26. Eloise

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— Eu deveria matar as duas. — o caçador diz, com sua voz áspera e rude, enquanto aponta seu machado na nossa direção. — Me deem um bom motivo para desobedecer às ordens da rainha.

Engulo em seco e tento pensar. Tento mesmo, mas nada vem. Só consigo focar no machado apontando para meu pescoço, ainda manchado com o sangue do lobo que ele acabara de matar na nossa frente.

O caçador é uma pessoa boa, salvou a vovozinha, e, como está escrito nos contos, salvará Branca de Neve também. Mas pelo visto eu tenho que o convencer disso.

A Princesa, que a minutos gritava por socorro, agora está soluçando de tanto chorar. Quando o caçador terminou com o lobo e tirou a vovó de sua barriga, veio direto em nós, ameaçando nossas vidas. E a menina abriu o berreiro.

Eu não consigo falar nada. Ainda estou travada, totalmente chocada e sem reação nenhuma. Quero viver, quero salvar a princesa e seu reino, mesmo que eu seja uma intrusa em sua história, mas não sei o que fazer. Tem um cara ameaçando minha vida, e eu só consigo pensar no quão nojento é o sangue do lobo, que pinga do machado para minhas roupas surradas.

Essa mancha eu nunca vou conseguir retirar. Merda.

— Vamos, pare de chorar e me diga por que não devo matar as senhoritas?

— Ela ser a princesa, e verdadeira herdeira do trono, não é suficiente? — o encaro, saindo do choque. Respiro fundo, tentando pensar numa desculpa boa o suficiente. — Não tem compaixão do povo, que sofre nas mãos da bruxa? Deveria pensar nas pessoas que morrem todos os dias, e pelas famílias que perdem seus entes queridos. Já parou para pensar que cada pessoa que morre é o amor de alguém? Deveria começar a pensar nisso.

— Não posso fazer nada contra a rainha. Se a desobedecem; morrem, e eu não vou morrer. Por isso as matarei.

— Levando a princesa para o reino mais próximo, comigo, estará ajudando. E muito. Eu estava fazendo isso, até cair no ninho do lobo.

— O que ganharão indo para outro reino?

— Como princesa, ela pode se casar com o príncipe e reivindicar seu trono, que a rainha tomou. Assim, salvará seu povo e trará paz para sua terra novamente.

Os olhos negros do caçador me medem dos pés a cabeça. Talvez ele esteja se perguntando quem é essa garota que ousa falar com ele no tom que bem entende. E até eu ficaria surpresa, se olhasse por fora. Afinal, quem sou eu? Quem eu acho que sou para ousar tanto assim?

— P-por favor, não me ma-mate. — Branca de Neve soluça, atrás de mim.

— Se eu as ajudar estarei correndo perigo tanto quanto as senhoritas. E nossas famílias não ficarão para trás. — ele olha no fundo dos meus olhos e avisa: — A Rainha sabe quem fugiu com a princesa, e sabe onde sua família está. E também sabe da minha. Se for para ajudar a menina, que sejamos rápidos. Não corremos riscos sozinhos.

Assinto, incapaz de falar. Tinha me esquecido da minha família. A família da Eloise que habitava antes d'eu aparecer. Com certeza eles estão correndo grandes riscos, e por culpa minha. Totalmente minha. Preciso arrumar essa bagunça logo, e do jeito certo; levando Branca de Neve para seu príncipe.

— Pare de chorar, Princesa. — peço, enquanto o caçador nos solta. — Não vamos morrer.

— Agora e-estou chorando porque a vida de todo mundo depende do meu casamento c-com um homem que n-nunca vi na vida. — ela funga e soluça ao mesmo tempo. — Como posso fazer isso, Srta. Eloise, se eu passei anos trancada, olhando para o teto?

— Será uma boa rainha, tenho certeza. — tento consolar, agora sentada de frente para a menina, ainda no chão. — Não duvide do seu potencial, a princesa nasceu para isso, e será a melhor rainha do mundo inteiro. E, como minha mãe sempre me falava: se não acreditarmos em nós mesmos, quem irá?

Ela assente e me abraça apertado. Pisco, com a surpresa do ato. Nem me passou pela cabeça que ela faria algo assim, e agora está fazendo. Retribuo seu abraço, na esperança de que a dê forças para fazer o que tem de ser feito.

Vovozinha nos convida para passar a noite, mas o caçador, que se chama Vitório, achou melhor começarmos nossa viagem o quanto antes. Ela nos deu algumas coisas para nos aquecer e suprimentos suficiente para três dias. Partimos alguns minutos antes do sol se por, e caminhamos pela estrada de terra, na direção que o soldado havia nos indicado.

Passamos pelo orfanato, mas não paramos. Continuamos andando até quando já está tudo um breu e temos apenas a tocha que Vitório acendeu, para nos guiar. Depois do que parecem horas, avistamos luzes de um possível vilarejo. Mas como não temos dinheiro para uma pousada, acampamos na floresta, não muito longe da estrada.

— Teremos que revezar na hora de dormir. — o homem, que aparenta ter poucos anos a mais que eu, propõe. – Quando for a vez das senhoritas, caso vejam algo estranho me acordem. Precisamos descansar, mas não ao mesmo tempo. Há coisas durante a noite, por essas florestas, e não quero ser pego desprevenido.

Assentimos, concordando com ele, que obviamente tem experiência nisso, bem ao contrário de nós duas, que estamos com os olhos arregalados e tremendo de medo.

Não acendemos nenhuma fogueira, para não chamar atenção, e apagamos a tocha assim que arrumamos o lugar que vamos dormir, ou tentar. Me ofereci para ficar no primeiro turno, e Vitório no segundo. A princesa fez uma careta, mas aceitou acordar mais cedo para ficar de olho enquanto dormimos.

De início fiquei com medo. Os dois logo adormeceram e eu me senti totalmente sozinha e vulnerável. Tudo o que eu enxergava era preto, nem ao menos sabia onde os meus dois companheiros estavam, mesmo sentindo seus corpos quentes e vivos perto de mim. Mas, depois da primeira hora, fui relaxando até estar totalmente segura que nada poderia acontecer, que estava tudo sobre controle.

Vitório acorda no meio da noite, depois que eu quase cochilei e decidi que era hora de trocar de turno. Tateei o chão até encontrar o couro de suas roupas, e o chacoalhei até acordar. Murmurei alguma coisa sobre quase ter dormido sentada, e, enfim, descanso em volta da manta quentinha que a vovozinha nos deu.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora