09 - Beatrice

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Já era quase noite e a floresta inundava-se de reflexos cor-de-laranja e sombras alongadas.
Ao longo da tarde, já tinha lido dois dos livros que comprara nessa manhã, mas não encontrara nada de especial.
Agora, ali deitada a observar a floresta através das grandes vidraças, pensava numa forma mais eficaz de obter informações relevantes.
Pouco depois de acabar de almoçar, recebera uma mensagem do meu irmão a avisar que só acabaria o seu turno na manhã seguinte, pelo que eu iria ficar novamente sozinha em casa durante toda a noite. Levantei-me e saí do quarto, descendo as escadas e dirigindo-me à biblioteca num passo cauteloso. A casa estava mergulhada num silêncio profundo; os únicos ruídos eram o da minha respiração ofegante e o do vento que soprava lá fora.
Acendi a luz da biblioteca. Iluminada, não parecia tão assustadora e misteriosa.
Caminhei apressadamente para a estante do fundo, cujo armário guardava o cofre.
Tenho de conseguir abri-lo...
Aproximei-me do mini teclado que lembrava uma calculadora, com os números bem visíveis. O pequeno ecrã estava vazio, esperando que eu digitasse os quatro números.
Suspirei. Bela maneira de passar a noite de sábado, refilou o meu subconsciente. Mas tinha de ser. Tinha de haver alguma maneira de eu descobrir o código...

*

O despertador tocou às sete em ponto, mas eu já estava acordada. Para dizer a verdade, tinha passado a noite toda em claro, às voltas na cama, pensando sempre no mesmo: a caixa desaparecera.
No dia anterior, passara a tarde de domingo com o meu irmão, a ver uma série de filmes que passavam na televisão e, à noite, quando ele voltou para o hospital, decidi ir até à biblioteca. Depois de ficar imenso tempo a observar o cofre, lembrara-me de voltar ao quarto do meu irmão, na esperança de encontrar mais qualquer coisa na caixa das recordações. Mas, quando espreitei para baixo da cama de Alonso, a caixa tinha desaparecido, não estava lá.
Era a minha última hipótese de descobrir mais qualquer coisa... Suspirei, antes de me levantar.

*

Percorri os corredores todos, procurando ansiosamente a Alexa. Não a encontrei.
A manhã decorreu lentamente e eu só pensava em como a maldita caixa desaparecera. Só havia uma explicação: Alonso decidira esconder melhor a caixa. Mas porquê? Que segredo tão horrível é que ele fazia questão de me esconder a todo o custo? Confrontá-lo com o que estaria a acontecer era uma boa solução, mas e se ele me tentasse dar a volta e acabasse por não me contar nada?
E Alexa? Porque é que ela faltara às aulas? Eu estava seriamente preocupada com ela, o seu comportamento assustava-me. Bem pensei em arranjar alguma forma de saber o que se passava, para poder ficar mais descansada, mas depressa me lembrei de que não havia forma de o fazer. Tanto quanto sabia, Alexa não tinha família. Nunca conheceu o pai e a mãe abandonou-a quando ela era bebé. Foi criada pelo avô, que morreu há pouco mais de dois anos, pouco depois de Alexa completar 18 anos. Alexa mudou-se para esta cidade e desde então que vive sozinha. Se lhe acontecesse alguma coisa, quem a poderia ajudar?
Tentei controlar o medo que me assombrava, mas em vão. Não me conseguia abstrair.

- Não pareces nada bem...

Levantei o olhar, encontrando Lorenzo em pé, junto à mesa, olhando-me com preocupação.
Em toda a manhã não me tinha lembrado uma única vez de Lorenzo e da irmã; nem se quer os tinha visto.

- Estou só preocupada com umas coisas – respondi vagamente, continuando a rabiscar numa folha do meu caderno.

Lorenzo nada disse e sentou-se ao meu lado, mesmo antes do professor de História entrar na sala, seguido por alguns alunos.
Durante o resto da aula mantivemo-nos em silêncio; um silêncio constrangedor. Ele parecia saber o que me preocupava; ele parecia saber sempre mais do que aquilo que mostrava saber, o que me irritava. Parecia que estava constantemente a esconder-me coisas.
Passei a hora seguinte a debater-me com a enorme vontade de o bombardear com perguntas.
Felizmente, o professor decidira deixar-nos sair meia hora mais cedo. Arrumei as minhas coisas rapidamente e precipitei-me para a saída.

- Bea! – ele chamou-me, parecendo preocupado, ou assustado.

Parei no meio do corredor, esperando que ele saísse da sala. Assim que chegou ao pé de mim, olhou-me com cautela.

- Não me queres contar o que aconteceu? – perguntou, levantando a mão direita, num gesto meigo.

Respirei fundo, acalmando o meu coração. Gostava de falar com ele, mas não sabia bem o que havia de dizer. Ainda tinha de arrumar as minhas ideias.

- Não te preocupes, está tudo bem – tentei sorrir.

Ele assentiu e deu um passo na minha direção.

- Vais almoçar já? – perguntou – É que se fores eu posso fazer-te companhia, também vou para o refeitório.

- Sim, temos de aproveitar que ainda não deu o toque de saída para não apanharmos muita confusão – concordei, grata por ele não ter feito mais perguntas a respeito do que se passava.

*

Tínhamo-nos sentado numa das mesas mais afastadas, num dos cantos do refeitório. Não esperei que ele metesse conversa comigo e comecei a comer, lembrando-me de que não tinha tomado o pequeno-almoço e estava cheia de fome.

- A minha irmã contou-me que te viu no sábado – disse ele, alguns minutos depois, interrompendo o silêncio.

Tinha tocado há poucos minutos e já começavam a chegar alguns grupos de alunos.

- Pois, estava farta de estar em casa e decidi ir apanhar ar – disse, sem levantar o olhar do meu prato, vindo-me à memória os estranhos acontecimentos que giravam à volta de Sandra.

Segundos depois, Lorenzo endireitou-se e olhou por cima do ombro, parecendo estar à espera de algo.
Olhei na direção da entrada do refeitório mas não vi nada de especial. Ele, ao aperceber-se da minha atenção, voltou a olhar para o seu tabuleiro. O meu olhar fugiu novamente para a porta, por onde vi entrar os irmãos de Lorenzo. Federico e Sandra olharam-nos atentamente antes de se meterem na fila ao balcão.

- O Rodrigo não veio hoje às aulas? – perguntei, notando a ausência do rapaz loiro.

- Não – respondeu enquanto brincava com uma maçã.

Como não disse mais nada, deduzi que não quisesse falar no assunto.
Assim, eram já duas ausências: Alexa e Rodrigo. E, sem saber porquê, tive a sensação de que ambos os desaparecimentos estavam ligados.
Duas raparigas, ao sentarem-se numa mesa próxima da nossa, lançaram-nos olhares admirados e invejosos, e só aí é que me apercebi que, pelos vistos, eu ainda continuava a ser alvo de curiosidade e mexericos.

- Há de passar, as pessoas vão habituar-se, mais tarde ou mais cedo – comentou ele, como se me tivesse lido os pensamentos.

Envergonhada, baixei o olhar, fixando a mesa. Estavamos há mais de meia hora ali sentados, eu já tinha acabado de almoçar enquanto que Lorenzo ainda não tocara na comida.

a herdeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora