Diogo fica um tempo quieto, observando tudo, olhando todos em volta da praça, menos para mim. Mas eu espero, quieta.
- Acho melhor voltarmos para a loja, ainda não pegaram minhas medidas. - o lembro, depois de uns minutos em silêncio total entre nós, e me levanto. - A madrasta vai ficar louca, se eu demorar mais.
Ele segura meu pulso com sua mão grande e quente. Nem um pouco forte, mas o suficiente para me fazer parar e abaixar meu olhar para ele. - A madrasta é sua mãe.
- Não. Ela não é minha mãe. - repito, mesmo que eu já tenha explicado. - Mas se você não acredita, tudo bem. Eu vou encontrar uma forma de voltar para casa, de um jeito ou de outro.
Diogo se levanta, ainda me encarando com seus grandes olhos castanhos, e me solta.
- Preciso de um tempo. - ele suspira, passa a mão pelo cabelo preto e o despenteia. - Amanhã. Às dez. Na cachoeira.
- Cachoeira?
- Pergunte à Ella. - ele pega minha mão e a apoia na dobra de seu braço, me arrastando para a loja. - Ela sabe onde é a cachoeira, te dirá o caminho.
☆
Na manhã seguinte, de tanta ansiedade, acordo junto com o galo, antes mesmo do sol nascer. Não tinha falado nada com Ella, e julguei ser uma ótima hora para isso, já que a escutei cantar baixinho, no quintal.
Visto um robe e calço as pantufas antes de sair do quarto, que compartilho com Evangeline, na ponta dos pés. Desço as escadas e vou direto para a cozinha.
É grande, tem uma lareira, que certamente é o fogão, e no meio uma grande mesa de madeira. Perto da lareira tem uma mesa, com utensílios de cozinha, temperos e comida, na mesa central também, mas com mais espaço de sobra.
A cozinha é fria, mesmo com a lareira ligada, mas talvez seja por conta da porta aberta. Ella deve estar ainda no quintal. Vou até a porta e espio lá fora. Igualmente como vi da janela do meu quarto, mas com um poço, que antes não tinha reparado.
Escuto Ella e olho na direção de sua voz, que vem do galinheiro. Vejo a saia de seu vestido azul esfarrapado, e vou até ela.
- Bom dia! - tento soar animada, e não nervosa como estou.
Ella da um pulinho de susto e tira a cabeça do galinheiro para me olhar com a testa franzida de confusão.
- Bom dia, Srta. Ayla... - quase parece uma pergunta, mas deixo isso de lado.
- Precisa de ajuda? - me ofereço, para o quê quer que ela esteja fazendo.
- Não. - ela responde rápido demais. - Mas obrigada. - Ela da um sorriso simpático e volta ao trabalho no galinheiro. - Precisa de algo?
- Na verdade, sim. Mas antes eu realmente queria te ajudar de alguma forma.
- Fico grata, mas não é uma boa ideia. - Ella sai do galinheiro e parte para a cozinha. - No que posso te ajudar?
- O Sr. Larsson me disse para o encontrar na cachoeira. - tento ser formal, como a época manda. Ella não parece supresa, enquanto arruma os ovos que pegou no galinheiro, dentro de uma panela de alumínio. - Ele me disse que você sabe onde a cachoeira fica, e que pode me levar lá.
- Por que eu faria isso? - ela pergunta, surpresa. Não por maldade, mas por realmente estar surpresa com meu pedido. - A senhorita vai quase todos os dias à cachoeira... Não entendo porquê tenho que lhe mostrar o caminho.
- Eu... - engulo em seco. Fui pega no flagra. - Eu me esqueci.
- Impossível.
- Por favor...
Ela respira fundo, enche a panela com água de um barril, e a deixa pendurada num gancho, acima do fogo. - Tudo bem. Que horas?
- Às dez.
- Esteja pronta às nove e meia. Vamos sair vinte minutos antes.
- Obrigada!!!
Dou o meu maior e melhor sorriso, antes de sair da cozinha para a deixar trabalhar em paz.
Às nove e meia estou de volta, agora com roupas "apropriadas". Ella deixa algo na panela, em cima da lareira, e sai comigo. Ela vai em direção da cerca sem piscar, e a pula sem muito esforço.
A acompanho uns passos atrás, já cansada por conta do meu peso, e imaginando como será o baile; e como ela é sortuda por já ter o destino traçado, muito bem conhecido e escolhido.
Atravessamos o campo e depois a floresta. Não entramos muito nela e logo paramos quando escutamos o barulho de água. A cachoeira deve estar perto.
- Siga aquela direção. - Ella aponta para a frente, afim de que eu siga mais a fundo da floresta. - Se o Sr. Diogo não estiver lá, tente voltar sozinha, ou espere. Se a senhorita não retonar em duas horas, eu venho te buscar.
Eu escuto tudo o que sua voz doce e gentil diz para mim, e imagino que seja muito fácil alguém se apaixonar por Ella.
- Obrigada... E me chame pelo meu nome. Ayla. - sorrio em agradecimento e sigo para dentro da floresta, sem olhar para trás, e tentando não me lembrar dos bichos que certamente me cercam.
Caminho pela direção dada por uns poucos minutos, e fico grata quando, depois de me esquivar de uma grande folha, vejo a cachoeira. Ela não é pequena, nem um pouco, e segue o rio mais à dentro da floresta.
Encontro Diogo sentado numa grande pedra, perto da caida d'água. Ele me observa chegar perto, com o rosto sério, e aqueles olhos pretos sem revelar nada. Sei que minha vida está em suas mãos, e isso me faz engolir em seco. Confiei cegamente em um garoto que nunca vi na vida, e que é fictício.
Paro de frente à pedra, bem embaixo dele, que não para de me observar. Hoje suas roupas são menos finas, totalmente informais e amassadas. A camisa branca encardida está com os dois primeiros botões abertos, e a calça preta, suja de lama, como a bota da mesma cor.
Me pergunto se Diogo tem minha idade, e se posso o chamar de garoto. Ele parece ser um homem, apesar de ter alguns detalhes que podem se dizer infantis. Aposto que ele não gostaria que eu tocasse nesse assunto, nem sobre a sua barba, por fazer, que ainda tem falhas.
- E então? - pergunto, mudando meu peso de uma perna à outra, não suportando seu silêncio.
- Eu pensei em pedir provas, mas então vi você entrar na floresta com Ella. A Ayla que eu conheço não faria isso, porque ela conhece essa floresta de olhos fechados. Então... Eu acredito em você, Ayla. Apesar de ser difícil pensar nessa possibilidade, eu acredito. Mas vou te ajudar apenas com uma condição.
- Qual?
- Eu quero mudar o futuro de Ella. E você vai me ajudar nisso.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
