03 - Beatrice

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Estava um silêncio impenetrável em minha casa, pelo que percebi que o meu irmão iria ficar novamente no hospital a fazer o turno da noite. E chegar a essa conclusão deixou-me aliviada: eu gostava de estar sozinha em casa.
Deixei a mala à porta do meu quarto e fui até ao armário em cima da cama, pegando numa caixa de recordações que já não abria há algum tempo.
Coloquei os fones no volume máximo, com uma música meio deprimente, e fui buscar um caderno e uma esferográfica à mesa de vidro. Era uma espécie de diário, onde eu desabafava quando não conseguia lidar mais comigo própria.
Sentei-me na cama com tudo à minha frente e abri a caixa, procurando até encontrar uma fotografia tirada há uns anos. Era eu com os meus irmãos, Alonso e Camila.
Pousando a fotografia ao meu lado, abri o caderno. A última vez que escrevera foi há três meses atrás.
Comecei a escrever.

14 novembro 2017

A fase de mudança já acabou. Estou neste momento a escrever na nova casa. Bom, pelo menos para mim é uma nova casa. Sei que o meu pai já cá estivera, quando a minha avó ainda era viva, mas nem eu nem o Alonso cá tínhamos estado alguma vez.
A casa é gira e enorme, acho que me apaixonei assim que entrei pela porta pela primeira vez.
O Alonso conseguiu ficar a trabalhar no hospital da cidade. Ele parece estar a ignorar tudo o que aconteceu. Bem, para ser sincera nem eu sei bem o que aconteceu.
Nunca mais soube nada da Camila, e não sei se isso é bom ou mau. Só gostava de poder entender tudo. Sei que o meu irmão sabe o que aconteceu, mas não me quer contar nada, proibiu-me de lhe falar disso.
Ainda não desisti da ideia de procurar respostas, quero descobrir tudo o que o meu irmão me está a esconder , e talvez seja por isso que não hesitei em aceitar vir para Portugal quando o Alonso me perguntou. Algo me diz que aqui vou descobrir muito.
E, tendo em conta o tempo todo que ele me deixa sozinha em casa, acho que não será difícil para mim vasculhar esta casa de cima abaixo.
Mudando de assunto. Hoje foi o meu segundo dia de aulas na escola nova. Por mais entusiasmada que estivesse por vir para Portugal, nunca pensei que fosse tão mau. Ainda só fiz uma amiga, é um bocado esquisita, mas eu simpatizo imenso com ela e acho que vai ser a única pessoa com quem me vou dar no futuro. As pessoas são muito coscuvilheiras e gostam de se meter onde não são chamadas. Mas Alexa não, ela é muito parecida comigo.
E ela falou-me de um grupo de irmãos, todos adotados, que também andam lá na escola. São os irmãos Bartori, também são italianos. São lindos de morrer e também não convivem com mais ninguém se não com eles próprios. Não os conheço, ainda não tive a oportunidade de falar com eles, mas tenho a certeza de que algo se passa com eles...

Fui interrompida por um barulho qualquer, que me chamou a atenção. Foi um barulho alto o suficiente para se conseguir sobrepor à música dos meus fones, e vinha lá de fora.
Tirei os fones dos ouvidos e levantei-me.
Ao início não percebi se era dentro ou fora de casa, mas minutos depois consegui distinguir uma espécie de rugidos, vindos da floresta.
Senti o meu coração aos pulos, quase me sufocando.
Através das grandes vidraças, só conseguia ver a floresta cerrada e quieta, que caía lentamente no escuro da noite.
Mas os rugidos continuaram, ecoando pela floresta.

a herdeiraOnde histórias criam vida. Descubra agora