O relógio da sala marcava as duas da manhã, e eu ainda não tinha tirado os pés da biblioteca.
Tinha esvaziado o conteúdo do cofre e espalhado tudo em cima da mesa da biblioteca. Não tencionava dormir enquanto não tivesse descoberto tudo o que havia a descobrir.
À medida que ia lendo as páginas do diário da minha avó, ia apontado numa folha todas as informações que achasse importantes.
Já tinha passado a fase de choque em relação à descoberta da verdadeira identidade da família Bartori e tinha decidido encarar tudo aquilo com sangue frio. A única certeza que eu tinha era que Lorenzo, o rapaz por quem começara a sentir um fraquinho, era vampiro, mas iria lidar com isso depois. Tinha decidido que agora a prioridade seria descobrir e perceber todos os segredos que Alonso e o resto da minha família escondiam.
Já tinha lido o testamento do meu avô, que nunca cheguei a conhecer, e que não dizia nada de especial, apenas que toda a casa e o seu recheio seriam herdados pela minha avó. Os seus diários é que tinham o conteúdo mais interessante e, de certa forma, mais chocante.
Pelos vistos a minha avó tinha sido uma bruxa, ou feiticeira, ou lá como se chamava essa espécie de ser vivo. John, o vampiro que encontrara ferido no meio da floresta, recuperou e ambos acabaram por se apaixonar, e tiveram um romance em segredo, apesar de a minha avó ser casada. O meu avô também tinha um papel importante no meio desta história toda, era caçador; não um simples caçador, mas sim um caçador de seres sobrenaturais... vampiros, lobisomens, e todas as outras espécies que pudessem andar a vaguear pela Terra.
Respirei fundo. Como é que era suposto eu lidar com tudo isto? Vampiros, bruxas, lobisomens, caçadores... era suposto ser tudo ficção! Como é que, de repente, tudo passa da ficção para a realidade?
Suspirei, contendo uma lágrima nervosa, e virei a página. Era a última folha do diário.
27 de julho de 1989. Vinte e dois anos após a minha avó ter conhecido John Bartori. 1989, o ano em que a minha avó fechou esta casa e foi morar para Itália com os meus pais.
Respirei fundo, preparando-me mentalmente para o que quer que fosse que a minha avó tivesse escrito naquela última folha.
Manuel descobriu tudo. Chegou a casa e viu-me com John. Percebeu logo o que ele era. Não sei quanto tempo passou durante aquele instante. John desapareceu e Manuel, de pistola na mão, foi atrás dele. Eu fiquei no meio da sala, petrificada com o que acabava de acontecer. Não estavamos a fazer nada de mal, estavamos apenas a conversar, mas para Manuel isso era um insulto, era um atentado à tradição e aos princípios da família dele. Ele avisava-me vezes e vezes sem conta que os vampiros eram perigosos e que deviam ser exterminados. E eu acabara por me apaixonar por um. Não posso dizer que Manuel não tenha razão para ter ficado furioso, eu era casada e traí o meu marido.
Acho que, naquele momento, o que me fez reagir foi a certeza de que Manuel iria matar John, mais cedo ou mais tarde. Essa ideia aterrorizou-me. Senti as lágrimas caírem pelo meu rosto quando essa imagem me passou pela cabeça. Acho que foi a ideia de perder a pessoa que eu amava que me deu forças para ir ao sótão buscar uma das pistolas de Manuel e sair de casa a correr, à procura deles. Na altura nem tinha a noção do que estava a fazer.
Segui o som dos tiros e encontrei-os embrenhados na floresta. John corria por entre as árvores, escondendo-se o melhor que podia, e Manuel corria atrás dele, não poupando balas na tentativa desesperada de o atingir.
Não me foi difícil segui-los. Manuel, muitos anos antes, tinha-me treinado para o caso de algum dia precisar de me defender. Todos esses treinos permitiam-me naquele momento ir atrás deles e fazer o que nunca antes me passara pela cabeça fazer.
Nenhum dos dois se tinha apercebido da minha presença e isso deve ter sido algo que facilitou o que fiz. Nem sei como o fiz ou como arranjei coragem para o fazer. Mas quando dei por mim já tinha disparado. Por breves momentos não se ouviu nada, a floresta à nossa volta tinha-se silenciado. Passaram-me pela cabeça todos aqueles trinta e cinco anos que passei ao lado de Manuel. Mas eu amava John, mesmo sabendo que não podíamos estar juntos.
Eu tinha disparado com uma pontaria perfeita, um tiro no coração que o fez cair por terra. Caí de joelhos no meio das ervas e dos arbustos, lavada em lágrimas. Não sei quanto tempo passei ali mas quando dei por mim estava a ser abraçada por John, que me levantou do chão.
Deixámo-lo ali caído e John trouxe-me para casa. No dia seguinte chamei a polícia, agi como se nada tivesse acontecido, fingi que Manuel tinha desaparecido sem dizer nada. Encontraram-no algumas horas depois, na floresta, morto. O caso acabou por ser arquivado por falta de provas.
Já se passaram três semanas. Não vejo John há alguns dias, depois de lhe dizer que estava de partida. Custa-me deixá-lo, mas ambos sabemos que não podemos ficar juntos. Disse-lhe isso há uns anos, quando me falou na transformação, e disse-lho outra vez no outro dia, antes de me despedir. Nunca nenhuma bruxa conseguiu sobreviver à transformação, e eu não quero arriscar.
Estou de partida para Itália, vou viver com a Bianca. Não sei se algum dia irei aqui voltar. Sinto que não serei capaz. Mas espero um dia poder vir a ter netos e poder ensinar-lhes todos os segredos que esta casa tem e, acima de tudo, ensinar-lhes que os valores do meu falecido marido não são corretos. Nem todos os vampiros são monstros.
Fechei o diário, sentindo os olhos inundados de lágrimas.
A minha avó tinha-se apaixonado por um vampiro...
Fui arrancada bruscamente daquele estado de choque pelo toque do meu telemóvel. Tirei-o do bolso e atendi a chamada sem ver quem era.
- Estás a chorar?! – aquela voz simplesmente perfeita soou do outro lado, apanhando-me de surpresa mas, inexplicavelmente, acalmou-me.
- Não te preocupes, está tudo bem – disse com uma voz pouco convincente.
- O que é que aconteceu? Queres que eu vá ter contigo?
Pude notar uma certa urgência na voz dele, como se tivesse pressa em dizer qualquer coisa.
- Por acaso quero. Preciso de falar contigo urgentemente.
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a herdeira
Vampiros(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
