09 - Lorenzo

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Eu conseguia ver na expressão de Bea que ela não estava nada bem, e não era difícil perceber o porquê. Nos últimos dias as suas preocupações centravam-se em Alexa, pois continuava sem receber muitas notícias dela. E eu sabia que Bea continuava a suspeitar de que algo de errado se passava comigo e com os meus irmãos, principalmente depois do encontro com Sandra no sábado.
Quando entrei na sala onde iriamos ter aula de História, tentei perceber o que ela pensava, mas a resposta dela foi muito vaga - Estou só preocupada com umas coisas.
Durante o almoço, preferi não insistir com as perguntas porque tive medo que ela se afastasse. Na verdade, estava feliz por ela ter aceite almoçar comigo, mesmo que isso significasse que eu estivesse a dar demasiado nas vistas.
Quando os meus irmãos entraram no refeitório, senti a tensão no ar. Eles não gostaram de nos ver juntos e Bea reparou na ausência de Rodrigo. Tentei desviar o assunto, mas percebi que ela ficara a pensar no assunto.
Tornava-se cada vez mais difícil esconder a verdade dela e era irritante o facto de ela saber esconder tão bem o que a preocupava, ao ponto de eu não conseguir perceber o que esperar dela.
Eu continuava sem prestar atenção ao meu tabuleiro, apenas mantendo-me a remexer na comida. No momento, não me apercebi que Bea tinha reparado que eu não estava a comer mas, mais tarde, quando nos levantámos para ir embora, apercebi-me de que ela estava incomodada.

- Passa-se alguma coisa? - perguntei, meio confuso.

- Não pude deixar de reparar que não comeste nada... - murmurou ela, sem me olhar, enquanto caminhávamos pelo corredor.

- Não tinha fome - gaguejei, tentando esconder a atrapalhação.

E, apanhando-me de surpresa, Bea olhou-me repentinamente e arregalou os olhos, surpreendida e meio assustada. Pisquei os olhos várias vezes seguidas, desviando o meu olhar do dela, enquanto sentia os meus olhos arderem.

- Os teus olhos... - murmurou ela, com a voz fraca.

- São alergias, não te preocupes - apressei-me a dizer, sentindo os meus olhos a voltarem ao normal.

O rosto dela tornou-se sereno, como se estivesse concentrada a pensar em algo. Preferi não fazer perguntas e deixar que o silêncio se instalasse.

- Vais para casa? - perguntei quando chegámos ao parque de estacionamento da escola. Tínhamos ambos a tarde livre.

- Sim, tenho de resolver umas coisas - respondeu, distraída.

E, involuntariamente, lembrei-me das descobertas que John fizera e tornou-se difícil para mim estar ali, agindo naturalmente, sem saber se Bea sabia ou não da verdade.

- Hm se quiseres companhia... - insinuei, esperando que ela aceitasse a minha companhia para que eu pudesse falar melhor com ela e poder percebê-la.

Bea pareceu ponderar sobre o assunto por breves instantes e depois descontraiu-se.

- Sabes arrombar portas? - perguntou de repente, olhando-me com esperança.

A sua pergunta apanhou-me completamente de surpresa. Por que é que ela precisava de arrombar portas?

- Ahm acho que sim... - gaguejei, atrapalhado.

Ela sorriu, cheia de esperança, parecendo aliviada.

- Então eu preciso que me ajudes.

*

Assim que estacionei o carro em frente de sua casa, percebi que Alonso não estava, o que me deixou aliviado pois não me apetecia nada dar de caras com ele depois do que tinha descoberto.
Saí do carro e segui a Bea até ao interior da casa.

- Vais achar estranho, mas preciso que me ajudes a abrir a porta do sótão - pediu - A porta está fechada à chave e eu não encontro a chave em lado nenhum...

a herdeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora