Sabia que o meu irmão não tinha dito aquilo para magoar a Bea, apenas porque estava preocupado connosco, e notei o medo no seu olhar. E o que mais me incomodara foi o medo que ele passou para a Bea. Não conseguia perceber o que é que ela estava a pensar concretamente e isso preocupou-me.
Mas depressa percebi que ela esquecera a conversa de Federico quando entrámos na escola. Não foi muito difícil saber em que é que ela estava a pensar, eu sabia que naqueles últimos dias ela tinha andado preocupada com Alexa.
- Ela não vem hoje.
- Como sabes? – ela parecia perturbada.
- Porque é óbvio que estavas a pensar nela, ficaste com uma expressão preocupada – sorri, sem perceber o verdadeiro sentido da pergunta.
- Não, não é isso... - abanou a cabeça levemente – Como é que sabes que ela não vem hoje?
O meu olhar perdeu-se algures atrás dela, sem saber como me havia de esquivar das explicações.
- Lorenzo... Como é que sabes? – insistiu.
Abanei a cabeça e olhei discretamente em volta, verificando que não estava ninguém a ouvir-nos.
- Falamos depois.
No fundo esperava que a manhã preenchida com aulas fosse o suficiente para que ela se esquecesse daquele assunto, mas isso não aconteceu.
Quando deu o último toque da manhã, saí disparado da sala de aula tentando fugir dela para evitar perguntas, mas não consegui. Ela conseguiu ser rápida e apanhou-me no parque de estacionamento.
- Não estás a tentar fugir à conversa, pois não? – senti o toque quente da mão dela no meu braço.
- Não... só acho que não devíamos falar já – disse sem a encarar.
- Eu já percebi que me estás a esconder alguma coisa. Pensei que não íamos ter mais segredos um com o outro... - Bea parecia desiludida.
Suspirei, olhando-a finalmente nos olhos. Não a queria magoar nem desiludir, simplesmente não sabia como lhe contar a verdade, até porque Alexa me pedira para ser ela a falar com Bea. Mas eu também não a conseguia ver assim, triste e preocupada, e não conseguia mentir-lhe.
- Eu não te posso contar, prometi que não o fazia... - comecei – Mas posso levar-te a falar com a Alexa.
Beatrice arregalou os olhos, num misto de emoções. O seu rosto permaneceu sereno e intocável, mas pude ouvir o seu coração a acelerar.
- Vais almoçar a casa? – perguntei, olhando em volta.
- Sim – disse, acompanhando a resposta com um gesto de cabeça.
- O teu irmão está em casa?
Bea olhou para o seu relógio de pulso por breves segundos – Sim, deve estar.
- Então vai almoçar, e quando estiveres despachada manda-me mensagem e eu vou ter contigo.
Ela assentiu e eu pude perceber uma certa indecisão da parte dela no momento em que se despediu de mim. Pareceu-me que ela me ia dar um beijo na face mas acabou por me dar um curto abraço e afastou-se, na direção do seu Range Rover preto.
Respirei fundo e fui ter com Federico, que se encontrava encostado ao nosso carro.
- A Sandra? – perguntei.
- Ainda não a vi hoje – disse ele – Acho que andou a evitar-nos.
Revirei os olhos e abri a porta do lado do condutor.
*
O meu telemóvel deu sinal de mensagem e eu tirei-o do bolso desajeitadamente. O nome de Beatrice apareceu no ecrã.
Já estou pronta, podes vir, (o meu irmão ainda está em casa). Até já.
Levantei-me, vesti o casaco e saí do quarto à velocidade da luz. Não tencionava parar até chegar a casa de Bea, mas assim que passei pela sala Milena chamou-me.
- Onde vais? – quis saber.
- Vou buscar a Bea.
Milena levantou-se com uma expressão de horror estampada no rosto.
- Vais trazer a rapariga cá a casa?! – pude ouvir a voz de Sandra no andar de cima, também ela chocada.
Segundos depois ela entrou na sala, ficando também ela a olhar para mim pedindo explicações.
- Sim, a Bea vem cá falar com a Alexa. E poupem-me os sermões, John sabe e autorizou.
E, dizendo aquilo, saí de casa. Corri pela floresta com o sol no seu ponto alto, refletindo por entre os ramos grandes das árvores.
Cheguei às redondezas da casa de Bea e verifiquei que o carro de Alonso ainda estava parado em frente à porta de entrada. O carro de Bea estava em frente à garagem, longe do campo de visão que se tinha desde o interior da casa através das vidraças. Peguei no meu telemóvel e abri a caixa de mensagens da Bea.
Estou ao pé do teu carro, podes vir.
Depois de enviar a mensagem corri para junto do Range Rover, sempre escondido pelas árvores. Só parei ao lado do carro e esperei pacientemente por ela.
Ela apareceu cá fora uns minutos depois e veio abraçar-me timidamente.
- Onde vamos? – perguntou enquanto abria o carro.
- Vamos a minha casa.
Sentia-a a paralisar. Notei uma certa desconfiança e receio no olhar dela.
- Não te preocupes, está tudo bem – pousei a minha mão na dela numa tentativa de lhe transmitir confiança – A Alexa está em minha casa.
- Porquê? – perguntou, confusa.
- Desculpa, não sou a pessoa indicada para te falar do assunto... - encolhi os ombros – Prometi-lhe que não te contava nada.
- Mas é assim tão mau?
Refleti por alguns segundos – Depende da perspetiva.
Ela revirou os olhos, percebendo que eu não lhe ia contar mesmo nada e ligou o carro, fazendo marcha atrás para entrar na estrada de terra batida.
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a herdeira
Vampire(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
