Vitória Strada

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Pov S/n Pedrosa

*A noite no Rio estava quente, e a varanda do apartamento de Vitória tinha aquela vista absurda que me fazia esquecer do tempo sempre que ficávamos ali. Ela estava encostada no parapeito, segurando uma taça de vinho, enquanto eu mexia distraidamente no rótulo da minha garrafa de cerveja.

Havia algo no ar.

Aquela tensão meio familiar, meio incômoda, que surgia sempre que a gente tentava definir o que éramos. Só que, dessa vez, parecia mais sério.

-Você tá estranha. -Falei, quebrando o silêncio.

Vitória soltou uma risada curta, virando para me encarar.

-Eu?

-Sim, você. -Cruzei os braços. -Conheço esse olhar. Você quer me contar alguma coisa.

Ela mordeu o lábio inferior, um dos seus sinais clássicos de nervosismo, e se aproximou, puxando uma cadeira para sentar na minha frente.

-Eu vou pro BBB.

O mundo pareceu parar por um segundo.

Pisquei algumas vezes, tentando processar.

-Como é que é?

-Vou pro BBB 25. Já tá tudo certo, assinei contrato, fiz os exames... só tô esperando a hora de sumir do mapa.

Minha cabeça girou. Vitória era um nome forte na TV, já tinha uma carreira consolidada, mas reality show era outro universo.

-Você tem certeza disso?

Ela assentiu, os olhos brilhando de expectativa.

-Tenho. Faz tempo que eu quero me desafiar, sair da minha zona de conforto. E agora que surgiu a oportunidade, eu não podia dizer não.

Passei a mão no cabelo, soltando um suspiro.

-Isso é enorme, Vitória. Sua vida vai virar de cabeça pra baixo.

-Eu sei. -Ela segurou minha mão sobre a mesa, apertando de leve. -E a nossa também.

Engoli em seco.

-A nossa?

Ela me olhou com aquele jeito dela, intenso, como se pudesse ver através de mim.

-S/n, o que a gente tem... não sei exatamente o nome, mas sei que vai ser difícil ficar sem você..

Meu peito apertou. A gente nunca tinha falado tão diretamente sobre nós. Sempre foi algo implícito, não nomeado, mas inegavelmente forte.

-Você tá preocupada que isso mude alguma coisa?

-Eu tô preocupada que a gente se perca no meio disso.

Encostei as costas na cadeira, deixando o peso daquilo cair sobre mim.

-Então me diz... o que você quer que a gente seja antes de você entrar?

Vitória hesitou por um instante, depois sorriu de canto.

-Quero que a gente seja o que sempre foi: real.

Soltei um riso baixo. -Isso não ajuda muito.

-Então deixa eu te mostrar.

Ela se inclinou, os lábios encontrando os meus num beijo lento, profundo, carregado de tudo que a gente nunca disse em palavras.

Quando nos afastamos, encostei minha testa na dela, os olhos fechados.

-Tô torcendo por você, mas se beijar alguém lá dentro, eu vou te infernizar quando sair.

Vitória riu, me puxando para outro beijo. -Pode deixar. Eu volto pra você.

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Dias depois

**Os dias passaram voando depois daquela conversa. Vitória estava cada vez mais ocupada com os preparativos, os compromissos pré-confinamento, e eu me via dividida entre querer aproveitar cada segundo com ela e tentar não pensar demais no que ia acontecer quando ela entrasse no BBB.

A verdade era que eu não sabia como me sentir.

A gente nunca tinha definido exatamente o que éramos, mas, ao mesmo tempo, a ideia de vê-la longe por meses, exposta para o Brasil inteiro, mexia comigo. O que aconteceria se ela se envolvesse com alguém lá dentro? E se a gente simplesmente se afastasse depois?

Esses pensamentos me atormentavam enquanto eu estava sentada no sofá do apartamento dela, assistindo enquanto ela terminava de organizar uma mala enorme.

-Você precisa mesmo levar tudo isso? -Perguntei, tentando parecer mais descontraída do que realmente estava.

Vitória olhou para mim por cima do ombro e riu.

-Você acha que eu vou viver meses com uma mala pequena? Me respeita, S/n.

Fiz uma careta, jogando uma almofada nela.

-Se quiser, eu posso guardar umas peças suas lá em casa.. Assim, quando você sair, tem um motivo pra ir correndo me ver.

Ela parou por um segundo, um sorriso de canto surgindo nos lábios.

-Eu não preciso de motivo pra te ver. Mas se quiser manter umas roupas minhas por perto pra matar a saudade... -Ela se aproximou, sentando ao meu lado. -Eu deixo.

Me virei para encará-la, sentindo aquele misto de carinho e inquietação crescer dentro de mim.

-Você tá pronta pra isso? Pra ser vigiada o tempo todo? Pra todo mundo comentar cada coisa que você fizer?

Vitória respirou fundo. -Não sei. Mas acho que ninguém tá realmente pronto pra esse tipo de coisa. Eu só sei que quero tentar.

Balancei a cabeça, tentando ignorar a vontade de pedir pra ela ficar.

-E se as coisas ficarem difíceis lá dentro?

Ela segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos.

-Eu vou lembrar que tem alguém aqui fora torcendo por mim.

Engoli em seco, desviando o olhar. -Vai ser estranho não poder te mandar mensagem, te ligar...

Vitória apertou minha mão.

-Você pode me assistir todo dia. Vai ser quase como se eu estivesse aqui.

Soltei uma risada irônica. -Não é a mesma coisa.

Ela ficou em silêncio por um momento, e então, sem aviso, se inclinou e me beijou. Diferente dos outros beijos, esse foi mais intenso, como se ela quisesse deixar algo marcado antes de ir.

Quando nos afastamos, eu ainda sentia o gosto dela nos meus lábios.

-Não some, tá? -Ela murmurou.

-Eu é que deveria falar isso. -Respondi, tentando sorrir.

Vitória passou os dedos pelo meu rosto, me olhando nos olhos. -Quando eu sair de lá, a primeira pessoa que eu vou querer ver vai ser você.

E naquele momento, decidi que esperaria. Porque, independentemente do que éramos ou do que seríamos, Vitória sempre foi algo que valia a pena.

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