele respirou fundo, desviando o olhar para o masbaha em cima de sua mesa. Quão diferente ele era de tudo que sempre detestou?

Se lembrava quando ainda menino ganhou esse item de seu pai. Foi pouco tempo antes de ser mandado para longe depois de ser acusado de tentar afogar o filho favorito em Toklumen. Eram inseparávies, Hakam e Eymen. Ele se lembrava bem, era o mais velho, era o príncipe que dividia o futuro com o pequeno irmão. Hakam fazia tudo para honrar o nome de seu pai. Seguia seus passos. Era um Nero, afinal.

Mas foi naquele fatídico verão.

Seu último verão.

Foi um acidente, ele custava a repetir para o pai, mas o velho estava transtornado, inconformado, e alimentando uma raiva em silêncio que o menino de 9 anos não fazia ideia. Foi chegarem em Istambul que Hakam foi mandado para o Iraque e jogado na primeira vila isolada que acharam. Entrou em uma escuridão profunda, e quando abriu os olhos, era outro.

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