Apercebi-me de que algo estava errado quando senti que ele ficara distante. Interrompi o beijo e foi então que lhe vi as presas pela primeira vez. Nunca antes tinha visto um vampiro transformado e confesso que metia medo.
Os seus olhos, de um vermelho muito vivo, pareciam os olhos de um demónio dos livros infantis.
Senti um arrepio a percorrer-me o corpo todo quando o chamei e ele me olhou com um ar confuso, perturbado. Mas não me afastei dele, mesmo que isso fosse pura inconsciência da minha parte.
Não sei quanto tempo passou, estava demasiado encantada e assustada a olhar para ele. Vi-o no seu pior e mesmo assim continuei a achá-lo incrível.
- Está tudo bem... - murmurei, passando suavemente a minha mão pelo rosto dele, admirando cada traço.
Ele olhou-me nos olhos com um olhar profundo, talvez à procura de força. Foi então que, aos poucos, vi as presas diminuírem até voltarem a ser os normais dentes caninos.
Os seus olhos, ainda vermelhos, pareciam agradecidos e ao mesmo tempo culpados.
Dei-lhe a mão e levei-o até às escadas, onde nos sentámos.
- Desculpa... - murmurou ele, com os olhos pregados ao chão e as mãos a agarrarem com força a borda da escada onde se sentara.
A minha mão, pousada na dele, ali permaneceu. Quis de alguma maneira transmitir-lhe calma através do meu toque, para que ele percebesse que eu não tinha medo dele e que estava realmente tudo bem.
Algum tempo depois, os seus olhos voltaram ao normal. Só então é que ele se acalmou realmente.
- Desculpa... - murmurou novamente. Senti uma enorme culpa na voz dele.
- Está tudo bem, não te preocupes - disse-lhe, custando-me vê-lo assim.
Ele não tinha culpa. Fui eu que o beijei, Lorenzo não tinha culpa de ser vampiro e de se descontrolar facilmente.
Ficámos mais algum tempo em silêncio e eu acabei por pousar a cabeça no ombro dele.
- Porque é que me beijaste? - perguntou ele em voz baixa, num tom meigo.
Levantei a cabeça, olhando-o nos olhos.
- Porque percebi que não quero estar longe de ti... Desculpa ter fugido ao assunto, há bocado... não tive coragem para falar, acho eu. Mas depois foste embora e eu caí em mim, percebi que independentemente do futuro eu quero estar contigo...
Ele assentiu, desviando o olhar, mas pareceu estar triste.
- Tu sabes o que sou... viste o que aconteceu - disse ele - Não é seguro estares comigo...
- Lorenzo - disse, fazendo-o olhar para mim - Eu nunca me senti tão segura como quando estou contigo. Não te culpes por te teres descontrolado, não tens culpa de ser assim...
- Mas tu não estás em segurança comigo! Basta eu descontrolar-me e posso matar-te! - assustei-me com o tom de voz dele.
Estava zangado, frustrado, assustado, revoltado... O meu coração acelerou ao ver a dor nos olhos dele.
Eu tinha consciência do que tinha acabado de acontecer, sabia bem o que ele era e o que era capaz de fazer. Mas não conseguia aceitar que ele desistisse. Eu não queria desistir. Eu tinha arranjado coragem para lhe admitir o que sentia, tinha decidido confiar nele, dar-lhe uma oportunidade. Eu não queria desistir dele. Já estava demasiado envolvida no mundo dele, já estava demasiado próxima dele, eu gostava dele. Não conseguia afastar-me agora. E não o ia deixar só porque tínhamos aquela barreira a separar-nos. Eu ia estar com ele, no bem e no mal, tal como ele fizera comigo.
Dei-lhe a mão.
- Eu confio em ti - disse com uma voz decidida - Eu gosto de ti e não me vou afastar de ti só por causa do que tu és.
Ele abanou a cabeça, frustrado.
- Não devias confiar em mim... eu quase te matei...
- Mas não me mataste. Tiveste força suficiente para não o fazer. Isso só prova que, com algum tempo e esforço consegues ganhar mais autocontrolo.
- Achas? - ele pareceu ceder.
- Acho - respondi, segura do que dizia. Eu não estava disposta a deixá-lo desistir.
Um pequenino sorriso surgiu no seu rosto e apertou-me levemente a mão.
Nesse exato momento, ouvimos um motor aproximar-se. O carro de Alonso aproximou-se e parou a uns metros de nós. Alonso saiu do carro com cara de poucos amigos.
Larguei imediatamente a mão de Lorenzo e levantei-me.
- Já estás em casa? - perguntei tentando disfarçar ao máximo o meu nervosismo.
Não estava à espera que ele chegasse tão cedo. Alonso tinha-me ligado a dizer que vinha tarde, a pedir para esperar por ele. Porque é que apareceu tão cedo?
Alonso, por seu lado, observou insistentemente Lorenzo, que entretanto se levantara também.
Ao meu lado, Lorenzo ficara tenso. Como se se tivesse apercebido de algo que o incomodara, que o deixara alerta.
- É, troquei de turno com um colega para poder vir mais cedo para casa, eu liguei-te para avisar mas tu não atendeste - explicou ele, sem tirar os olhos de Lorenzo, enquanto eu me apercebia de que tinha deixado o telemóvel no quarto - Quem é o teu amigo?
Respirei fundo - É o Lorenzo.
Pelo canto do olho vi Lorenzo sorrir-lhe. Não esperei nenhum aperto de mão, sabia que Lorenzo não o ia fazer para não dar nas vistas, pelo menos não por enquanto. Mas a julgar pelo olhar que Alonso lhe mandava, percebi que o meu irmão já percebera que algo se passava.
- És um dos filhos do doutor Bartori? - a pergunta inesperada de Alonso fez-nos trocar um olhar preocupado.
- Hm sim... como é que...
- Como é que sei? - Alonso sorriu, como se a resposta fosse óbvia. Mas não respondeu. Fechou o carro e subiu os pequenos degraus em direção à porta de entrada - Bea, precisamos de falar, não te demores a vir para casa.
Quando entrou em casa e ficámos os dois ali sozinhos, engoli em seco, sentindo um peso enorme no peito.
- Achas que ele sabe...
- Provavelmente - respondi ainda antes de ele acabar a pergunta.
- Acho melhor ir embora... - disse Lorenzo, olhando-me nos olhos.
Assenti com um aceno de cabeça e ele aproximou-se de mim, dando-me um beijo.
- Obrigado... - murmurou ele muito perto do meu rosto.
Limitei-me a sorrir e ele afastou-se, lançando um último olhar à casa, preocupado, e seguiu pela estrada de terra em direção à estrada norte da cidade.
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a herdeira
Vampiro(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
