Quem nunca desejou ser outra? Por vezes tive vontade de ser outras, e nesse momento tive vontade de ser mais corajosa, me jogar na frente deles, pegar meu filho. Acho que nunca na vida vou me perdoar por ter sido eu, pois significava ter sido fraca.
Tão fraca a ponto de não ter reação alguma. Fui empurrada para dentro do carro, colocaram um pano em minha cabeça, e eu não tive reação alguma. Ao meu lado do banco de trás colocaram Alexandre e Omar, sinto o cheiro deles, e o silêncio e a respiração ofegante me diziam que as armas ainda estavam apontadas para eles.
Fraca ao ponto de nem sentir quando fomos jogados para fora do carro. Alexandre tira o capuz, toca meu rosto, me chama, tenta me olhar, mas eu sei que ele não vê nada.
Eu acho que existem formas diversas de morrer, e acabei de descobrir uma delas.
Eu estava em choque, não tinha como. Eu queria gritar, eu poderia, mas eu não tinha direção para isso. Meu cérebro parou e meu coração também.
Omar pede uma carona no meio da estrada em que nos largaram. Implora para que nos leve a uma delegacia o mais rápido possível, que tínhamos sido sequestrados.
— Giovanna, fala comigo. — Alexandre me pede um pouco mais alto, ofegante, perdido quanto eu, os olhos marejados.
— O casaco do Emir ficou no carro. — eu falo devagar, olhando ao redor. — Ele vai sentir frio.
O dia estava amanhecendo na cidade de Gaziantep quando Esme ouviu o barulho dos veículos entrando na propriedade. Dificilmente algo acontecia em sua casa, ampla e vazia, e por isso ela se levantou devagar, já suspirando ao pensar no tempo que Hakam ficaria na cidade. Sua pequena paz estava arruinada. A surpresa foi ouvir a voz do marido já dentro de casa, como se ele já esperasse aqueles veículos.
— Ao menos me deixou em paz na madrugada. — murmurou ela em voz baixa.
Ela observava na janela as três Mercedes parando na porta da mansão. Foi quando algo a pegou de surpresa. Uma criança descia do carro, ela não conseguia ver seu rosto muito bem, mas o menino olhava ao redor, parecia ansioso e com medo.
— O que é isso?
Esme desceu as escadas correndo, fechando o roupão. Foi até a ante-sala e encontrou Hakam em pé e olhando o relógio.
— Acordou, querida. — ouviu a voz grossa do homem, que nem ao menos lhe dirigiu o olhar.
A criança entrou na casa com a postura encurvada, medroso, o rosto vermelho de quem chorava.
— Ah! Menino Emir Can, bem vindo a sua nova casa. — Hakam falou, uma animação e simpatia que Esme desconhecia, se abaixando na frente do garoto.
— Meus pais e o tio Omar estão aqui? — ele perguntou baixo.
— O que? Não! Eles não, esqueça eles, somos muito mais legais. Eu sou Hakam, e essa é minha esposa Esme. Vamos cuidar de você.
O menino tenta dar um passo para trás, mas o segurança segura seu ombro.
— Eu quero voltar para casa.
— Essa é sua casa agora, garoto. — Hakam fica em pé. — Vai se acostumar. Abidin, leve o garoto para o quarto.
Esme não desgruda os olhos do menino, que deixava algumas lágrimas escorrerem em silêncio. Quando ele desaparece escada acima, ela se volta para o marido.
— O que significa isso? Da onde saiu esse menino?
— Não queria ser mãe? Aí está, um filho, se quiser pode mudar o nome dele. — ele falou sério, passando por ela.
Esme não se contentaria com aquela resposta. O segurou pelo braço mesmo sabendo que poderia sofrer consequências por isso.
— Hakam, de quem é essa criança? Ele é seu filho?
— Não, querida esposa, não precisa ter ciúme.
— Então onde estão os pais dele? Você... você matou os pais desse menino?
Hakam se irritou, segurou o rosto de Esme com uma mão, apertando suas bochechas, fazendo ela se calar.
— Não matei, porque quero que percam tudo. Esse menino é nosso agora. Fim. E logo vamos fugir com ele.
A casa estava tomada de policiais, a televisão dava a notícia de sequestro do filho do ex magnata turco e da artista do Ataturk. Eu não conseguia me concentrar em nada, e desde que conseguimos chegar na mansão, eu não tinha sido capaz de pensar direito. Giovanna se enfiou no ateliê com a minha mãe, e eu não tinha coragem de lhe encarar.
— Eu devia ter adivinhado que isso ia acontecer. — sussurrou ao sentir Omar sentando ao meu lado.
— Você não tinha como saber.
— É do Hakam que estamos falando. Você estava lá comigo quando conhecemos ele. Tudo isso começou quando ele decidiu que ia comprar a Giovanna. E agora ele tem meu filho refém sabe lá onde!
Eu não me aguento, deixo a raiva tomar conta de mim e pego o vaso da minha mãe, quebrando em qualquer lugar. George tenta me acalmar e eu mando ele se afastar de mim. Eu quero sumir, quero achar meu filho, quero matar Hakam. Eu quero tanto, e me sinto impotente para qualquer coisa.
Nilay observava Giovanna em silêncio desde que ela chegou e se isolou no ateliê. A mulher olhava uma tela em branco, ignorando os outros móveis cobertos por panos brancos.
— Querida, quer uma água? — a mais velha perguntou.
— Quero meu filho, Nilay. Onde ele pode estar? O que estão fazendo com ele?
— Allah está com ele, querida. Ele está em segurança, eu tenho certeza.
— Alexandre deixou o masbaha no bolso dele, espero que ele se lembre das breves orações que eu ensinei.
— Giovanna, querida... — Nilay tocou seu ombro.
Giovanna a olhou assustada.
— Eu quero meu filho, por favor, Nilay, eu quero meu filho...
Esme entrou devagar no quarto com uma bandeja de frutas e pão com creme de avelã. O menino estava na janela, olhando os arredores como se procurasse um jeito de fugir. O menino a olhou assustado, se encostando na parede.
A mulher fechou a porta e colocou a bandeja na mesa perto da cama.
— Está com fome, querido? — ela perguntou com calma.
— Eu quero ir para casa, senhora. Eu quero meus pais.
— Emir... Emir, não é? — ele concordou. — Eu creio que isso não vai ser possível agora, mas o que dá para fazer é comer alguma coisa.
— Não quero.
— Querido, precisa comer para ter forças, sua mãe gosta que pule refeição?
Ele negou com a cabeça.
— Então venha comer, eu como com você.
