02 - Beatrice

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Assim que tranquei o carro, entrei apressadamente na escola e caminhei para a sala onde iria ter a primeira aula da manhã.
Quando lá cheguei, só estava uma rapariga na sala. Lembrava-me vagamente dela, sabia que se chamava Alexandra. Era uma rapariga alta, de cabelo negro, liso e comprido. Usava maquilhagem carregada e vestia-se de preto.
Ela apercebeu-se da minha chegada mas pouco se importou, continuando a ler um livro que tinha nas mãos.
Senti-me curiosa. Não era costume adolescentes andarem com um livro, muito menos levarem um livro para lerem na escola. Eu fazia isso, eu andava sempre com um livro na mala, para ler nos tempos livres. E senti-me curiosa para saber o que Alexandra estava a ler.

- Posso? - perguntei-lhe, apontando para o lugar vago na sua mesa.

Ela encolheu os ombros, sem desviar os olhos do livro.
Pousei a minha mala em cima da mesa e sentei-me, tirando da mala o livro que comprara no dia anterior e abrindo-o na página em que ficara na noite anterior.
Apenas alguns minutos se passaram quando Alexandra fechou o seu livro e ficou a observar-me.

- O que se passa? - perguntei, meio incomodada com o seu olhar penetrante.

- Gostava de saber o que estás a ler - disse ela de forma direta.

Em vez de lhe responder, mostrei-lhe a capa do livro. Um grande sorriso se formou no seu rosto.

- Conheces? - perguntei, curiosa.

- Sim, já o li - confirmou - É um bom livro. Nunca pensei que gostasses de livros sobre cenas sobrenaturais...

- Sim, adoro ler essas coisas - afirmei, percebendo que afinal nos íamos dar bem.

Eu pouco sabia sobre Alexandra. No dia anterior apenas pude perceber que era uma rapariga super reservada, que não se dava com ninguém.

- Tu és a aluna nova, certo?

- Sim, Beatrice - apresentei-me – Mas trata-me por Bea.

- Eu sou a Alexandra, e podes tratar-me por Alexa - disse - Ouvi dizer que vens de Madrid.

- É verdade, vivi em Madrid desde os 5 anos.

- Está explicado porque é que tens nome italiano. Nasceste em Itália e foste morar para Espanha, não foi?

- Exato, nasci em Livorno. O meu pai arranjou trabalho em Madrid quando eu tinha 5 anos e mudámo-nos para lá - expliquei.

- E porque é que vieste para Portugal agora? - perguntou, um pouco confusa mas não muito curiosa.

Isso era outra coisa que eu apreciava em Alexa. Ela não se importava com o que os outros diziam, faziam ou pensavam. Não tinha a mínima curiosidade sobre a vida dos outros, tal como também não queria que ninguém se metesse na sua vida.

- Assuntos pessoais - limitei-me a responder.

Alexa assentiu. Se fosse outra pessoa, algum dos nossos colegas, por exemplo, teria tentado saber que assuntos seriam esses. Ela não, limitou-se a mudar de assunto.

- Já te ambientaste à escola? Ou seja, já fizeste muitos amigos?

- Não... - respondi, apercebendo-me finalmente de que passara o meu primeiro dia a fugir de toda a gente.

- Não te preocupes com isso. Aliás, é bom que te vás habituando a estar sozinha.

- Porquê?

- Porque, normalmente, os alunos que vêm de fora acabam por ser colocados de parte. São poucos os que conseguem ser reconhecidos e valorizados entre os que são da cidade. A maioria acaba por se isolar dos restantes e não se integrar - explicou - Foi o que aconteceu comigo, com os Bartori e com outros...

a herdeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora