16 - Alonso

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Já estava afundado nas páginas do caderno há algum tempo, farto de procurar sem nunca encontrar nada de importante. Queria tanto como a Bea encontrar a maneira de abrir a passagem do sótão, queria que a Bea pudesse recuperar os seus poderes e começar a treinar o mais depressa possível.
Pelas janelas da biblioteca apenas entravam os reflexos da lua cheia, atormentando-me a cada minuto que passava.

- Começo a achar que isto é inútil... - suspirou Bea, fechando bruscamente um livro, sobressaltando-me - Desculpa... não te quis assustar.

- Não te preocupes... - murmurei, olhando impacientemente para o relógio.

Ficar ali trancado com a Bea não tinha sido, definitivamente, uma boa ideia e isso preocupava-me. Sentia que tinha de arranjar uma maneira de sair dali o mais depressa possível.
Fechei o caderno e aconcheguei-me na cadeira.
Bea, completamente abstraída, estava a observar o anel.

- Bea?

Ela encarou-me com um ar triste.

- Acho melhor desistirmos por hoje... já é bastante tarde.

Bea lançou um olhar rápido pelo relógio - Nem me tinha apercebido das horas...

Era quase uma da manhã e eu podia ver a cara de sono dela.
Comecei a sentir-me demasiado impaciente e exposto ali, e só desejava que Bea decidisse ir para o seu quarto.
Bea ainda se demorou uns minutos ali sentada, imóvel, submersa nos seus pensamentos, fazendo crescer em mim a impaciência.
Os raios da lua cheia entravam de vez em quando, emergindo por entre as nuvens que passavam. Apertei os punhos debaixo da mesa, retraindo os meus ossos e os meus músculos.

- Bom, acho que vou dormir - concluiu ela, levantando-se.

Acenei que sim, sem força para dizer fosse o que fosse. Cerrei o maxilar enquanto Bea se aproximou de mim para me dar um leve beijo na bochecha.

- Boa noite - disse ela.

- Boa noite... - quase murmurei.

Os passos dela ecoaram-me na mente, o bater da porta do quarto dela, os passos pelo quarto. Quando percebi que ela tinha mesmo ido dormir, saí da biblioteca e desci as escadas quase a correr. Na sala, através das vidraças, a luz da lua era mais intensa e eu senti todo o meu corpo a mudar, deixando-me ansioso e a perder o controlo. Senti-me com falta de ar, os meus olhos ardiam, os meus sentidos começavam a ficar muito mais apurados e tudo à minha volta se distorcia.
Sabia que não podia ficar ali nem mais um segundo.
Corri para a porta de casa e abria-a desesperadamente, mas paralisei.

a herdeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora