Eram quase sete horas quando a Bea acordou. Abriu os olhos com dificuldade por causa da luz que entrava pelas janelas e sorriu quando me viu ao seu lado.
- Ainda aqui estás? – perguntou com uma voz sonolenta, passando a mão pelos olhos.
- Claro, por que é que não havia de estar?
- Porque tu não dormes, deve haver coisas mais interessantes para se fazer do que ficares aqui deitado a ver-me dormir – riu.
- Acredita que não trocava isto por nada – sorri, passando carinhosamente o meu dedo indicador pela bochecha dela – Mas agora vou embora, vou deixar-te arranjar para a escola e vou a casa.
Ela assentiu, ainda cheia de sono. Parecia um anjinho.
- Até já – murmurou ela, voltando a fechar os olhos.
Eu sorri e, aproveitando o facto de ela não estar a ver nada, surpreendi-a ao beijá-la.
Quando me afastei, ela sorriu com os olhos brilhantes.
- Até já – disse-lhe e levantei-me.
Quando saí do quarto dela, fechei a porta e percorri o corredor todo até às escadas para o andar de baixo.
Quando cheguei à porta da entrada, fui surpreendido por Alonso, que estava parado à porta da cozinha.
Não fui capaz de dizer nada mas era óbvio que o momento mágico com Bea tinha acabado e que eu acabava de aterrar no mundo real e isso queria dizer que os problemas voltaram todos.
- Bem me pareceu que tinhas ficado cá em casa a noite toda – comentou ele em voz baixa.
Engoli em seco, sem saber bem o que dizer ou fazer. Na verdade, não era mal nenhum, eu e a Bea estavamos juntos e era perfeitamente normal que isso acontecesse. Por outro lado, se ele usasse o argumento de que eu era perigoso, eu teria de usar exatamente o mesmo argumento contra ele. Afinal, era ele quem vivia com Bea e não era menos perigoso que eu.
- Contaste-lhe o que viste ontem à noite? – perguntou ele e eu pude detetar medo na voz dele.
- Não... - respondi, olhando-o nos olhos – Quis fazê-lo, mas não tive coragem... não sabia como dizer-lhe que o irmão dela, que ela conhece desde sempre e em quem confia, é na verdade um lobisomem e inimigo natural do rapaz de quem ela gosta.
Ouvi o coração dele acelerar a partir do segundo em que eu disse a palavra "lobisomem". No mesmo momento ouvi o coração de Bea bater, tranquilo, enquanto fazia a sua rotina matinal.
Sabia que tinha de levar aquela situação com calma, não queria provocar o Alonso nem criar situações complicadas. Bea estava em casa e eu não sabia até que ponto Alonso tinha controlo sobre si mesmo.
- Decidi dar-te uma oportunidade de seres sincero com ela – continuei –Acho que a Bea merece ouvir a verdade da tua boca. Eu já me meti demasiado nos vossos assuntos, desta vez devias ser tu a abrir o jogo com ela, a mostrares que confias nela o suficiente para lhe contares isto.
Alonso pareceu ficar perdido nas minhas palavras.
Sem esperar por uma resposta, decidi mudar de assunto.
- Vou-te ser sincero, não sei se és de confiança. Provavelmente nem devia estar a falar contigo. Mas és irmão da Bea... e por isso quero pedir-te que tenhas cuidado na floresta.
Ele olhou-me com um ar interrogativo, duvidoso.
- Anda alguém a caçar por aqui. Há uns dias o meu irmão Rodrigo foi ferido, uma amiga da Bea foi confundida com um dos nossos e também foi ferida gravemente, tivemos de a transformar para a salvar, e ontem a minha irmã foi ferida também com gravidade. O Rodrigo disse que quem os andava a caçar era uma mulher, ele estava com a Sandra quando tudo aconteceu, ele viu-a mas foi rápido, não a conseguiu ver bem ao ponto de a conseguir descrever.
- Uma mulher? – ele parecia confuso mas sobretudo preocupado.
- Sim. Seja quem for, tens de ter cuidado. Qualquer um de nós pode ser apanhado.
Ele assentiu e eu tomei o aviso como dado. Sem dizer mais nada, abri a porta e saí, fechando-a atrás de mim.
À minha volta, a floresta abria-se fresca e silenciosa.
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a herdeira
Vampir(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
