Eu consigo um momento a sós com ela. Soner ilude as outras com suas histórias sobre a Europa e países que essas moças nem conheciam direito. A atenção de Yagmur, porém, era só minha, e eu me sentia tendo a oportunidade de uma vida bem aqui. Aqueles momentos únicos, um teste do divino.
Ela estava esperando o resultado da faculdade de artes e eu tive a certeza que se daria bem com a minha mãe. Gostava de futebol, queria muito conhecer um estádio, para alegria de meu pai. Gostava de shows e festivais, seria ídola da minha irmã.
— E o que você está fazendo aqui? Duvido que tenha sido pela festa do pistache.
Fico desconfortável, tento desviar desse tópico, mas no fim só respondo.
— Umas questões de família.
— Tem família aqui? Como nunca te vi?
O olhar dela era genuinamente curioso e eu me senti sujo.
— Passei um tempo aqui quando era criança, só vim visitar uma pessoa. Procurar por ela, na verdade.
— E qual o nome dela? Talvez eu possa de ajudar!
Eu fico pensando 'por que não?'. Se fosse para ser sincero, eu me lembrava muito pouco do mapa da cidade, conseguia descrever aquela casa por dentro, mas nunca a vi do lado de fora. Yagmur espera ansiosa como se fosse ganhar o mundo por me ajudar.
Respiro fundo.
— Esme Golçapk. — o silêncio que ela mantém me pega de surpresa, e quando a olho, está com as órbitas quase saltando para fora.
E então eu percebo.
— Está brincando? É a minha mãe, Emir!
Eu sempre sentia meu corpo relaxar em alívio quando o carro parava na frente do hotel em Bodrum. Era inevitável, o nossa histórico nessa estrada sempre me deixava dura o caminho inteiro. Alexandre colocou a mão em minha perna como se me trouxesse de volta para a realidade. Esra já estava do lado de fora, conversando com o manobrista já tão conhecido por nós.
— Você dormiu durante a viagem, descansou?
— Sinto que minhas costas estão travadas, acho que a idade chega, não é? — eu brinco, tocando o rosto dele.
— Chega e te deixa mais gostosa, não me canso de te olhar.
Eu amoleço com o elogio, mas ele me conhece bem o suficiente para saber que eu estava rígida por traumas.
— Tem uma massagem marcada para você daqui 30 minutos. Vá enquanto eu arrumo tudo no chalé com a pequena.
— Pensei que fossemos aproveitar juntos.
— E vamos, quando Esra sumir pelo hotel com as outras crianças.
A voz dele era carregada de promessas e eu me agarrei em todas. Saí do carro e peguei minha pequena mala, Esra já estava entretida atrás da recepção, alheia demais a qualquer coisa. Dizer que ela praticamente cresceu nesse hotel era quase eufemismo. Ainda dentro de minha barriga, começamos a bater ponto com Emir sempre que podíamos. Depois que minha menina nasceu, as idas para Umbria diminuíram, Bodrum sempre ganhava na enquete familiar. Ela era turca de tudo.
Umbria virou um refúgio meu e de Nero, íamos para nos desligar.
— Senhora? Vamos para sua massagem? — a recepcionista veio até mim com um sorriso e eu concordei, pedindo um segundo para usar o celular.
É claro que nessa época eu ficava mais tensa, tinha mais pesadelos que o normal. A terapeuta me avisou que aconteceria. Minha aflição ia além disso. Emir não estar aqui me deixava tensa.
