Eu não queria vir, a insistência de Suna me fez sair de casa com uma cara fechada. Não era de hoje que eu discutia com a minha mãe, e hoje em específico meu plano era ficar dentro do quarto, junto com meus livros e músicas. Efeito Suna sempre consegue o efeito contrário. E agora cá eu estava, rindo de piadas sem graça, dançando músicas antigas, e agora um homem com bandeja de baklava quentinha bem na minha frente.
Um homem lindo.
Diferente, alguém que eu nunca vi em Gaziantep.
Eu, com meus recém feitos 18 anos, parecia perdida como uma menininha.
Suna me cutucava, as outras meninas davam risadinhas.
Ele esperava, me olhava de maneira tão profunda, quase em devoção. Tinha uma certa agonia também, esperava minha resposta.
— Minha mãe me ensinou a não aceitar comida de estranhos. — eu respondi com um sorriso incerto.
Sim, Yagmur, essa é a melhor forma de tentar conquistar um cara bonito. Fale da sua mãe, e fale como ela lhe trata como uma criança.
— Minha mãe me ensinou a sempre me apresentar primeiro, então. — ele respondeu, esticando a mão livre para mim. — Emir Can Nero, a seu dispor.
O carro parou na frente do Ataturk, o homem grisalho de óculos escuros me esperava em seu esportivo. Era o homem mais lindo, e envelhecia como vinho. A sorte era minha de foder com essa homem toda noite, e esse era meu pensamento mais impuro. Entrei no carro e lhe beijei com força, a mão firme agarrou minha coxa, e nesses momentos eu me sentia aquela jovem de 25 anos de novo. Tudo era quente e intenso.
Quando nos afastamos, ele sorri.
— Capota baixa, demos um show. — ele falou, dando partida no carro de novo.
— Bom, estou com meu marido. Tenho meus direitos.
— Hmm, gosto quando fala assim. Meu marido. Nem parece que demorei 5 anos para te convencer a casar de novo.
Tenho certeza que ele gostava, mas não era por isso que o chamava assim.
Eram para as mulheres do Ataturk que derretiam toda vez que ele vinha me buscar.
Tinha dono.
Toco os fios grisalhos, passo os dedos pela barba.
As vezes eu não conseguia acreditar que sobrevivemos o inferno, ressurgimos das cinzas como uma fênix.
18 anos antes.
Eu esperava no corredor do hospital com o coração nas mãos, lágrimas escorriam de maneira espontânea enquanto eu sentia as mãos de Canan em minhas costas e escutava os passos de Kemal de um lado para o outro. Meu filho estava sendo avaliado por um pediatra e eu não podia entrar na emergência, meu marido estava aos cuidados médicos pela extensa queimadura no braço.
A essa altura o corpo de Hakan era retirado da casa.
A história se encerrava ali.
O pesadelo acabava.
E eu parecia presa em alguma coisa ainda.
Vi a médica que cuidava do meu filho se aproximando de nós e me levantei rapidamente. Ela tinha um expressão tranquila que me deixava mais calma, me fazia voltar a respirar.
— A senhora é a mãe de Emir?
— Sim, sou eu. Posso ficar com ele?
— Claro. Ele está bem, hidratado, não tem nenhum arranhão no corpo. Vamos deixá-lo em observação na enfermaria e mais tarde dou a alta, tudo bem?
— E meu marido?
Ela olhou as folhas em sua mão e balançou a cabeça.
— O caso do Sr. Nero não ficou comigo, mas até onde eu sei, a equipe do trauma estava cuidado da queimadura.
Sim. O braço do Nero saiu em chamas da casa. Eu precisaria aprender a cuidar disso.
— Venha, senhora. Vou te levar até seu filho.
Meu bebê tinha os olhos atentos em cada movimento, e assim que me viu, desatou em chorar, assim como eu. Sentei na cama enorme de hospital e o puxei para meu colo, onde ele se agarrou e parecia que nunca mais ia sair.
Acariciei seus cabelos, beijei seu rosto.
— Mamãe... não quero ficar longe de você nunca mais. Nunca mais, mamãe.
Meu coração se apertou e então explodiu. Toda mãe quer ouvir isso de seu filho, mas eu não queria nessas condições. Talvez quem sabe depois de um acampamento da escola, sim.
— Nem eu, Emir Can. O que fizeram com você? Te machucaram?
— Não, mamãe. A tia Esme cuidou de mim. Onde está o papai? Por que ele não está aqui?
— Estão cuidando do braço do papai, logo ele vem. — eu acaricio seu rosto como se procurasse um machucado. — Quem é Esme?
— A esposa do tio Hakam.
— Esse homem não é seu tio, Emir. — eu falo levemente irritada, desconsiderando o fato de que se Emir estava em seus braços é porque aquele homem teve um pingo de piedade.
A verdade é que não queria ouvir esse nome nunca mais. Muito menos da boca de seu filho.
— Desculpa, querido. — eu falo, beijando sua testa.
— Por que tinham tantos homens maus? Por que me tiraram de você e do papai?
— Filho, essas coisas... São conversas de adulto.
— Ele morreu porque era mau?
Eu respiro fundo e balanço a cabeça que sim
— No que está pensando? — Nero interrompe meus pensamentos.
Eu olho para ele e sorrio, percebo que estamos chegando na escola de Esra.
— No nosso fim de semana em Bodrum. Tem certeza que Emir não quer ir? Que tanto de trabalho é esse?
— Na construtora eu te garanto que não é. — ele se desvia da culpa. — Ele e aquele amigo Soner... garotos encrenca.
Eu solto uma risadinha.
— Eu tenho que me acostumar de que ele não quer mais viajar com os pais. Prefere os amigos... quem sabe uma namorada até.
— Você tão tranquila falando sobre namorada de Emir?
— Os pássaros saem do ninho para cantar no ninho de outro.
— Ah... o canto do pássaro.
Ele estaciona na frente da escola e esperamos a hora da saída. Me puxa para um beijo, mas eu reparo em como a pele de seu braço está sensível pelo sol.
— Você passou protetor nessa pele? Temos que comprar um mais forte para Bodrum.
Ele me faz olhar para ele e sorri. Sou completamente maluca por ele e sobre como ele não rebate meus cuidados por saber como é importante para mim.
— É claro que sim. Tudo que minha mulher manda, eu faço.
— E que seja sempre assim.
