Entrei de rompante em casa, apressado e super nervoso. Não estava ninguém na sala mas conseguia ouvir os passos acelerados e irritados de John no andar de cima e os gritos de Sandra a ecoarem pela casa.
Subi as escadas num instante e fui encontrar Sandra deitada na marquesa do pequeno consultório, a gritar de dores, com os olhos de um vermelho cor de sangue e as presas afiadas. Ao aproximar-me pude ver a enorme mancha de sangue na sua blusa e o estado lastimável dela, despenteada, suja de terra e com ervas presas às roupas.
- Finalmente! - gritou John entrando no consultório - Onde andaste?!
Engoli em seco, sentindo o tom autoritário.
- Em casa da Bea...
- Tens noção que te procurámos por todo o lado?! Estavamos preocupados contigo! - gritou por sua vez Rodrigo, que estava sentado ao lado da irmã enquanto lhe agarrava com força num dos braços.
- Desculpem, mas podiam ter ligado logo! - defendi-me - Eu não sabia o que tinha acontecido!
De certo modo eu tinha razão e fez com que John se acalmasse um pouco, percebendo que o erro também tinha sido deles.
- Podiam parar de discutir? Temos de cuidar da Sandra, ela está a sofrer e vocês só sabem discutir por coisas que neste momento não têm importância! - refilou Milena, com os olhos encharcados em sangue - O Lorenzo está bem portanto concentrem-se no que realmente interessa!
As suas palavras surtiram um certo efeito em John, que não disse mais nada e foi até às vitrinas buscar os curativos, ordenando a Milena que fosse às arcas frigoríficas buscar um saco de sangue humano.
- Mas afinal o que é que aconteceu?! - perguntei, sentindo-me ignorante e impotente naquela situação.
Fiquei mais stressado quando os minutos foram passando e no consultório ninguém reagia à minha pergunta. Sandra continuava a contorcer-se com dores e John arrancara-lhe a camisola, deixando à vista vários ferimentos de bala, fazendo-me encolher. Conseguia sentir o sofrimento de Sandra e eu próprio me sentia inquieto e preocupado com o estado dela.
Milena regressara com dois sacos de sangue e pousara-os na bancada.
- Alguém me pode explicar o que aconteceu?! - insisti, mas fui novamente ignorado.
Começava já a sentir-me irritado, sem perceber por que é que ninguém me dizia o que se tinha passado.
Quando percebi que os três não precisavam de ajuda, saí do consultório à velocidade da luz e fui fechar-me no meu quarto, tentando controlar a raiva.
A minha irmã tinha sido brutalmente atacada com armas de prata e ninguém naquela casa me contava o que lhe tinha acontecido, quem o fez ou como. Eu queria ajudar mas não sabia como, aparentemente ninguém queria a minha ajuda, e isso revoltava-me.
Bateram à porta e eu, chateado, ignorei.
Voltaram a bater.
Deitei-me no divã e fechei os olhos.
A porta abriu-se e Alexa entrou no meu quarto sem dizer uma palavra. Fechou a porta e sentou-se no cadeirão junto às vidraças.
Suspirei e abri os olhos.
- O que é que queres? - perguntei com uma voz bruta.
- Ela foi atacada enquanto andava a caçar com o Rodrigo... - disse.
Endireitei-me, ficando sentado, e olhei-a nos olhos, esperando que ela continuasse.
- O Rodrigo conseguiu escapar porque a Sandra atraiu o caçador. Acabou naquele estado... e o Rodrigo lá conseguiu trazê-la para casa sem serem seguidos.
- O Rodrigo viu-lhe a cara? - quis saber, na esperança que fosse desta que conseguíssemos descobrir quem é que nos andava a caçar.
- Não... quero dizer, mais ou menos. Não lhe viu a cara mas viu que não é bem quem nós pensávamos...
- Como assim? - eu não estava a acompanhar o raciocínio dela.
- Não é um caçador... mas sim uma caçadora.
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a herdeira
Vampiros(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
