Acordo por conta de um bebê chorando muito perto de onde estou. É impossível dormir assim. Me mexo na cama, tentando encontrar uma posição confortável, mas ela parece mais dura que o normal.
Talvez eu tenha pego no sono na grama e tenha chegado alguma visita... Só consigo pensar nisso, principalmente por conta do frio. Sinto as roupas e uma fina manta sobre mim, mas não é suficiente. Além disso, minhas irmãs nem minha mãe me deixariam dormindo do lado de fora, não é?
O bebê continua chorando e eu não consigo voltar a dormir, mesmo com a cabeça pesada de sono, então abro meus olhos. O que vejo não é a goiabeira, nem o quintal de casa ou a madeira da beliche; estou em um tipo de cabana ou chalé, totalmente de madeira.
O pequeno quarto abriga eu e mais dois adolescentes. Consigo ver que é um menino e uma menina, que, se eu chutar, podem estar entre os doze e quatorze anos. Eles dormem em cima de feno, e eu percebo que também estou com uma "cama" parecida. Tem uma cama de feno para cada e lençóis finos nos cobrindo, o que equivale a nada, já que o frio entra pelas frestas da parede de madeira.
O bebê continua chorando muito alto, deve estar em outro cômodo e, por mais que me doa, eu tenho que pensar em mim. Em como vim parar aqui e, o mais importante, como vou sair.
Provavelmente eu fui sequestrada. Entraram no quintal e me levaram; essa é a única explicação que meu cérebro sonolento consegue formar.
Me levanto e visto um casaco pesado que estava pendurado na parede ao lado da porta. E, me esforçando ao máximo para não fazer nenhum barulho, tento sair do quarto. A porta está destrancada e range quando a abro. Prendo minha respiração, com medo, mas nada acontece, ninguém aparece. Nem mesmo os dois acordam.
Saio do quarto na ponta dos pés, mas travo no meio caminho para, o que parece ser, uma sala junto com cozinha. Uma mulher, que me lembra um pouco a minha mãe, mas com um cabelo castanho trançado até o meio das costas, está com o bebê chorando em seu colo.
Ela anda pela pequena sala/cozinha, balançando o bebê em seus braços e cantando uma canção de ninar que eu nunca ouvira antes, mas meu corpo reage como se fosse conhecida e amada.
A sala/cozinha é pequena e não tem muitas coisas. Um banco de madeira, um tapete encardido e sujo, uma mesa, também de madeira, no meio do cômodo e algumas cadeiras com os dias contados. Num canto tem uma lareira, que está acesa, mas suponho, pelas duas panelas em cima da mesma, que também é usada como fogão. Num outro canto tem uma mesa menor, com alguns utensílios e uma bacia com água.
Nada mais.
A mulher me vê, alguns segundos depois. Ela estava absorta e eu travada, mas agora ela me observa, sem parar de andar para um lado e para o outro. Ela não aparenta ser sequestradora, nem assassina; parece ser minha mãe e isso me dá um pequeno calafrio.
Minha mente luta, um lado acredita que ela seja minha mãe, e o outro lado diz que eu tenho mãe mas que essa daí não é ela.
- Aconteceu alguma coisa, minha filha? - a mulher pergunta, sem parar de me observar.
Ela não está muito longe de mim, a cabana é pequena demais, e para eu ir à porta teria que passar por ela.
Estou encurralada.
Olho para a porta fechada, que tem ao lado do quarto que saí, me perguntando se ali é outro quarto, ou banheiro ou, quem sabe, a verdadeira saída.
A minha suposta mãe continua me observando com curiosidade, como se não estivesse com um bebê chorão no colo.
- Teve um pesadelo? - ela pergunta, preocupada. - Se quiser, eu preparo um chá para você voltar a dormir. Amanhã será um grande dia e você precisa estar descansada.
- Está tudo bem. - digo, por fim, mesmo curiosa para saber o que me espera amanhã.
Continuo no mesmo lugar, tentando pensar numa forma de fugir. Mas minha mente luta para dizer que está tudo bem, que aqui não é perigoso e que é minha casa.
- Eloise, por que você está assim? O que está acontecendo?
Engulo em seco. - Tive um sonho estranho... Sonhei que era outra pessoa, em outro tempo. Acordei e parecia que estava num lugar errado. Ainda estou tentando digerir...
A mulher suspira, um pouco aliviada.
- Volte a dormir, meu bem, amanhã será seu primeiro dia de trabalho no castelo. É bom que durma, terá muita coisa para fazer.
Castelo...
Castelo?!
Isso só fica pior. E eu não estou com um pingo de vontade de voltar a dormir. Eu só quero minha mãe, minhas irmãs e minha casa. Só isso.
Sinto lágrimas na minha bochecha, mas às limpo antes que a mulher com o bebê chorão veja. Amanhã. Amanhã, quando for para o tal trabalho, vou fugir. Ou pelo menos tentar achar o caminho pra casa, seja qual for o obstáculo
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
