Não me recordo de já ter sentido tanta raiva, muito menos de conseguir a segurar da forma que fiz hoje.
Eu me achava fraca até então. Mal posso acreditar que cheguei a me imaginar pegando o machado de Vitório, para decapitar o Príncipe Encantado, mas eu consegui ficar quieta e apenas observar.
Encantado acordou Branca de Neve com um beijo, enquanto ela estava dormindo, sem sua permissão.
Eu não fiz nada. Ninguém fez nada.
Já estava na história, e eu prometi concertar, para que voltasse ao normal e assim poder voltar para casa.
Não sei se minha irmã sentiu a mesma coisa, ou se os três rapazes que nos acompanham acharam aquilo errado. Não tenho como saber, principalmente por conta de suas faces, envoltas num manto tranquilo. A única coisa que sei é que estão se contendo por causa do Príncipe, nada mais.
Quando a Princesa acorda, seus olhos, idênticos ao do Príncipe, se iluminam. Ela não nota a minha presença, nem a de ninguém; está focada somente no loiro, que a fita como se fosse uma joia rara que há tempos procurava.
— A levarei ao meu castelo e a farei minha esposa — o Príncipe se dirige à ela —, minha futura rainha.
Ayla resmunga. — Onde está a Fada Madrinha quando mais precisamos?
— Já deve estar chegando — Diogo a responde baixinho, mas consigo escutar. — Ela prometeu, e irá cumprir.
— E se ele exigir que eu também vá? — ela questiona o noivo.
— Não irá, raio de sol. E caso isso aconteça, o que eu não acredito, não a deixarei ir.
Ela assente, respira fundo e volta sua atenção para mim. — Você está bem? Parece a ponto de explodir.
Confirmo com um movimento rápido da cabeça. Ayla não parece acreditar, e abre a boca para insistir, mas eu a corto antes disso.
— Só estou preocupada, como você. Só isso.
— Tudo bem...
Vejo um movimento pelo canto do olho e me viro para ver a Princesa subir no cavalo branco, ainda sem tirar os olhos do Príncipe. Os dois, em cima do cavalo, parecem viver em um universo paralelo, totalmente alheios às coisas que acontecem em volta.
Vitório dá um passo para frente, antes que partam, e assim os dois o fitam. O caçador faz um breve reverencia e se dirige à Branca de neve.
— Me perdoe, alteza, mas poderia me contar porque desapareceu no meio da noite, enquanto acampávamos na floresta?
Suas sobrancelhas pretas e grossas arqueiam e depois franzem. Ela olha em volta e me reconhece, demonstrando isso com um singelo aceno.
— Eu precisei me afastar — ela explica, voltando a encara-lo. —, e por estar escuro não consegui voltar. Me perdi na floresta, mas no fim do outro dia um desses gentis rapazes — ela indica o grupo de anões com a cabeça. — me levou para sua casa.
— No momento vossa alteza se sente bem para partir?
— Muito mais que bem, caçador. — ela dá um gentil e lindo sorriso para ele. — E pode ter certeza que me lembrarei do senhor e da srta. Eloise.
Vitório faz outra reverencia e se afasta, para ficar ao meu lado. Os dois partem imediatamente, nos deixando com o por-do-sol no topo da colina.
Solto minha respiração, tirando cinquenta toneladas das costas e olho em volta, tentando mudar meus pensamentos apreensivos de antes.
A colina é aberta e consigo ver quilômetros de floresta abaixo, e em volta de nós. O por-do-sol banha a vegetação em tons de dourado, e o céu se mescla em várias cores. Tudo é muito lindo, mas ainda tenho coisas com o que me preocupar.
Penso em ir conversar com os anões, que se preparam para partir. Joseph já está fazendo amizade, o que me dá coragem, mas uma mão forte segura a minha, me fazendo mudar de ideia.
Vitório se inclina e beija a palma da minha mão, com os olhos brilhantes direcionado aos meus.
— Juro nunca mais duvidar de você — sua voz baixa e grossa ronrona apenas para mim.
— Não precisa se preocupar com seu juramento. Logo partirei.
— Por favor...
— Não — nego e puxo minha mão ao dar um passo para longe. — Não ficarei, Vitório. Não posso. Já disse o que precisava. Você sabe.
— Eloise...
Desvio meu olhar, olhando para qualquer lugar que não seja ele. A tentação é grande, mas não posso me deixar levar. Vitório é legal, eu realmente gosto dele, mas não é suficiente para me fazer ficar.
Tenho dezesseis anos e nos conhecemos há menos de uma semana, mesmo que eu estivesse apaixonada não trocaria minha família por ele. Não sou a Ayla.
— Não me force a te odiar. — peço, me segurando para falar baixo.
Me viro e vou até onde Ayla está com o noivo. Os dois observam minha aproximação em silencio. Tento dar um sorriso simpático, ou ao menos tranquilizador, mas sei que não passa de uma careta.
— Voltei! — a Fada Madrinha aparece depois de uma explosão de luzes. — Vamos, crianças, não temos muito tempo! Isso, deem as mãos.
Juntamos nosso grupo rapidamente e num segundo a luz explode em nossa volta, nos levando à frente de uma casinha perto da praça do vilarejo.
— É a casa da Srta. Bela — Joseph arfa, surpreso.
— Ótimo! — a Fada bate palmas animadamente. — Meu trabalho está feito. Espero que cumpram o de vocês.
Ayla agradece à ela antes de sumir no ar. Joseph aproveita para ir na frente e bater na porta da casa. Uma voz feminina avisa que já está vindo, e eu volto a ter esperanças.
— Oh! Sr. Martinez? — a jovem Bela fica surpresa em nos ver na porta de sua casa. — Não foi atrás da Srta. Íris? O senhor prometeu...
— Sim, eu fui. Mas não obtive sucesso — ele a explica, corado. Seus olhos brilham como se visse a oitava maravilha. — Aconteceram várias coisas, senhorita, mas lhe explico em outro momento. Essas são as irmãs da Srta. Íris — Joseph aponta para mim e Ayla. —, e gostariam muito de ter um momento com a senhorita.
— Ah... Claro, podem entrar.
Bela abre caminho e nós duas entramos na casinha, enquanto os rapazes ficam na porta.
A casa é pequena. com uma lareira, duas poltronas, uma pequena mesa e duas cadeiras. Há uma estante, no que parece ser a cozinha, abarrotada de utensílios e mantimentos. Ao lado tem uma mesa e um outro tipo de lareira, só que menor, para preparar a comida.
— A casa é pequena, mas podem ficar a vontade.
— Não tomaremos muito o seu tempo — Ayla avisa. — Viemos apenas te pedir para que nos ajude a quebrar a maldição da Fera.
— Como eu faria isso? — Seus olhos castanhos se iluminam, demonstrando o quanto o ama.
— Precisa admitir que o ama — explico. — Assim que fizer isso ele será livre. E nossa irmã também.
— Não sei se ele me corresponderá... — vejo um lampejo de tristeza passar por sua face. — A Fera me libertou para prender sua irmã. Ele deve a amar, não a mim.
— Caso dê errado a senhorita pode voltar. Apenas não podemos ficar na dúvida.
Bela comprime seus lábios e olha de mim para Ayla, claramente com medo de quebrar seu coração. Eu queria poder lhe confirmar que tudo dará certo, mas nosso envolvimento nas histórias já passaram do limite. Não há mais certeza de nada.
— Tudo bem — ela suspira. — Apenas me deem uns minutos para me trocar. Ele não gosta das minhas velhas roupas...
Suas bochechas coram enquanto vai na direção de uma portinha, para outro cômodo da pequena casa. Quando volta está com um vestido azul e os cabelos cacheados com algumas mechas presas no topo da cabeça.
— Vamos? — Bela veste sua capa preta e dá um meio sorriso nervoso, mas corajoso.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
