46. Ayla

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Não faço a mínima ideia de onde Eloise ou Íris possam estar, nem como rimar para a varinha da fada me obedecer. E depois do aviso dela, fiquei com medo.

Pó mágico? Ela quis dizer que Peter Pan está por ai sequestrando crianças, enquanto eu obedeço às ordens da Rainha má de tirar o final feliz de Cinderela?

— A cachoeira fica aqui perto, o que acha de descansarmos um pouco? — meu noivo propõe, com a voz cansada. — Talvez consiga pensar na melhor rima. E eu posso tirar um cochilo, enquanto faz o que precisa fazer.

— Se o senhor está pensando em dormir enquanto trabalho, pode tirar seu cavalinho da chuva. — caminhamos lado a lado, rumo à nossa cachoeira. — Estou tão cansada quanto você, aposto que não durmo há mais de vinte e seis horas.

O brilho em seus olhos são inexistentes, Diogo está tão cansado que nem nota meu sarcasmo, muito menos o retribui na mesma moeda.

Provavelmente eu sou a pior noiva do mundo. Ontem ele trabalhou como um condenando durante todo o dia, e depois andou pela da floresta durante a madrugada, só para me ajudar. E agora estou negando um cochilo.

Meu coração se aperta um pouco e depois amolece, ele fez isso por mim, e como eu retribuo? Sou a pior pessoa do mundo!

— Eu estava sendo sarcástica. — admito baixinho, o observando pelo canto do olho. — Claro que pode tirar um cochilo...

Ele assente, mas continua olhando para frente, se concentrando em não desmaiar de exaustão.

Mordo meu lábio, me segurando para não falar merda e por tudo a perder.

Passamos pela última árvore, antes de chegar na cocheira, suspirando de alívio. Eu, em particular, já estava contando os calos em meus pés, mas paro no momento em que vejo dois corpos enroscados perto da grande pedra. Da nossa pedra.

— Ora, ora, temos visita. — Diogo cochicha, voltando a ficar alerta, e sarcástico.

Avanço, segurando firme a minha bolsa com a varinha dentro.

Meu coração martela em meus ouvidos, competindo com o som de meus passos na areia e terra da margem da cachoeira. Nossa cachoeira. Só minha e de Diogo.

Bufo, vendo os cabelos castanhos da garota jogados no peito do rapaz negro. Os dois dormem como se estivessem dentro de casa, e se não fosse o machado em uma das mãos dele, com certeza os cutucaria; ninguém dorme na minha cachoeira.

— Com licença? — os chamo, não tão perto, mas também não tão longe deles. Ninguém se mexe. — Com licença? — repito, mais alto.

Diogo para ao meu lado, com o cenho franzido para o machado.

— É um caçador. — explica, se inclinando para a arma. — Mas não deve estar muito preocupado com o lugar em que dorme, já que seu sono é tão profundo que escutei seu ressonar do outro lado da casa da bruxa.

Mordo meu lábio para não rir, mas concordo; o ronco do homem poderia ser confundido com o estômago de um lobo faminto.

Diogo suspira, bate palmas bem forte e grita bom dia, alto o bastante para alguns pássaros voarem de uma árvore ao lado. Os pombinhos dorminhocos começam a se mexer, dando sinal de vida.

O caçador é o primeiro a acordar e já fica em alerta quando nos vê. Ele dá um pulo e segura seu machado, pronto para nos matar.

— Quem são os senhores? — pergunta com a voz rouca, por ter acabado de acordar.

— Nós que deveríamos fazer essa pergunta. — Diogo empina o queixo e cruza os braços, parece que seus ombros largos dobram de tamanho. — Nunca os vi por aqui, o que querem?

Desvio meu olhar para a moça, que agora está sentada e ergue seu rosto lentamente, ainda sonolenta.

Meu coração dá um salto quando seus olhos azuis, tão familiares, me encaram de volta.

Vejo cada expressão passar por sua face em câmera lenta; confusão, espanto, reconhecimento, alívio e alegria. Seu rosto continua tão expressivo quanto eu me lembrava.

— Ayla!

— Eloise!

Gritamos ao mesmo tempo, não nos importando com a reação dos dois homens ao nosso lado.

Me jogo em cima dela antes que se levante, e a abraço como nunca fiz, ou pelo menos não me lembro de já ter a abraçado assim, tão apertado.

— Lalá, Lalá, Lalá! — ela cantarola em meus ouvidos com a voz embargada.

— Elô... — é tudo o que consigo dizer antes de minha garganta fechar e eu cair aos prantos.

— Não acredito que é você! — minha irmã funga com o rosto enterrado em meus cabelos. — Fiquei tão preocupada, com tanto medo... Ah, Lalá... Me perdoe, por favor! Juro que nunca mais minto para você.

Balanço a cabeça, ainda sem conseguir dizer um A. Eu que não acredito que você esteja aqui, digo com meu olhar embaçado pelas lágrimas.

— Você está bem? — ela pergunta, procurando algum machucado pelo meu corpo, com o olhar. — Meu deus, seu vestido está sujo, mas dá para ver que não é coisa simples! Onde estava? Me conte tudo!

Engulo meu choro, ou pelo menos tento, e então conto tudo, desde quando abri meus olhos no corpo da irmã feia até há minutos atrás, quando tranquei a fada madrinha numa jaula na casa de doces da bruxa, que também é a rainha má.

Eloise escuta tudo com atenção e assente, para demonstrar que está entendendo, mesmo com a minha embolação. Quando termino é sua vez de contar sobre o que passou.

Ela me conta sobre a casinha de madeira e a família que mora lá, contou sobre o castelo da Branca de Neve e como foi fugir com ela para a floresta.

Arfo quando conta sobre o lobo e como o caçador o matou, e depois os dias que passou dentro da floresta, procurando pela Princesa.

— Tenho certeza que está com os anões — ela completa. —, e agora que sei sobre a bruxa ser a Rainha má, temo que já tenha sido envenenada. Mas não podia obedecer à ela, muito menos depois de contar que você e Íris estavam aqui também, em algum lugar.

— Íris! — me lembro da minha outra irmã, tão frágil e corajosa. — Você a viu? Temo que tenha se metido em alguma encrenca... Eu estava indo atrás de vocês, o baile é essa noite, e fiquei indecisa se obedecia ou não.

— Não. — ela nega com a cabeça para enfatizar. — Íamos procura-las, mas você apareceu antes mesmo de acordámos! E com a varinha de condão será bem mais fácil encontrar Íris, graças á Deus! — ela solta uma risada nervosa. — Mas ainda não sei como conseguiu sequestrar a Fada madrinha e levar sua varinha.

— Podemos conversar sobre isso depois, mas antes precisamos encontrar Íris. — passo a mão no rosto, para limpar as lágrimas, me levanto e procuro Diogo pela cachoeira.

— Raio de sol? — me viro na direção de sua voz e o encontro em cima da pedra. — Não vai me apresentar minha cunhada?

Sorrio para minha irmã e apresentamos nossos namorados uma para a outra antes de começarmos nossa busca.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora