04 - Beatrice

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Assim que os rugidos cessaram, respirei fundo, olhando com preocupação para a floresta. Algo me dizia que se passava alguma coisa grave, mas não conseguia perceber o quê.
Quando me acalmei, vieram-me à mente aqueles olhos azuis brilhantes e misteriosos. Sentia algo estranho em relação a Lorenzo, como se eu soubesse que ele não estava bem.
É só a tua imaginação a divagar, pensei, abanando a cabeça tentando afastá-lo dos meus pensamentos, tens mais com que te preocupar.
Guardei novamente a fotografia dentro da caixa e a caixa na respetiva prateleira do armário, e saí do quarto, descendo as escadas até ao rés-do-chão. Entrei na sala e abri todas as gavetas e armários que ali haviam, sem saber bem o que procurava.
Como não encontrei nada que me interessasse, vasculhei a cozinha. Nada. Começava a sentir-me cansada, apercebendo-me de que estava a revistar a casa literalmente a correr.
Parei e respirei fundo. Não há necessidade de ter pressa, tens a noite toda.
Subi para o primeiro andar e entrei na segunda sala de estar da casa. Novamente revistei tudo quanto era sítio, mas nada.
Passei pela biblioteca, sem entrar. Sabia que, se lá entrasse, ia acabar por passar o resto da noite lá, a ver os livros. Por isso deixei-a para o fim. Subi as escadas para o segundo andar e revistei os quartos todos que, infelizmente, não tinham nada de especial. Suspirei e subi as escadas para o terceiro andar a passo de caracol. Levei a mão à maçaneta da porta e rodei-a, mas a porta não se abriu. Trancada.
Voltei a descer as escadas e sentei-me no chão, à porta da biblioteca.
A minha investigação tinha sido um falhanço. Já só me restava a biblioteca. E, talvez por ser uma biblioteca, e por conseguinte, biblioteca era sinónimo de muitos livros juntos, surgiu-me uma nova esperança. Talvez encontres na biblioteca aquilo que tanto procuras, pensei enquanto me levantava.
Nesse mesmo momento, um barulho estranho soou no andar de cima, assustando-me. Fiquei à escuta, mas não ouvi mais nada, apenas o vento que soprava lá fora.
Não deve ter sido nada. Entrei na biblioteca. Era realmente um espaço enorme, com as paredes forradas de estantes carregadas de livros, que ocupavam as paredes desde o chão até ao teto. Este era ocupado por umas pinturas, que não observei com muita atenção. Uma mesa com o tampo retangular estava colocada ao centro do espaço, com alguns livros e papéis em branco em cima e três cadeiras à volta. À esquerda da porta, estava uma mesinha redonda, com três pernas muito trabalhadas com floreados, onde estava pousado um globo terrestre.
Dei alguns passos para o interior da biblioteca, olhando em volta com imensa curiosidade. Era a primeira vez que ali entrava.
Tem de haver aqui alguma coisa, o meu subconsciente gritou.
Observei que todas as estantes tinham uma espécie de mini armário junto ao chão. Decidi começar por aí.
A maioria dos armários estavam cheios de objetos de coleção, antigos e valiosos, como rádios super antigos, gira-discos, imensos vinís, uma máquina de escrever, uma máquina de costura, etc.
Mas chamou-me a atenção um dos armários que, em vez de guardar algum objeto, tinha um cofre lá dentro, quase do tamanho do armário. Estava trancado, era necessário um código de quatro dígitos para o abrir.
Mais um sítio fechado.
Dei a volta à biblioteca toda, sem encontrar mais nada que me alertasse.
Dei mais umas voltas pelo espaço, desta vez a observar os livros. Havia de tudo: romances, policiais, terror, ficção científica, sobrenatural, clássicos... Era realmente o paraíso na terra. Acabei por me fartar de procurar algo que pudesse abrir o cofre ou a porta do sótão e saí da biblioteca, subindo as escadas quase a correr e só parando à porta do meu quarto.
Senti-me nervosa quando observei o quarto. Algo estava errado.
Dei alguns passos e apercebi-me de que o diário não estava em cima da cama, onde o tinha deixado. Estava fechado e pousado em cima da secretária.
E a porta de vidro, que dava para um terraço, estava aberta, deixando o frio da noite espalhar-se pelo quarto. E eu não tinha aberto a porta.

a herdeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora