32. Eloise

241 78 108
                                        

Na metade do dia eu já não estou mais aguentando andar, e meu estômago grita tanto que já está inconveniente. Vitório revira os olhos antes de finalmente sugerir uma pausa. Eu aceito já me sentando por ali mesmo, nem ligando para o tanto de mato, que não consigo nem ver o chão.

— O que temos para comer? — ele pergunta, se sentando ao meu lado.

Dou de ombros, evitando ao máximo falar, para não morrer de sede. Mas não encontro nada que me fará feliz no momento. Tudo o que sobrou de ontem e hoje mais cedo foram uns três biscoitos.

— Vamos ter que caçar. — o homem avisa, depois que conto sobre os biscoitos. — Não adianta me olhar dessa forma, Srta. Eloise. Ou caçamos ou morremos de fome. Simples. Não supõe que também preciso comer? A diferença é que a Srta. está acostumada a preparar as refeições com tudo ao seu dispor. Já eu tenho que caçar, desde meus cinco anos.

— Tudo bem, pode caçar que ficarei esperando. — cruzo os braços, o encarando.

— Preciso que cace também. Comigo, como uma equipe.

— Não sou sua equipe, e nunca cacei. Sou contra a caça, mas como não temos outra opção, me ofereço para preparar o jantar, como uma boa mulher desse século faz. Mas só porquê iremos morrer de fome, senão, pode ter certeza que não tocaria no bichinho por nada nesse mundo.

— A senhorita está muito enganada, se pensa que ficará aqui, enquanto caço.

— Por acaso o senhor tem medo de que eu veja seu pior lado, como o Edward? Duvido que tenha dentes afiados como ele.

— Não conheço o Sr. Edward. — ele franze o cenho, um pouco confuso. — Quero apenas que a senhorita fique escondida. Se ficar onde os animais a vejam, nenhum aparecerá, isso é um fato. Agora, sobre o Sr. Edward, o que quis dizer com dentes afiados?

— Onde me escondo da onça? — pergunto, mudando de assunto.

— Onça? — ele pergunta, apontando a direção que devemos seguir. — É um tipo de animal?

— Sim. — me levanto e sigo o caminho indicado. — É como um gato, maior, forte, rápido e pode matar tanto quanto um lobo, ou animais grandes e ferozes.

— Nunca vi um por aqui... Preciso contar aos meu conhecidos, para nos protegermos dessa fera.

— A onça vive na América do sul, então não se preocupe com ela. — ignoro seu constante olhar confuso e me abaixo atrás de arbustos e pedras. — Eu fui irônica, Sr. Vitório, espero que tenha entendido.

— Apenas fique quieta, irei lhe ensinar como fazer armadilhas para coelhos.

Ele se abaixa ao meu lado, com umas varas nas mãos que pegou pelo caminho, e me ensina a fazer uma armadilha. Eu sempre achei que fosse mais complicado, mas não é. O que parte meu coração é saber que preciso fazer para me alimentar das pobres criaturas.

Depois dele fazer duas, pego o restante das varas e faço mais duas, enquanto ele fica observando a floresta silenciosamente.

O rapaz sempre faz gestos para que eu fique calada, sempre que faço algum barulho sem querer.

Passamos tanto tempo sentados e em alerta, que acabo me acostumando com o silencio, e a fazê-lo, coisa que não é fácil. Vitório sai do esconderijo rapidamente, para espalhar as armadilhas, mas logo volta.

Depois do que parecem horas, ele se levanta e sai, voltando com dois coelhos peludos e cinzas. — Esse será nosso jantar.

— Perdemos metade da viajem para pegarmos dois coelhos? — pergunto, um tempo depois, enquanto observamos o fogo assar a carne dos bichinhos.

— Não conheço a área, não sei o que esperar. Se vem lobo, um cervo ou coelhos. Não poderia correr esse risco.

— E se a princesa morrer antes de a encontrarmos? Isso sim seria um grande risco.

— Não podemos salvar nosso reino de barriga vazia, menina. — ele dá um meio sorriso e seus olhos brilham em diversão.

— Falou o tiozão. — ironizo, cruzando os braços. — Quantos anos o senhor tem? Quarenta?

Ele solta uma gargalhada contagiante, que faz sua cabeça arquear para trás. Me seguro e mantenho o semblante sério. — Dezoito. — ele responde. — E a senhorita? Dez?

— Muito engraçado. — semicerro meus olhos para ele. — Dezesseis. O senhor não é novo demais para ser um caçador assassino?

— E a senhorita não é nova demais para sequestrar a princesa e ir contra a rainha, que por acaso é uma bruxa muito poderosa?

— Acho que entendi as entrelinhas. — desvio meu olhar dele para o fogo novamente. — Não tivemos escolha.

— Exatamente.

Sua voz, parece engrossar, com a mudança de assunto. Mal conversamos, mas o assunto entre nós oscila muito. Ora estamos sendo sarcásticos, ora estamos falando sobre assuntos sérios. Até parece o clube de debate, que participo na escola.

— Sua família é de caçadores? — pergunto, enquanto comemos, uns minutos mais tarde.

— Sim. Meu avô aprendeu com o pai dele, que aprendeu com o pai e assim por diante.

— E seu pai?

— O ensinaram e ele passou para mim. Nada mais. — é tudo o que diz, e isso me deixa curiosa.

— O que quer dizer com nada mais? Ele morreu? — ouso perguntar.

Sei que não vou ter a resposta para minha pergunta, mas já é um começo.

— Por que quer saber tanto, Srta. Eloise? Pretende contar à rainha todos os meus segredos?

— Provavelmente. — brinco, para deixar o ar mais leve. — Meu pai morreu antes que eu nascesse. Minha mãe criou eu e minhas irmãs trigêmeas sozinha. Minha avó ajudou nos primeiros anos, mas morreu também. Somos só nós quatro, e agora estou no meio do nada, procurando por uma princesa que nem se importou em avisar que ia fazer xixi.

Vejo pelo canto do olho que Vitório me fita atentamente, mas não faço contato visual. Isso foi para ele entender que não estou com a rainha, se vamos ser os heróis desse conto, precisamos confiar um no outro.

— Não sei onde quer chegar com essa sua história.

— Se o senhor prestar atenção, vai saber.

Mordo mais um pedaço da carne e ocupo minha boca por mais um tempo, deixando o silencio reinar.

— Se estiver disposta, posso te ensinar a usar o arco e flecha. — Vitório oferece, cortando o silêncio com um outro assunto. — Se não for me matar com ele, claro.

Arco e flecha? Útil é, e teria me servido na casa da Vovó. Mas, agora não tenho tanta certeza assim. Estou com um caçador, no meio da floresta, por que saber usar arco e flecha me seria útil?

Íris provavelmente surtaria com a minha hipótese de recusar. E minha mãe faria um discurso de 24 horas, sobre eu ter que ser uma mulher forte e independente. Ela sempre falava pra mim e minhas irmãs que precisamos saber de tudo. O mundo é pequeno, e nunca sabemos o que nos espera na próxima esquina.

E, no meu caso de agora, não sei o que me espera depois daquela velha árvore, nem depois daquele arbusto com teias de aranha. E um homem, do século XVIII está se oferecendo para me ensinar algo que mulheres normalmente não fazem... Caramba, por que eu recusaria?

Então eu aceito.

O Que Os Contos Não ContamHistórias para pegar e não largar. Descubra agora