Vi Bea a guardar a foto dentro da caixa, voltando a pô-la no seu lugar.
Sentia-me curioso em relação àquele caderno onde ela escrevera. Na verdade, eu sentia-me curioso em relação a ela. Sentia a necessidade de saber tudo sobre ela.
Quando ela saiu do quarto, ouvi-a descer as escadas até ao rés-do-chão. Aproximei-me da porta envidraçada que ligava o seu quarto ao enorme terraço, onde eu me encontrava. Levei a mão ao puxador e apercebi-me de que a porta não estava trancada. Abri a porta e entrei no seu quarto.
Era um espaço enorme mas agradável. A parede virada para sul era toda envidraçada, onde encostava um armário horizontal e baixinho, do mesmo comprimento da parede e que de altura só chegava aos meus joelhos, cujas prateleiras estavam todas preenchidas por livros. Encostada à porta do terraço, estava uma mesa espaçosa, de vidro também, onde estavam pousados várias folhas de diversos tamanhos. Quando as observei melhor, vi que algumas estavam em branco e outras tinham alguns desenhos. Também se encontravam por ali alguns materiais de desenho e pintura, como pincéis, lápis, borrachas.
A porta de entrada do quarto estava na parede em frente do terraço. Na outra parede estava encostada a sua cama, de um tamanho médio, com uma mesa-de-cabeceira de cada lado. À esquerda da cama, encostado à parede que dava para o terraço, estava um armário de duas portas, com uma delas aberta, mostrando no seu interior as suas roupas e acessórios. À direita da cama estava um grande espelho retangular com uma moldura branca toda trabalhada com floreados, pousado no chão e encostado à parede. Mesmo ao lado da porta de entrada, do lado da parede envidraçada, estava uma mesinha bastante alta, com um espelho, onde estavam pousadas os produtos de maquilhagem. Na parede onde estava encostada a cama, estava pendurado na parede um armário igual ao que estava encostado à parede envidraçada, cheio de CDs, DVDs, uma aparelhagem, e algumas caixas de arrumação.
Era um espaço acolhedor e luminoso devido a toda a luz que entrava pelas vidraças. E surpreendeu-me as semelhanças entre o seu quarto e o meu.
Ouvi-a a vasculhar os armários do rés-do-chão e fiquei curioso, tentando imaginar o que ela procurava.
Aproximei-me da cama e peguei no caderno, que tinha ficado aberto na página onde ela esteve a escrever. Admirei a sua bonita letra, até perceber que aquilo era um diário. Não tinha a intenção de ler, mas de repente os meus olhos pousaram numa palavra do seu texto. Ou melhor, num nome. Bartori.
Por que razão ela tinha escrito o meu apelido ali?
E, sem pensar, comecei a ler o seu texto. Tentei perceber o que ela escrevia, mas era difícil por não saber exatamente do que ela falava.
Então, começaram a surgir-me dúvidas em que não tinha pensado antes. Porque é que ela veio para Portugal só com o irmão? Onde estaria Camila, a sua irmã? E onde estavam os pais deles? Percebi, através do que ela escrevera, que tinha acontecido algo de muito grave. Mas o quê?
Cheguei à parte em que ela fala de mim. Mais exatamente da minha família. Nunca me passara pela cabeça que lhe tínhamos despertado tanta curiosidade ao ponto de escrever sobre nós no seu diário. E assustou-me o facto de ela achar que se passava algo estranho comigo e com os meus irmãos. Será que ela desconfiava?
Abanei a cabeça, fechando o caderno e tentando afastar a minha enorme vontade de ler o caderno desde o início. É invasão de privacidade, sabes que não podes fazer isso, convenci-me.
Beatrice estava agora no primeiro andar, a vasculhar a sala.
Dei uma volta pelo quarto, observando tudo com muita atenção.
A sua coleção de livros era bastante abrangente, desde clássicos de literatura a ficção científica, romances e policiais, até ficção sobrenatural. Pela quantidade de livros sobre ficção sobrenatural, percebi que ela era uma grande fan desse género literário. Fantasmas, bruxas, lobisomens, até extraterrestres... e vampiros. Muitos livros sobre vampiros. Comecei a sentir uma grande ansiedade dentro de mim.
Afastei-me do armário e fui até à mesa de vidro.
Bea subira agora para o segundo andar e andava a vasculhar os quartos.
