14 - Níveis, Procrastinação e Camisas

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A cada dia que passava, mais eu me sentia como se estivesse em um jogo de vídeo game e estivesse avançando de nível. Só que sem a satisfação de vencer aquela fase difícil, só mesmo a noção de que passou para uma fase ainda mais difícil. Era isso que eu sentia em relação ao trabalho no palácio. E, ok, eu devia ficar feliz ou sei lá o quê por aparentemente ter "dominado" as primeiras tarefas que a Cecília me designou. Mas a verdade era que eu estava mais para desesperada com as novas tarefas que ela estava me dando.

E não é como se eu pudesse dizer que o meu trabalho como espiã estivesse dando resultado, no fim das contas. Eu não tinha descoberto nada ainda, além de que eu era a pior versão de James Bond que já existira.

Pode me julgar, mas depois que eu já tinha aprendido a limpar as janelas e os tapetes e lustrar os móveis, eu só pude me sentir completamente apavorada quando vi na minha lista de tarefas daquele dia a seguinte sentença: "passar as roupas". Eu devia ter treinado como a Felícia, a minha guarda-costas, treinou para conseguir assumir esse cargo — tipo, ela foi militar e tudo mais antes de ser segurança. Eram pouquíssimos os caras na mesma função que eu ali, mas guardas tinha um monte. Eu aposto que era porque, assim como a minha mãe, as mães das garotas achavam que treinar algum tipo de arte marcial não era uma atividade muito feminina.

Porque, veja bem, parecia interessante como os guardas do palácio pareciam ficar apenas parados pelos corredores com cara de estátua. Ok, eu sei que eu devia estar sendo injusta, eles não deviam ser apenas estátuas.

Sério, eu só devo ter surtado brevemente com esse lance todo. Isso porque as roupas em questão não eram os uniformes dos funcionários ou algo assim — para isso, nós tínhamos uma lavanderia e cada um cuidava da sua própria vestimenta. Ah, não. As roupas as quais ela se referia eram as do príncipe.

Tipo assim, eu achei que já tinha dado provas suficientes da minha total falta de habilidade. Por que raios a Cecília achava que eu seria capaz de lidar com aqueles ternos, camisas e gravatas elegantes que ele usava? Não tinha a menor chance de que isso terminasse bem. 

— Não faça tanto drama, Sarah. — Ela tentou disfarçar o sorriso para que o que dizia soasse mais sincero. — Pelo menos, são poucas as roupas. Juro. Não é muita coisa.

Dei um suspiro frustrado.

Exceto quando se tratava de ter que comparecer a algum daqueles eventos enfadonhos que eu era obrigada, eu não costumava ter problemas de procrastinação. Sério. Até mesmo os meus trabalhos da escola eram sempre começados com antecedência e entregues na data sem dificuldade. Mas, me deixe dizer, desde que eu tinha começado a trabalhar no palácio, parecia que toda a minha organização fora sugada por uma fenda espacial ou qualquer coisa assim e nunca mais tinha sido vista.

O que eu quero dizer, é que tinha enrolado tanto, mas tanto com aquele negócio de passar roupa que acabei não tendo temo nem de começar. Isso porque eu tinha empurrado a missão para o fim da fila. E basicamente fiquei fugindo o dia todo como se ela fosse o Lorde das Trevas. Era quase tão amedrontador quanto apresentar um trabalho na frente da sala.

E já que eu tinha perdido completamente a hora e acabado meu expediente, pensei seriamente em deixar para lá. E, tipo assim, a Cecília nem perguntou nada. Só que, claro, como sou detentora de um PhD em ser trouxa, comecei a me sentir meio... culpada. Ok, a Cecília podia não ser a próxima Miss Simpatia, mas ela estava sendo legal comigo — na medida do possível — e eu estava, você sabe, pisando na bola com ela.

Além do mais, e se o príncipe Christopher precisasse das roupas, tipo, urgente? Bem, não é como se eu soubesse como estava o guarda-roupa dele. Talvez fosse pouco provável que ele não tivesse nada para vestir. Sendo príncipe e tal, ele devia ter roupas o bastante para não precisar contar com as roupas da lavanderia, mas nunca se sabe. Eu não queria ver o príncipe andando pelado por aí por minha culpa — embora, pensando bem, não devia ser uma visão ruim...

