8. Eloise

492 126 74
                                        

Acordo por conta de um bebê chorando muito perto de onde estou. É impossível dormir assim. Me mexo na cama, tentando encontrar uma posição confortável, mas ela parece mais dura que o normal.

Talvez eu tenha pego no sono na grama e tenha chegado alguma visita... Só consigo pensar nisso, principalmente por conta do frio. Sinto as roupas e uma fina manta sobre mim, mas não é suficiente. Além disso, minhas irmãs nem minha mãe me deixariam dormindo do lado de fora, não é?

O bebê continua chorando e eu não consigo voltar a dormir, mesmo com a cabeça pesada de sono, então abro meus olhos. O que vejo não é a goiabeira, nem o quintal de casa ou a madeira da beliche; estou em um tipo de cabana ou chalé, totalmente de madeira.

O pequeno quarto abriga eu e mais dois adolescentes. Consigo ver que é um menino e uma menina, que, se eu chutar, podem estar entre os doze e quatorze anos. Eles dormem em cima de feno, e eu percebo que também estou com uma "cama" parecida. Tem uma cama de feno para cada e lençóis finos nos cobrindo, o que equivale a nada, já que o frio entra pelas frestas da parede de madeira.

O bebê continua chorando muito alto, deve estar em outro cômodo e, por mais que me doa, eu tenho que pensar em mim. Em como vim parar aqui e, o mais importante, como vou sair.

Provavelmente eu fui sequestrada. Entraram no quintal e me levaram; essa é a única explicação que meu cérebro sonolento consegue formar.

Me levanto e visto um casaco pesado que estava pendurado na parede ao lado da porta. E, me esforçando ao máximo para não fazer nenhum barulho, tento sair do quarto. A porta está destrancada e range quando a abro. Prendo minha respiração, com medo, mas nada acontece, ninguém aparece. Nem mesmo os dois acordam.

Saio do quarto na ponta dos pés, mas travo no meio caminho para, o que parece ser, uma sala junto com cozinha. Uma mulher, que me lembra um pouco a minha mãe, mas com um cabelo castanho trançado até o meio das costas, está com o bebê chorando em seu colo.

Ela anda pela pequena sala/cozinha, balançando o bebê em seus braços e cantando uma canção de ninar que eu nunca ouvira antes, mas meu corpo reage como se fosse conhecida e amada.

A sala/cozinha é pequena e não tem muitas coisas. Um banco de madeira, um tapete encardido e sujo, uma mesa, também de madeira, no meio do cômodo e algumas cadeiras com os dias contados. Num canto tem uma lareira, que está acesa, mas suponho, pelas duas panelas em cima da mesma, que também é usada como fogão. Num outro canto tem uma mesa menor, com alguns utensílios e uma bacia com água.

Nada mais.

A mulher me vê, alguns segundos depois. Ela estava absorta e eu travada, mas agora ela me observa, sem parar de andar para um lado e para o outro. Ela não aparenta ser sequestradora, nem assassina; parece ser minha mãe e isso me dá um pequeno calafrio.

Minha mente luta, um lado acredita que ela seja minha mãe, e o outro lado diz que eu tenho mãe mas que essa daí não é ela.

- Aconteceu alguma coisa, minha filha? - a mulher pergunta, sem parar de me observar.

Ela não está muito longe de mim, a cabana é pequena demais, e para eu ir à porta teria que passar por ela.

Estou encurralada.

Olho para a porta fechada, que tem ao lado do quarto que saí, me perguntando se ali é outro quarto, ou banheiro ou, quem sabe, a verdadeira saída.

A minha suposta mãe continua me observando com curiosidade, como se não estivesse com um bebê chorão no colo.

- Teve um pesadelo? - ela pergunta, preocupada. - Se quiser, eu preparo um chá para você voltar a dormir. Amanhã será um grande dia e você precisa estar descansada.

- Está tudo bem. - digo, por fim, mesmo curiosa para saber o que me espera amanhã.

Continuo no mesmo lugar, tentando pensar numa forma de fugir. Mas minha mente luta para dizer que está tudo bem, que aqui não é perigoso e que é minha casa.

- Eloise, por que você está assim? O que está acontecendo?

Engulo em seco. - Tive um sonho estranho... Sonhei que era outra pessoa, em outro tempo. Acordei e parecia que estava num lugar errado. Ainda estou tentando digerir...

A mulher suspira, um pouco aliviada.

- Volte a dormir, meu bem, amanhã será seu primeiro dia de trabalho no castelo. É bom que durma, terá muita coisa para fazer.

Castelo...

Castelo?!

Isso só fica pior. E eu não estou com um pingo de vontade de voltar a dormir. Eu só quero minha mãe, minhas irmãs e minha casa. Só isso.

Sinto lágrimas na minha bochecha, mas às limpo antes que a mulher com o bebê chorão veja. Amanhã. Amanhã, quando for para o tal trabalho, vou fugir. Ou pelo menos tentar achar o caminho pra casa, seja qual for o obstáculo

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora