O gosto pela moda certamente não passou pelas meias irmãs de Cinderela. Parece que as duas competem pelo guarda-roupa mais feio. Vestidos com cores amarelo canário, verde folha, rosa fúcsia e violeta. Um desastre.
A culpa não é da madrasta, por incrível que pareça. Na escolha dos vestidos para o baile do Príncipe, que ainda irá acontecer em alguns meses, ela deixou que nós mesmas escolhessemos nossos vestidos.
Escolhi um rosa pastel com alguns detalhes em branco, seda e um tecido transparente, parecido com tule. Da forma que os pais do Diogo disseram, será um vestido lindo, mesmo assim tenho medo disso ser mentira. Mas vou confiar.
As roupas que eu tenho para usar no dia a dia são horríveis. Além de serem apertadas e feias, na maioria das vezes tenho que usar a merda do espartilho, o que é tão horrível quanto. Às vezes eu nem sei como consigo respirar dentro desse negócio.
Outro dia, quando fui na cachoeira novamente com o Diogo, para pensarmos nos planos da minha volta para casa, e de Ella se apaixonar por ele, eu fui sem o espartilho. O que foi ótimo, exceto a barriga proeminente da irmã feia. Mas isso eu tenho que deixar passar; ela tem um cabelo naturalmente maravilhoso e loiro, e é a única coisa bonita na irmã feia, apesar dela ter a mesma cara que a minha.
Tirando essa segunda vez que fui na cachoeira com o Diogo, não o vi muitas vezes. Ele trabalha com os pais na loja, então não tem muito tempo para passar comigo, o que é horrível. Tenho que passar meus dias ouvindo a madrasta e a Evangeline reclamarem de Cinderela; que faz tudo por nós.
Os contos não chegam nem perto do que realmente é. Tudo aqui é horrível. Eu queria poder voltar para casa e rever tudo, toda minha vida, e me desculpar com todos. Com todas as pessoas que eu vivi, que eu magoei e menti.
Mas hoje, que faz uma semana que estou dentro desse livro, Diogo me mandou um bilhete, logo cedo, pedindo para o encontrar na cachoeira. E isso me deixou com uma mistura de alegria, insegurança e nervosismo. Eu, normalmente, sinto várias coisas; é tudo intenso e à flor da pele. E aqui, dentro do livro, parece que está sendo mais que o normal.
Como é domingo, aposto que as duas nojentas acordarão tarde; então, logo que termino de ler o bilhete, me arrumo, sem vestir o espartilho, e vou para dentro da floresta. Agora sei me localizar dentro dela tranquilamente, mesmo tendo vindo apenas duas vezes. Diogo me ensinou como andar, sem me perder, e não é tão difícil como eu pensava.
É uma floresta, mas estamos no início dela, nas bordas, então as árvores estão um pouco afastadas. A vegetação também colabora para andarmos tranquilamente, e como a cachoeira não fica muito longe, fica mais fácil.
Eu ainda não fui mais a dentro, por motivos óbvios. Se estou num livro de contos, além de existir fadas-madrinhas, com certeza tem bruxas, e coisas do tipo. E eu não quero chegar perto de nenhum ser mágico.
Encontro Diogo na grande pedra, como das outras vezes. As roupas são as mesmas, mas a diferença é a cara de sono. Até que ele fica bonitinho assim, penso.
O moreno sorri e me cumprimenta:
— Bom dia, raio de sol.
Coro, sem querer, e levanto um braço quando chego abaixo dele. — Pode me ajudar à subir?
— Ela nunca quis subir aqui, você realmente não é ela. — ele se levanta e desce por trás da pedra. — E é mais fácil do que você pensa.
O moreno me ajuda à subir, por trás, e então me sento em cima da pedra, bem ao lado dele.
— Como foi sua semana? — pergunto, puxando assunto.
Diogo tenta prender o riso e responde: — Interessante. Fiquei pensando em uma senhorita de cabelos loiros, que se parece com uma antiga amiga, mas que não é ela ao mesmo tempo.
— Você passou a semana toda pensando em mim? Achei que era apaixonado por Ella, não por mim.
— Eu nunca me apaixonaria por você, só fiquei intrigado; uma coisa dessas não acontece com qualquer um. Muito menos com quem nem é citado em um conto.
Dou um sorriso de lado e desvio olhar para as copas das árvores.
— Na minha vida real eu me pareço com a irmã feia, mas não sou gorda, e meu cabelo não é loiro de verdade. Eu diria que sou bonita, principalmente porquê sou popular na escola.
— Por que você diz que é a "irmã feia"? — Diogo pergunta, indo para uma direção diferente da conversa.
— Nos contos, Cinderela tem duas meias irmãs, uma é a burra, e a outra a feia. Evangeline é linda demais, para ser a irmã feia, então presumi que eu sou. Principalmente porquê Evangeline é muito burra, e fala muita merda.
Seus olhos castanhos brilham, em diversão, quando eu falo "merda", e ele não consegue segurar a risada. Quando se recupera, diz:
— Eu nunca achei a Ayla feia, nem você. — Diogo olha para o rio, que corre floresta a dentro. — Eu disse que nunca me apaixonaria por você, porque eu conheço Ayla há tempo demais. E mesmo não sendo ela aqui, do meu lado, é difícil separar uma da outra. E também, sou apaixonado por Ella desde que somos crianças; antes mesmo de Ayla, Evangeline e a "madrasta" aparecerem.
— Obrigada, pelo elogio. — o observo pelo canto do olho. — E, se quiser saber, eu também não me apaixonaria por você.
— Por que? — ele ri com sarcasmo. Está duvidando.
— Porque eu gosto de um garoto da minha escola, então... — dou de ombros.
Diogo bufa e se levanta, mas não desce da pedra. — Descobriu alguma coisa? Sobre o tal livro?
— Nada. — respondo, não ligando para outra mudança de assunto. — Mas consegui conversar com Ella. Parece que ela tem um carinho por você, mas... Não passa de amizade.
Os olhos castanhos se voltam para mim. — Não por muito tempo, querida Ayla! Mas agora, preciso te ensinar algumas coisas...
— O que? — franzo o cenho, surpresa.
— Seus modos. Certamente sua época não leva a sério como tratar uns aos outros, mas, nesse momento você não está em sua época.
— Me pergunto, então, porque você não está me chamando de senhorita.
— Somos amigos, e estamos à sós.
— O que é inadequado. — tiro minhas botas de caminhada e fico em pé, e descalça, em cima da pedra e de frente para o Diogo, que tem uns bons dez centímetros à mais que eu. — Espero que ninguém nos force à casar.
Ele dá um sorriso sarcástico, de lado, e estende uma mão para mim. — Me permita lhe demonstrar, srta. Ayla, como uma dama deve se comportar na sociedade atual.
Sorrio e apoio a minha mão, sem luva, na sua; suspirando, ao sentir sua mão, quente e áspera, na minha.
— Somente se o gentil cavalheiro permitir que lhe ensine como conquistar o coração da pobre Ella. — ouso, sentindo como se estivesse entre os garotos da minha classe, novamente.
Com seu olhar totalmente direcionado à mim, ele se abaixa um pouco, como uma reverência, e eleva minha mão aos seus lábios, fazendo minha pele, onde seus lábios macios e quentes estão, formigar.
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O Que Os Contos Não Contam
FantasyAyla, Eloise e Íris são trigêmeas, mas a única coisa em comum é o amor pelos livros de contos de fadas. Principalmente pelas adaptações. As três vivem em pé de guerra, sempre discordando uma da outra, mas quando Íris acha uma nova adaptação tudo mud...
