Clara Galle

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Pov Narradora

*O set era quente, mas não pelo clima. Era o olhar da Clara. Sempre ela. Sempre do outro lado da sala com aquele sorriso cínico, os braços cruzados e a postura de quem sabe exatamente o que faz com a cabeça de quem a encara. No caso, a sua.

S/n estava no camarim, passando o batom como se fosse uma preparação de guerra. Porque era. Sempre que sabia que ia contracenar com Clara, o sangue fervia. Uma parte porque ela era incrivelmente boa, outra porque... ela era linda. Arrogante. Provocadora. Do tipo que sabia o efeito que causava e usava isso como arma.

-Já decorou sua fala ou vai improvisar de novo pra tentar me deixar sem reação? -Clara apareceu na porta, o olhar preguiçoso, mas cheio de intenção.

S/n ergueu uma sobrancelha, não desviando os olhos do espelho.

-Você se descontrola fácil demais se um texto muda, Clara. Talvez o problema esteja aí.

Ela riu. Um riso baixo, quase rouco, e andou lentamente até ficar atrás de S/n, fitando-a pelo espelho.

-Você adora me provocar, né? Mas não é profissionalismo isso aí.. é tesão mal resolvido.

A respiração de S/n falhou por meio segundo. Mas ela não se virou. Sorriu, sim. De canto. Com malícia.

-Tesão? Não se ache tanto. Não é porque a gente tem química em cena que significa alguma coisa fora dela.

-Claro que não.. -Clara murmurou, se inclinando, a voz roçando no pescoço de S/n. -Só que você me olha como quem quer me beijar e bater ao mesmo tempo.

S/n finalmente se virou, encarando-a de perto. Perto demais.

-Talvez eu queira.

Por um instante, o ar pareceu rarefeito. Clara mordeu o lábio inferior, quase surpresa com a ousadia. Mas não recuou. Pelo contrário.

-Se quiser bater, entra na fila. Se quiser beijar.. -Ela deu um passo pra trás, com aquele sorriso que irritava e excitava na mesma proporção.. -Vai ter que merecer.

E saiu do camarim, deixando o cheiro doce e a tensão no ar como uma maldição.

S/n respirou fundo. Aquilo ia dar merda. Ou ia dar muito certo.

Talvez os dois. E ela não via a hora de descobrir.

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Pov S/n Smith

**Ela saiu me deixando com o coração na garganta e as mãos fechadas em punho. Clara Galle.

Não sei quando essa rivalidade virou algo que me fazia perder o foco. No começo, era irritante mesmo — o jeito que ela sempre queria ser o centro da cena, que olhava com superioridade, como se tudo nela fosse mais. Mas com o tempo.. isso começou a me atingir de outra forma. Quando ela me encarava demais. Quando se aproximava demais. Quando falava baixo demais.

E o problema é que ela sabe.

Ela sabe que me tira do eixo. E agora faz de propósito.

Terminei de me arrumar sem conseguir tirar a sensação da pele. A voz dela ainda morava no meu pescoço. "Você me olha como quem quer me beijar e bater ao mesmo tempo." Aquilo soava mais verdade do que eu estava pronta pra admitir.

No set, a cena era tensa. Nós duas em pé, frente a frente, personagem contra personagem, e o diretor pedindo mais intensidade. Mais raiva. Mais energia.

Mal sabia ele que aquilo não precisava ser fingido.

-Você não manda em mim! -Gritei, no personagem.

𝕴𝖒𝖆𝖌𝖎𝖓𝖊𝖘 𝖌𝖎𝖗𝖑𝖘 ➀Onde histórias criam vida. Descubra agora