Passei os olhos pelas folhas espalhadas na mesa e impressionou-me o seu talento. Ela desenhava mesmo muito bem.
Ouvi-a a aproximar-se do quarto. Em menos de um segundo, escondi-me atrás da porta, com medo que ela ali entrasse. Mas ela passou pelo quarto e subiu as escadas para o andar de cima. Tentou abrir a porta do sótão, mas como estava trancada, voltou para baixo. Desceu as escadas todas e só parou em frente à biblioteca.
Respirei fundo e saí do meu esconderijo, dando uma vista de olhos pelo armário em cima da cama, concluindo que, tal como acontecia com os livros, também na música e no cinema era muito abrangente, tendo DVDs e CDs de diversos géneros. Também concluí que, tal como eu, ela gostava de colecionar, tendo edições raras e de colecionador tanto em livros como na música e no cinema, tendo também algumas séries em formato DVD.
Ao caminhar enquanto observava a sua coleção de música, fui contra a sua cama, que se desviou do sítio. Paralisei, tomando atenção aos movimentos de Bea no andar de baixo. Ela apercebera-se do barulho, mas não se desviou da entrada da porta. Alguns segundos depois, ela entrou na biblioteca. Suspirei novamente e voltei a meter a cama no sítio, sem fazer o menor barulho.
Em cima de uma das mesas-de-cabeceira, estava pousado um livro. Provavelmente o que ela andava a ler ultimamente. Era sobre vampiros. Peguei nele e folheei-o, sorrindo. Aqueles livros podiam aproximar-se da realidade em alguns aspetos, mas mesmo assim apresentavam demasiada imaginação que se afastava da realidade. Voltei a pousá-lo no mesmo sítio e fui sentar-me na cadeira da mesa de vidro.
Mais uma vez deixei-me fascinar pelos seus desenhos. Milena ia adorar ver isto, pensei enquanto via os diversos desenhos.
Enquanto isso, Bea, no andar de baixo, percorria a biblioteca de uma ponta à outra, procurando qualquer coisa que eu ainda não percebera o que era.
Não sei quanto tempo passou desde que me sentara àquela mesa e, provavelmente, acabara por me desligar dos sentidos, pois não me apercebera de que Bea já saíra da biblioteca. Fui sobressaltado com os seus passos em direção ao quarto.
Só tive tempo de pousar o seu diário em cima da mesa e sair pela porta do terraço, que me esquecera de fechar.
Segundos depois ela entrou no quarto. Conseguia ouvir o seu coração acelerado, nervoso. Ela sabia que algo estava errado.
Sem hesitar mais, saltei do terraço para o chão e corri para a floresta sem olhar para trás.
*
Entrei no meu quarto e bati com a porta desnecessariamente. Sentia-me nervoso, como quem sabia que tinha feito algo que não devia e estava com medo de ser apanhado.
Minutos depois, Milena bateu à porta e entrou sem esperar permissão. Veio sentar-se ao meu lado, no divã.
- Onde é que estiveste? - perguntou, passando a sua mão pálida e fria pelo meu cabelo.
- Em casa dela... - murmurei, ainda sentindo o aroma dela no meu nariz.
- O que é que foste lá fazer? - perguntou Milena - Sabes que não devias ter lá ido.
- Sei, mas eu precisava de estar perto dela...
Ela sorriu, compreensiva, mas ao mesmo tempo com uma expressão reprovadora.
- Estás apaixonado - concluiu - Estás apaixonado por uma humana...
- Não sei se estou apaixonado - corrigi, irritado comigo mesmo por não saber o que sentia - Mas desde que a conheci que ela me atrai..., sinto a necessidade de estar perto dela...
O sorriso de Milena não desapareceu.
- Tu ias gostar dela - disse-lhe - Ela também desenha.
- A sério? - notei um certo entusiasmo na sua voz.
- Sim, eu vi os seus desenhos. Ela tem talento - respondi, sorrindo também.
Ao longo da conversa, senti a necessidade de ter um cuidado redobrado com o que dizia sobre Beatrice. Eu sabia que ninguém ia gostar de saber que ela se interessava por vampiros, mesmo que aos olhos dos humanos isso fosse apenas ficção. Supostamente, vampiros não existiam. Mas o facto de eu estar tão próximo dela e ela gostar de ler sobre nós, podia ser perigoso tanto para mim como para a minha família.
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a herdeira
Vampire(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
