Eu acabava de ouvir que a minha avó se tinha apaixonado por um vampiro (que por acaso é o pai adotivo do rapaz de quem eu começara a gostar) e traiu o meu avô, chegando ao ponto de o matar. O meu pai tinha sido atacado por vampiros e, por não resistir à transformação, pediu ao meu irmão para o matar e acabar assim com o seu sofrimento. A minha avó era uma bruxa, o meu avô um caçador de coisas estranh... sobrenaturais, e sabe-se lá o que havia de errado com a minha mãe e com a minha irmã e até com o Alonso e quem sabe se até o meu pai tinha algum... dom. O Lorenzo e a sua família eram vampiros.
O meu mundo acabava de descambar por completo e no entanto sentia que estar ali, sentada ao lado de Lorenzo, era a única coisa normal que tinha acontecido nas últimas horas. Mas Lorenzo era um vampiro, e isso não tinha nada de normal. No entanto eu sentia-me bem ali. Sentia que, ao seu lado, conseguia enfrentar melhor tudo aquilo.
Sem estar à espera, ele deu-me a mão num gesto meigo e inesperado. Não tive medo. Apenas me senti calma, protegida.
- Queres que me vá embora? - perguntou em voz baixa.
- Não... - a resposta saiu-me automaticamente, sem pensar. Percebi que o tinha apanhado de surpresa.
- Mas tu deves querer descansar, pensar sobre tudo isto...
- Não me deixes sozinha, por favor... - murmurei, sentindo que estava prestes a desfazer-me em lágrimas. A ideia de ficar sozinha, àquelas horas, depois daquele turbilhão de informações, aterrorizava-me.
- Tudo bem, eu fico aqui contigo - prometeu.
Respirei fundo e olhei para o relógio. Quase três e meia. Lá fora, o vento soprava violentamente contra as árvores, fazendo os seus ramos abanarem com força. O céu, nublado, era negro e sem estrelas.
- A que horas é que o teu irmão vem para casa?
Tive de pensar por breves momentos - Lá para a hora de almoço.
Ele assentiu. Dali a algumas horas o despertador tocaria para acordar, e a ideia de ter de ir à escola pareceu-me uma ideia ridícula.
- Acho que vou faltar às aulas... - murmurei - A última coisa que me apetece é ir para a escola e fingir que nada se passa.
- Eu percebo, mas por agora acho mesmo que devias descansar - disse ele, com a sua voz calma e perfeita.
Só então me apercebi do quão fria era a sua mão. Mas ao mesmo tempo era um toque protetor, era bom estar ali, com a minha mão colada à dele.
- Eu... não tenho sono, acho que tão cedo não vou conseguir dormir - disse.
Mas enganava-me.
Recostámo-nos nas almofadas para ficarmos mais confortáveis e pouco tempo depois caí num sono agitado, com alguns pesadelos. Mas felizmente acabei por adormecer profundamente e só acordei por volta das dez da manhã, estranhando a falta de luz no quarto.
Entreabri os olhos, um pouco confusa, e aos poucos as memórias da noite anterior invadiram-me. Quando a confusão inicial se desvaneceu, apercebi-me de que não estava sozinha. Tinha acabado de acordar nos braços de Lorenzo. Quão romântico isto é, gozou o meu subconsciente. Ri-me sozinha, atraindo a curiosidade dele.
- Estás a rir do quê? - perguntou, talvez estranhando o meu bom humor matinal.
- Nada, esquece - sorri - Bom dia.
Levantei-me com dificuldade, esfregando os olhos para me habituar à pouca claridade da manhã. Só então percebi que o céu estava muito nublado, ameaçando lançar uma tempestade a qualquer momento.
- Ainda aqui estás? - perguntei, estranhando.
- Prometi que não te deixava sozinha... - disse ele, com uma expressão meio séria, meio brincalhona.
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a herdeira
Vampire(história em pausa) Uma casa no meio da floresta, fechada há 28 anos. Uma biblioteca que esconde um cofre. Um sótão fechado à chave. Uma floresta onde acontecem coisas estranhas. Dois desaparecimentos e uma morte suspeita. Uma história com 50 anos...
