2. Eloise

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A escola é um pesadelo, mas pelo menos existem duas coisas boas:

1° O sentimento na hora da volta pra casa, de liberdade;

2° Alegria em implicar com meus amigos e alguns outros alunos. Isso faz meu dia ficar muito bom.

Tirando isso continua sendo um pesadelo. Odeio os professores, odeio as matérias, odeio as provas e ainda mais: odeio que minha mãe me leve para a escola. Ela coloca músicas de quando era adolescente, cumprimenta todo mundo e buzina alto, muito alto.

Íris ama isso e entra na onda, mas Ayla está comigo; é a maior pagação de mico. Do. Universo. Mas tenho que conviver. Tenho dezesseis anos e não posso andar mais que dois quilômetros sozinha, muito menos às seis da manhã. Preciso conviver.

— Ei, Amanda! Como sua mãe está? — mamãe grita de dentro do carro para uma das amigas de Ayla, enquanto saímos.

— Merda de dia — resmungo, entrando na escola sem me despedir.

Vejo Ayla entrar no prédio da escola mais rápido que um jato. Tento seguir, mas a vejo com um garoto que nunca vi na vida, gato pra caramba, então desisto por ora. Volto para o pátio e encontro Íris perto dos banheiros. A sinto atrás de mim enquanto dou uma passada na biblioteca, para trocar um livro e depois rumo para o segundo andar.

Íris me segue como uma sombra. Silenciosa, mas ainda assim grudada. Somos trigêmeas, mas eu fiquei numa placenta separada dela e da Ayla, que são idênticas. Eu sou a diferente, a que era pra ser a rejeitada. Mas Íris insiste em me seguir para todos os lugares.

Eu não a julgo, apesar disso. Ayla é uma chata, quando não está em casa. Parece uma pessoa totalmente diferente e na maioria das vezes finge que não nos conhece. Ela realmente age como se não tivéssemos nascido da mesma vagina, no mesmo dia, nem dividido o mesmo útero por meses e o quarto por anos. É bizarro.

— Você tem que arranjar um grupo, Íris — repito meu conselho de todos os dias. — Ano que vem será nosso último ano. Eu tenho várias histórias para contar, mas e você? Contará como é ser a sombra da sua irmã?

— Eu posso contar sobre as competições! — ela explica, animada demais para essa hora da manhã — Eu participo de tudo, você sabe, tenho várias histórias. E o clube de xadrez.

— Não isso — reviro os olhos — Quero dizer histórias de adolescente. Coisas que fazemos com nossos amigos. Coisas que fazemos para a escola não são dignas o bastante para serem lembradas.

— Mas... Mas você sabe que as pessoas não gostam de mim...

— Porque você está sempre querendo competir. E ganhar. Pra você, sempre, tudo é motivo para competir. Isso é chato pra caramba!

— Mas você não está nem aí, essa é a diferença.

— A diferença é que somos irmãs. E ao contrário da Ayla, eu te aceito do jeito que você é, até aprendi a te aturar. Mas é isso. Se não fôssemos irmãs eu nem chegaria perto de você.

Íris bufa e cruza os braços — Também te amo, irmãzinha.

— Vamos, ande mais rápido — acelero meu passo — Quero ser a primeira a chegar na sala de aula, para pegar o lugar da Ayla. Ela vai odiar.

Dou uma risadinha sarcástica e olho para a Íris, que mudou seu semblante. Antes estava animada e um pouco distraída. Agora está focada e corada. Ela está sempre corada.

— Não sei porque não estou surpresa por você estar com essa cara — Ironizo.

— Não entendi.

— Você está competindo comigo, para chegar primeiro na sala — explico. — Não adianta negar.

— Você disse que quer ir rápido — ela se defende.

— Essa, com certeza, não é uma boa justificativa.

Entramos na sala e ocupamos duas cadeiras no fundo, bem no lugar onde Ayla se senta com sua turma de populares. Íris odeia sentar atrás, mas hoje ela parece não se importar com isso. Ela quer, tanto quanto eu, importunar a vida de nossa irmã. Consigo ver um sorrisinho se formar no canto de sua boca. Acertei em cheio.

Enquanto os alunos vão entrando e se acomodando em seus lugares, ligo minha playlist preferida em meu celular e coloco meus fones de ouvido. Fecho os olhos e deixo a música me envolver, me acalmar e até me alegrar um pouco. Apesar de estar escutando Evanescence, a música me traz esses sentimentos. Mamãe contou que nosso pai escutava, antes de sofrer o acidente que o matou.

Encontrei algumas coisas dele e peguei a maioria. Entre elas tinham uns cds do Evanescence, mas achei melhor ouvir pelo celular mesmo. E é incrível.

Sinto como se papai estivesse aqui e pudesse acariciar minha cabeça em todos os momentos ruins. Eu me sinto muito acolhida e abraçada por ele nesses momentos. E também nos bons e nos mais-ou-menos. Sempre.

Nunca contei isso para ninguém, mas mamãe deve saber. Ou pelo menos desconfia. Não há algo que mamãe não saiba em todo o mundo, disso tenho certeza. Ela é tão sábia que antes mesmo de pensar que algo poderia acontecer, ela congelou espermas do papai e seus óvulos. Eles pretendiam ter filhos mais tarde, mas quando ocorreu o acidente, um ano e meio antes de nascermos, ela se lembrou e tomou a decisão de ter um filho do homem que amava.

Então vieram três meninas e, apesar de ser estressante, eu amo a minha mãe por ter tomado essa decisão. A vida não é fácil, minhas irmãs são um saco e minha mãe é tão positiva que me dá dor de cabeça. Mas eu a amo e às minhas irmãs também.

Mesmo quando Ayla grita comigo, como está fazendo agora na frente de todo mundo da nossa turma. Eu só sei sorrir, porque é exatamente isso que eu estava pensando que ela faria. Apesar de ser falsa é muito previsível, pelo menos para mim. E isso é hilário. É muito fácil irritar a Ayla e é o meu passatempo preferido. Mais que o fim das aulas.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora