Estacionei o carro perto da entrada do edifício principal da escola e deixei-me ficar aconchegada no quentinho, não me apetecia nada sair para o ar gelado da manhã.
Lá fora, grupos de alunos caminhavam lentamente para a entrada, mostrando falta de motivação para mais um dia de aulas. Felizmente para todos, faltavam poucos dias para as férias do Natal e estas últimas aulas não seriam tão pesadas.
Suspirei e peguei na mala, abrindo a porta do carro. Foi uma questão de meio segundo até o frio entrar e acabar com todo o conforto. Saí e tranquei o carro no exato momento em que um Mercedes preto estacionou ao meu lado. Um sorriso involuntário surgiu no meu rosto mas tentei disfarçar.
Do carro saíram Lorenzo e Federico. Reparei na ausência dos gémeos.
Lorenzo veio logo ter comigo enquanto que Federico se deixou ficar encostado ao Mercedes.
- Como estás? – perguntou Lorenzo depois de me cumprimentar com um abraço protetor.
- Ainda um pouco abananada com tudo o que aconteceu, mas bem – suspirei – E tu?
- Também. Imagino que não estejas com vontade nenhuma de ir às aulas... - sorriu levemente enquanto lançava um breve olhar ao edifício da escola.
- Imaginas bem – sorri – Mas sinceramente eu estava a precisar de algo normal na minha vida, para não enlouquecer.
- Eu percebo...
Pelo canto do olho vi que Federico olhava discretamente em volta, observando o ambiente com curiosidade e com algum incómodo também. Sem conter a curiosidade, fiz o mesmo e finalmente reparei nos olhares intrigados e curiosos dos alunos que passavam por ali.
Segundos depois Federico aproximou-se de nós e cumprimentou-me com dois beijinhos.
- Parece que somos novidade agora – brincou ele – Não sei se gosto de ter tantos olhos em cima de nós.
- Eu cá já me começo a habituar – lamentei – Desde o primeiro dia em que pus os pés nesta escola que sou o centro de todas as atenções.
- Isso há de passar – disse Lorenzo, olhando-me nos olhos de uma forma carinhosa – Vão acabar por se habituar a ver-nos juntos.
- Ah – exclamou Federico, revirando os olhos, numa atitude de quem esperava ansiosamente que o irmão dissesse aquilo – Então isto vai tornar-se um hábito? Andarmos com ela como se fosse a coisa mais natural do mundo?
Consegui detetar uma ponta de reprovação na sua voz. O meu coração acelerou e os meus olhos fixaram-se no rosto pálido e sereno de Lorenzo.
- No que depender de mim, sim. Não vejo qual é o problema, podemos ser amigos da Bea, ou não?
Federico suspirou, impaciente – Por mim é tranquilo, eu até gosto de ti – disse ele, desviando o seu olhar para mim por breves segundos – Mas quando isto correr mal, quero ver como é que resolves o problema.
- Não vai nada correr mal – garantiu ele, parecendo muito seguro do que dizia – Está tudo controlado.
De certa forma senti que podia confiar nas suas palavras. Mas ao mesmo tempo pude ver o medo nos olhos de Federico. Percebi então que era a minha vida que estava em risco se eu continuasse a querer conviver com os Bartori. Percebi que, a qualquer momento, esta amizade podia-me sair caro. Mas também percebi que não me queria afastar de Lorenzo, mesmo depois de saber o que ele era na realidade. Percebi que não me podia afastar, não agora. Não sabia bem porquê, mas sentia que não seria capaz de o fazer. E quando Lorenzo me olhou nos olhos, um olhar demorado, eu percebi que ele também não se queria afastar de mim. E senti-me segura.
- Bom, vamos andando? – perguntou Federico quando o silêncio começou a ser constrangedor.
Acenei que sim e ele caminhou à minha frente, apressado. Eu e Lorenzo seguimo-lo em silêncio, caminhando lado a lado próximos o suficiente para que eu conseguisse sentir o seu perfume.
Quando atravessei a porta da escola, o meu pensamento fugiu para outro sítio. Lembrei-me de Alexa e ansiava por vê-la.
- Ela não vem hoje – murmurou Lorenzo, ao meu lado, como se tivesse lido a minha mente, quando parámos à porta da sala onde íamos ter História.
- Como sabes?
- Porque é óbvio que estavas a pensar nela, ficaste com uma expressão preocupada – ele sorriu envergonhado.
- Não, não é isso... - abanei a cabeça levemente – Como é que sabes que ela não vem hoje?
Lorenzo endireitou-se, desviando o olhar para um ponto algures no fundo do corredor. Depressa percebi que ele sabia de algo que ainda não me tinha contado.
- Lorenzo – chamei-lhe de novo a atenção – Como é que sabes? – insisti.
Ele suspirou, olhando em volta. Revirei os olhos e não insisti mais, percebendo que aquele não era o lugar mais apropriado para falar de certas coisas.
- Falamos depois – prometeu.
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a herdeira
Vampire(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
