— Vocês não vão acreditar no que aconteceu!
Joseph entra em casa como um furacão, depois de ter passado o domingo inteiro com o avô. Eu estava conversando com seus pais, sobre meu século, enquanto bebíamos chá perto da lareira e desfrutávamos da noite de outono, quando ele aparece, corado e ofegante.
— Aconteceu alguma coisa com papai? — Sra. Martinez se levanta de supetão, super preocupada com a saúde do idoso.
— Não! — Joseph solta uma risada nervosa e se senta na ponta de poltrona vaga. — Vi Gaston! Ele voltou há uns dias, e hoje o vi se lamentando, na taberna. E adivinhem? Por causa da Srta. Bella, que recusou seu pedido de casamento!
— O que estava fazendo na taberna? — Sr. Martinez encara o filho com uma expressão séria. — Já lhe expliquei e aconselhei, esses homens não são boas companhias.
— Perdão! — o loiro parece arrependido. — Mas meu avô insistiu, ele queria muito ir, então fui para controlar o que bebia. Foi quando vi Gaston! — ele volta a me olhar, com seus olhos brilhando de animação, como uma criança que jura ter visto o papai noel. — Ele estava se lamentando, então os homens o consolaram de uma forma que ele, de uma hora para a outra, estava quase exigindo que todos se ajoelhassem perante ele.
— Gaston é narcisista, e todo mundo sabe. — a senhora comenta gesticulando, para que o filho continue.
— Pois bem, ele ficou dessa forma por um bom tempo, até o pai da Srta. Bella aparecer, o Sr. Maurice. Ele estava com os olhos arregalados, e gritava por ajuda. O senhor parecia à beira da loucura, mas eu me lembrei, e soube que ele só estava com medo. O Rei já está com a Srta. Bella.
— E depois? — seu pai pergunta curioso.
— Não vi o que aconteceu depois. Meu avô começou a reclamar da gritaria, e por não estar o deixando beber, então se levantou e foi embora. E eu fui obrigado a ir junto, e não vi mais nada.
— O Senhor voltou lá? — pergunto, com o coração na mão. Pobre Sr. Maurice... Ainda irá sofrer muito.
— Pode me tratar informalmente, Íris, já conversamos sobre isso. — Joseph interrompe a conversa, para me lembrar de seu pedido feito na semana passada, depois de eu ter contado a verdade para seus pais sobre mim. Coro e assinto; ele continua: — E não, não voltei. Deixei meu avô em casa e vim direto para cá.
— Precisamos ir até o Sr. Maurice. Ele ficará muito doente, e louco, com a prisão de Bella. — me levanto, disposta a mudar a história.
Dane-se o que fora escrito. Não posso deixar um senhor sofrer desse jeito, sendo que posso ajudar.
— Não creio que seja uma boa ideia. — Sr. Martinez opina, me olhando por trás de seus óculos redondos. — Se fora escrito, de uma forma ou de outra aquilo acontecerá. Tudo conspira para o final. O único final.
— Como pode ter certeza disso? — sua esposa desafia. — Sabe de algo que não sabemos, Sr. Martinez?
— Suposição, minha querida esposa. Esse é o nome correto. Estou supondo, com base no que já fora dito, e observado.
— Não podemos deixar esse homem sozinho. — ela contra ataca. — Precisamos ajuda-lo de alguma forma que não interfira na história. E Íris saberá o que fazer, e como. — ela me olha e sorri. — É uma garota inteligente, e confiamos em você, meu bem.
Sorrio e assinto. — Pensarei em algo, em alguma forma de ajudarmos o sr. Maurice sem mudar a história. Ou pelo menos não muito.
— Poderíamos falar com a Srta. Bella, e pedir que escreva algo para o pai. — Joseph opina. — Assim irá acalma-lo.
— Isso! — sorrio, animada com a ideia. — Temos que ir o mais breve possível, e conversar com ela sobre tudo.
— Irá contar para a Srta. Bella sobre seu destino? — Sr. Martinez pergunta. — Não sei se isso é uma boa ideia... Várias coisas podem acontecer. A senhorita tem um coração maravilhoso, mas já está interferindo demais na história. Já parou para pensar que talvez só tenha que esperar o final, para poder voltar para sua casa? Se contar, talvez nem haja um final. Não o que conhece.
Engulo em seco. Sr. Martinez, como sempre, está certo. Não sei nada sobre minha vinda. Se fui enviada, enfeitiçada, amaldiçoada ou só tive uma má sorte. Posso estar em coma, por algum motivo desconhecido, e isso tudo seja um longo e perigoso sonho. Podem ser várias coisas, mas não há nenhuma certeza.
— O senhor tem razão. — me sento novamente, agora sem saber o que fazer e para onde ir. — O que sugere?
— Sugiro deixar as coisas seguirem no rumo que já foram pré destinados. — o homem retira os óculos e sorri. — O que for para acontecer virá de forma natural e a senhorita estará pronta para o que for. Nada que vem é pesado demais para carregarmos, se veio somos fortes o suficiente para aguentar.
Respiro fundo, digerindo tudo o que ele disse. E, mais uma vez, penso no quanto Joseph e ele são muito pouco parecidos.
Sr. Martinez é um homem negro, com o cabelo e o bigode grosso e grisalho. A semelhança está na altura e no porte físico. Suas vozes também são parecidas, e alguns poucos traços e jeitos de se mexer se parecem. A cor Joseph herdou da mãe, a sra. Martinez é branca, quase albina, e seu cabelo é de um tom loiro quase platinado. Ela é baixinha e com bochechas rosadas proeminentes.
A genética da família Martinez é curiosa, e sua história tanto quanto. O pai da gentil senhora não deu a benção para o casal se casar, então eles fugiram e voltaram quase um ano depois, com dinheiro suficiente para investir numa livraria e um bebê no ventre. Fora um dos incríveis momentos de sua história, que me deram a graça de contar.
E toda vez que sentamos, como hoje, e escuto falarem sobre sua vida nesse vilarejo, tão difícil e linda, me pego pensando o quanto sou grata pela minha família, e ao mesmo tempo arrependida. O que eu não faria para voltar e mudar tudo?
Eu seria capaz de tudo, e estou me arriscando muito desde o momento que entendi o que anda acontecendo. Antes até.
Às vezes me sinto como se estivesse vendada, ou num lugar que não há luz. Me sinto assim principalmente em momentos como esse, em que tenho de pensar no que fazer, como fazer, e se é suficiente e certo.
Mas de uma coisa eu tenho certeza; ter encontrado essa família, ou no caso, eles terem me achado, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Consigo me segurar neles e ter confiança o suficiente para fazer a escolha que tem de ser feita, para voltar pra casa. Para minha família.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Que Os Contos Não Contam
FantasíaAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
