- Alguém sabe porque é que a vossa colega Alexandra tem faltado nos últimos dias? – a voz do professor de História ecoou na sala, fazendo com que todos os alunos trocassem olhares.
Gradualmente, todos se voltaram para mim. Senti-me demasiado observada.
Fiz um ar confuso, de quem não sabia o porquê de estarem todos à espera que eu dissesse alguma coisa. O professor de História apercebeu-se e fixou-me.
- Beatrice, sabes da tua colega?
Fixei o meu olhar no professor – Não.
E voltei a concentrar-me no desenho que estava a fazer no meu caderno.
Ao meu lado, Lorenzo estava tão distraído que nem se apercebera do que estava a acontecer.
O resto da aula foi passada a falar de algo sobre as consequências da Segunda Guerra Mundial, mas eu abstraí-me completamente.
Já só voltei à realidade quando o toque da campainha me atordoou. Arrumei rapidamente as minhas coisas e reparei que Lorenzo já não estava sentado ao meu lado. Olhei em volta, atrapalhada, e encontrei-o parado do outro lado da porta da sala, a olhar-me.
Peguei na mala e fui ter com ele.
- Já vais para casa? – perguntou-me em voz baixa.
Confusa, olhei para o meu relógio de pulso. Já era uma da tarde e no entanto eu estava convencida de que ainda tínhamos mais aulas. Respirei de alívio por saber que não precisava de passar nem mais um segundo naquela escola.
- Vou, vou finalmente entrar no sótão – murmurei – Quero inspecionar cada canto e ver o que os meus avós lá guardavam.
- Queres companhia? – percebi que ele tinha hesitado antes de fazer a pergunta.
Sorri, agradecendo-lhe mentalmente por ter oferecido a sua companhia.
- Sim, acho que não consigo fazer isto sozinha...
Ele assentiu e pegou-me na mão, puxando-me para a saída da escola. Reparei nalguns olhares curiosos e intrigados que os outros alunos nos mandavam, mas decidi ignorar. Pelos vistos, era mesmo um escândalo verem um Bartori conviver com pessoas.
Quando entrámos no meu carro decidi perguntar o que já trazia entalado na garganta há algum tempo.
- Quando é que a Alexa e o Rodrigo vão voltar à escola?
Lorenzo olhou-me com o ar de quem não sabia o que responder.
- Talvez em breve. A Alexa tem aprendido tudo muito depressa, talvez daqui a uns dias consiga voltar à vida normal.
- Na aula, quando o professor perguntou pela Alexa, estranhei não ter perguntado também pelo teu irmão...
- No início da aula eu fui ao pé dele dizer-lhe que o Rodrigo estava doente – explicou Lorenzo.
Assenti e olhei pelo espelho retrovisor. Vi Federico e Sandra entrarem no Mercedes preto. Sandra lançou um olhar irritado ao meu carro antes de desaparecer dentro do Mercedes. Senti um arrepio percorrer-me o corpo.
- A Sandra continua a não gostar de nos ver juntos – comentei.
Lorenzo pareceu não ouvir o meu comentário, olhando distraído para as pessoas que passavam em direção ao portão.
*
- Então, o teu irmão reagiu bem à vossa conversa? – perguntou quando me seguia até à biblioteca.
- Sim, acho que ficou tudo... tranquilo. Apesar de eu saber que ele não foi totalmente sincero comigo.
- Como assim? Ele continua a esconder-te coisas?
- Sim. Mas acho que já não tem a ver diretamente comigo. Acho que é sobre ele.
Percebi que Lorenzo ficou ainda mais interessado na conversa.
- Mas o que é que achas que ele não te contou? – perguntou, ficando à porta da biblioteca enquanto eu me dirigia ao cofre.
- Não sei. Mas acho que é algo que ele não tem coragem para contar. Não quis insistir, até porque não me vale de nada ser demasiado impaciente. Percebo que tenha sido um choque demasiado grande para ele ter de me confirmar tudo o que já sabia – suspirei, marcando o código do cofre – Não o quero pressionar, mas com o tempo vou tentar que ele me conte seja o que for que ainda me esteja a esconder.
Lorenzo assentiu e eu tirei do cofre o molho de chaves, voltando a fechar novamente o cofre. Lembrei-me então que, mais tarde ou mais cedo, teria de mudar o código do cofre.
Saí da biblioteca e subimos as escadas até ao sótão.
Abri a porta e, com a lanterna do telemóvel, procurei um interruptor. Quando acendi a luz voltei a guardar o telemóvel no bolso das calças.
Lorenzo entrou à minha frente, desviando a caixa do meu irmão para o lado para a tirar do meio do caminho.
Para minha surpresa e talvez desilusão, não havia nada de mais no sótão. Apenas caixas e caixotes, pó e, para meu agrado, nada de aranhas ou qualquer tipo de bichos. Aliviada, avancei para o centro do sótão, olhando em volta. A divisão pareceu-me demasiado pequena.
Lorenzo também olhava em volta com um ar interrogativo, admirado.
- Não tinhas dito que o sótão ocupava o terceiro andar todo? – perguntou, passando a mão por uma arca de madeira trabalhada.
- Sim... - respondi, percebendo que ele pensava exatamente no mesmo que eu.
Dei a volta ao sótão. Aquele espaço era, definitivamente, mais pequeno do que era suposto.
- Se calhar o sótão é realmente pequeno e tu é que pensaste que seria maior – disse Lorenzo, olhando insistentemente para as paredes.
Já eu, acabara por me concentrar nas imensas caixas que por ali havia. Não havia por ali quase nada de muito importante. Eram essencialmente livros, objetos muito antigos, objetos pessoais sabe-se lá de quem... Surpreendentemente, todas as caixas estavam devidamente identificadas, com datas, nomes, descrições, tornando mais fácil qualquer busca.
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a herdeira
Vampir(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