O lance é que depois do jantar, eu decidi fazer isso. Passar as roupas, eu quero dizer. Eu até poderia ter deixado para o dia seguinte, claro. Mas era minha folga e, sinceramente, eu não planejava acordar mais cedo para trabalhar. Sem falar que a Cecília não precisava saber e, naquele horário, as chances de ela estar zanzando pela lavanderia eram muito pequenas. Ou seja, era o melhor horário para eu agir.

Certo, eu levei quase quinze minutos só para conseguir ajustar a altura da tábua de passar — não que a tábua fosse muito tecnológica, eu que era muito incompetente mesmo.

As roupas da família real eram lavadas e passadas em uma lavanderia pequena, só com dois pares de lavadoras e secadoras industriais de primeira linha, um punhado de cabides pendurados em araras no canto e uma prateleira com uma pilha de roupa de cama — que eu não fazia ideia se deveria ser passada também ou não. Tudo de aço inox.

Depois de uma década mais ou menos — ou pelo menos foi o que pareceu para mim — entendi como funcionava o ferro. E, por via das dúvidas, eu comecei a passar pela famigerada roupa de cama — lençóis e fronhas brancos, nada demais —, porque se desse errado, como eu achava que daria, era preferível que a cama do príncipe ficasse digna de posar para a Playboy do que o próprio príncipe.

Olha, não vou mentir, estava ficando tudo uma porcaria, porque lençóis de elástico não foram feitos para serem passados — ou dobrados —, na minha opinião. E a minha vontade depois do terceiro era de jogar todos pela janela. Entretanto, as coisas não melhoraram exatamente quando eu passei para as calças e camisas. E, para acabar de piorar, quando eu estava usando toda a minha habilidade — não que fosse grande coisa a minha habilidade, de qualquer forma — na tentativa de passar uma camisa branca de linho com uns bordados em relevo e tal, a Isadora apareceu à porta.

Claro que a gente sempre pode contar com a aparição da encarnação do mal em forma de gente para terminar de estragar tudo.

Parei o que estava fazendo e a encarei. Ela apenas ficou onde estava, com um sorrisinho antipático estampado no rosto.

— Não conseguiu dar conta do seu trabalho durante o dia? — Ela perguntou, enfim.

— Acho que isso não lhe diz respeito — respondi, aborrecida. — O que você quer aqui?

— Nossa! Por que essa grosseria? Eu só fui buscar minha roupa na lavanderia. — Ela não estava realmente ofendida e, de fato, estava com uma pilha do que devia ser sua própria roupa nos braços. — A Cecília sabe que você está fazendo isso agora?

— Ela não se incomoda — menti; na verdade, eu não fazia ideia se a Cecília se incomodava ou não.

A Isadora apontou para a tábua de passar à minha frente. Olhei para baixo e tenho certeza que minha alma saiu do meu corpo naquele momento. Isso porque eu havia descansado o ferro quente em cima da camisa durante todo aquele tempo e agora uma fumaça começava a escapar do local. Levantei o ferro na mesma hora e pude comprovar o que temia... A camisa branca agora possuía uma mancha marrom no formato exato do ferro de passar. Eu tinha queimado a camisa do príncipe!

— Talvez você goste de saber — a Isadora continuou, sem esconder um sorriso diante da minha expressão estarrecida — que essa era a camisa preferida do príncipe.

— Não! — Praticamente gemi.

— Sim.

Com um riso divertido, ela saiu da porta e começou a se afastar pelo corredor. Tomada pelo desespero, coloquei o ferro de lado e levantei a camisa para avaliar melhor o estrago. Cara, não havia a menor chance de salvar aquela roupa. Eu tinha queimado a camisa preferida do príncipe! Sério, a única coisa que eu queria fazer naquele momento era cair de joelhos e gritar do jeito mais dramático que fosse possível.

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Oi

O próximo capítulo, que é a continuação direta desse, sai ainda essa semana, se tudo der certo. E, se posso dar uma dica, talvez seja interessante se alguém aqui gosta do Christopher ;)

Bj

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