14 - Beatrice

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Foi então que eu reparei que os dois tons de cor eram separados por uma reentrância super minúscula, que cortava a parede desde o teto até ao chão, como se alguém ou alguma coisa tivesse cortado a parede ao meio.
Lorenzo aproximou-se de mim e também reparou finalmente nesse pormenor.
O risco não era muito largo, se calhar apenas o suficiente para deixar passar uma ou duas folhas de papel.

- Definitivamente é uma parede falsa - concluiu olhando para o lado direito da parede - Foi aqui colocada para esconder o que há do outro lado.

- Temos de descobrir como tirar daí essa parede - disse-lhe.

- Não... acho que não - disse, deixando-me perplexa. Como não? - Eu acho que esta parede falsa já cá está há décadas, ainda antes do teu avô se tornar num caçador. Deve haver algum mecanismo que faça abrir a parede e depois fechá-la.

- Como uma passagem secreta? - perguntei, sentindo-me numa história de aventura e mistério.

- Sim... - murmurou, olhando em volta.

Apressei-me a pensar numa alternativa, em algo que pudesse abrir aquela passagem. Algo que servisse como comando.
Um comando costuma ter muitos botões e normalmente nas casas há sempre... um quadro elétrico. Olhei em volta desajeitadamente. Lembrava-me que o Alonso tinha mencionado, no nosso primeiro dia naquela casa, que o quadro elétrico ficava no sótão.
Vi então, do lado esquerdo da porta do sótão, um retângulo de metal na parede.

- O mecanismo para abrir a parede poderia estar no quadro elétrico?

Lorenzo parou e olhou para mim, com uma expressão de quem acha que sim - Mas o quadro elétrico tinha de estar aqui...

Fiz-lhe sinal para a parede ao lado da porta. O rosto dele abriu-se num sorriso.
Corremos ambos para lá, tão depressa que tropeçámos em caixas que estavam no meio do caminho.
Quando chegámos ao pé do quadro elétrico, abri a porta e deparámo-nos com um painel cheio de botões e pequenas alavancas.

- Como é que te lembraste?

- Não sei. Nem sei como é que não descobri mais cedo que o Alonso me tinha mentido sobre o paradeiro das chaves do sótão... - lembrei-me de repente - Quando aqui chegámos, ele disse que o quadro elétrico estava aqui no sótão e veio cá ligar a luz e a água. Ora, para cá ter vindo fazer isso é porque sabia perfeitamente onde estavam as chaves. Mas nunca mais me lembrei disso...

- É normal, na altura não te pareceu importante e só te apercebeste que a porta do sótão estava trancada quando cá vieste.

- Sim, mas quando lhe perguntei pelas chaves e ele me disse que não sabia, eu podia ter-me lembrado que ele já cá tinha vindo quando chegámos.

- Oh, não te censures, o que importa é que isso se resolveu - Lorenzo encolheu os ombros, desviando o olhar para o painel de botões.

Estavam todos perfeitamente identificados. Cada botão tinha uma pequena inscrição por baixo a indicar para que servia. Mas, no fundo da placa de metal, havia duas filas de botões que não tinham indicações.

- Devem ser estes - indicou Lorenzo.

Assenti, com o pressentimento de que não devíamos carregar em botão nenhum sem antes ter a certeza absoluta de qual deles era.

- Como é que vamos descobrir qual é o botão?

Encolhi os ombros, preocupada.
Tinha a sensação de que seria difícil descobrir.
Se aquela parede está ali a esconder alguma coisa, é porque é algo importante. Demasiado importante. Portanto a maneira de entrar também estaria muito bem protegida, para que nenhum intruso pudesse entrar.
Olhei para o relógio, para me certificar de que não era tarde.
Tirei o meu telemóvel do bolso das calças e abri a câmara fotográfica, tirando uma foto ao painel metálico.
Lorenzo olhou-me com um ar interrogativo.

- Para o caso de não conseguirmos descobrir nada enquanto aqui estivermos em cima. Assim posso tentar descobrir alguma coisa quando estiver no quarto ou na biblioteca - expliquei, com um sorriso atrapalhado.

Ele riu-se baixinho e desviou o olhar para os caixotes à nossa volta.

- Não havia nada no cofre que pudesse indicar como abrir a parede? - perguntou.

Senti um vazio dentro de mim. A verdade é que eu ainda não tinha lido os diários todos que lá estavam dentro.
Mas isso fez-me pensar noutra hipótese. Há poucos minutos, quando eu andava a vaguear no meio de todas aquelas caixas, apercebi-me de que todas as arcas ali estavam trancadas. Lembrei-me então do molho de chaves que ficaram pousadas em cima de uma das caixas ao pé da porta.
Peguei no molho de chaves e observei-as. Algumas podiam muito bem ser as chaves daquelas arcas de madeira trabalhada com floreados.

- Em que é que estás a pensar?

Mal ouvi a sua pergunta. Sem hesitar, fui até à arca mais próxima e comecei a experimentar as chaves uma a uma. À quarta tentativa, a chave rodou e a fechadura abriu.
Lorenzo aproximou-se, curioso.
Dentro da arca não havia nada de especial. Apenas objetos que me pareceram bastante valiosos. Mas não havia nada que pudesse ajudar-nos a abrir a passagem secreta.
Enquanto eu a fechava, Lorenzo já se dirigia para a próxima arca.

a herdeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora